quinta-feira, 10 de março de 2011

PESSOAS MELÃO

Banalizar as pessoas como frutas, tem sido uma constante na mídia e nos meios sociais. Hoje, vemos morangos, melancias, bananas, peras... e uma infinidade de outros adjetivos. Cada vez mais, coisificamos os seres e damos vida às coisas, isto é, cada vez mais o futil ganha vida, em detrimento do útil.

Mas se analisarmos com cuidado os nomes que se colocam às pessoas, encontraremos que há muita verdade nisso.  E queria que pensássemos nesse esrito, em um certo tipo de pessoas que todos nós cohecemos. Aqui, coloco o nome de pessoas melão, porque são sempre embotadas de vida, sabores e cor. O melão quase sempre é assim. 

Há pessoas que nos rodeiam, que quase sempre não agregam nada com sua presença, cometários e opinião. São facilmente esquecidas pelas pessoas e quase sempre, sufocadas por outras. Essas pessoas, possuem uma dificuldade enorme em expressar seus sentimentos e emoções e por isso mesmo deixam de lado a oportunidade de marcarem com sua presença, a vida de uma pessoa.

Existem vários comportamentos que fundamentam uma pessoa com atitudes de melão, assim como há várias formas de se cultivar melões. Um bom melão, se conhece pela cor, formato, cheiro e peso. Assim são as pessoas.  Precisam de cor, textura, vida, sabor, cheiro, envolvimento... Não estou afirmando que melão, seja a pior das furtas. Quero dizer que  a calda e a carne suave do melão, fazem com que ele tenha muitos adeptos. Para os melões humanos há também os que prezam e partilham suas mazelas e vitórias. 

Viver e relacionar, exige uma decisão de peso maior. Passar pela vida somente não deve ser permitido para pessoas que querem ser muito mais que melão de fim de feira: sem cor, sem preço, sem sabor e machucados. Pessoas melão, tem o prazer de nunca serem intensos: não choram muito, não gozam muito, não perdem nada, mas também não ganham nada. Por medo de perder, não arriscam; por medo de sofrer por amor, evitam amar. Por medo de desafios, não abrem mão do antigo emprego. Por medo do preconceito bobo, nunca dizem sim ao novo e ao desconhecido.

Pessoas assim, acabam sendo mistura do melão com presunto em um insólito café da manhã. Se contentam com a calda espessa e rala que a vida nos oferece todos os dias, em rodas e bate papos sem fins; em utopias que nos cegam sem valores e por fim, nas amizades que nunca somam, nem agregam valor à nossa constituição de ser.

Melão não, obrigado! 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.
 

domingo, 30 de janeiro de 2011

O MASOQUISMO NOSSO DE CADA DIA

Que todos nós somos frutos de uma industria cultural manipuladora e que as nossas reações frente a essa manipulação, como humano, é inegável, todos nós já sabemos.  Inclusive, foi Adorno, que disse que nosso inconsciente sofre essa repressão da "cultura" a que somos submetidos. É essa força, que determina geralmente, o que vamos usar, comer, sentir, desejar, pedir, como vamos nos comportar e até mesmo o que vamos achar certo ou errado, bom ou ruim. 

Isso é fato. Somos frutos de um meio, de um poder industrial. Mas o que assusta mesmo é  pensar que as pessoas sentem prazer (e forte prazer), frente a essa manipulação. As atrocidades e mazelas dos nossos dias, nos enchem quase sempre de prazer, de gozo.  O sofrimento alheio e a dor que sabemos que eles sentem, nos deixam excitados e altamente ligados ao acontecido em questão. Eu sei, parece absurdo o que você está lendo! Eu também penso que é! 

Para recaptular, masoquismo é uma tendência ou uma prática, pela qual uma pessoa busca sentir prazer quando vê sente dor ou apenas ao imaginar que sente.  Está ainda ligado  a uma uma forma de expressão sócio-sexual coletiva ou individual.

São os casos mais cruéis e sanguinários que nos atraém na programação da tv. São nos "barracos" que vibramos e torcemos para que um lado saia campeão. São as narrações mais dolorosas que nos convidam a praticar o nosso sentimentalismo, sejam ele de solidariedade, ou de  prazer. Isso se explica, quando lemos e vemos os altos índices de audiência, quando há as coberturas de tragédias, sangues e dor. São nas séries de Jogos Mortais que vibramos e comentamos com avidez. Os filmes melosos demais, nos dão sono. São sem graça. 

Por certo, somos todos ambivalentes, no que se refere aos nossos sentimentos. Isso quer dizer, que podemos ser solidários e masoquistas em um único acontecimento. Esses dois sentimentos ficam de plantão sempre e são convocados quando nos deparamos com algo que nos assuste ou nos impressione.  Freud falou melhor sobre isso. Quando escreveu sua magnífica obra O mal estar na civilização, escrito por volta de 1930, ele disse que duas forças opostas nos regem. São instintuais: o instinto de vida e o instinto de morte, isto é, Eros e Tanatos.

Ainda para ele, os instintos é que expressam as nossas necessidades e sabemos que as necessidades só se realizam com a satisfação. Vamos entender isso melhor: alimentar é uma necessidade, assim como fazer sexo. Por outro lado, agredir, destruir, matar ou ainda, assistir a isso, também não deixam de ser. Porém, a civilização a que somos submetidos, fazem com que tais desejos sejam freados e reprimidos. Reprimidos como? Pelas leis, por exemplo. As leis tentam controlar e por ordem na sociedade. No entanto, a sociedade ainda recorre a guerras e conflitos para resolver a maioria dos seus probelmas, ou seja, recorre a seus instintos mais primitivos.

O masoquismo nosso de cada dia a que me refiro, está continda nos atos e nas ações que nem sempre podemos realizar, fruto das leis e normas que nos cercam. Mas elas estão ali, demonstradas em atos, olhares, sentimentos. Podemos por exemplo, não externar nosso preconceito a alguém, mas de certa forma o repugnamos por dentro.

Devemos ainda, considerar as causas sociais e econômicas da violência, bem como os fatores psicológicos e a falta de referência do que é amor para nos tornarmos a cada um dia um masoquista. Quando vemos um filme violento, uma notícia cruel... quando ficamos horas assistindo com interesse e curiosidade uma desgraça, ainda que com mal estar, estamos satisfazendo nossos instintuos destrutivos. Há sem dúvida, uma identificação muito grande do agressor com o espectador. 

Mas, sabemos que admitir isso é difícil. Seria muito, admitir tal sentimento e ser condenado pela sociedade, amigos e familiares. Sabemos também, que reconhecer o material que somos feito e que muitas vezes é sórdido e mau, também é complicado. 

Porém é mais fácil admitir que os filmes vendidos são os mais violentos do que admitir que temos um gosto por cenas violentas e que isso revela o nosso instinto agressivo. Se é ficção ou realidade não importa. O que importa é que é assim!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O DIA DE CORTAR O CABELO

Um dos acontecimentos marcantes em nossa vida, é sem dúvida o dia em que, quando criança, tínhamos que cortar o cabelo. Essa atividade na verdade existiu sempre, em especial nos meninos. Mas é só depois, e bem depois, que descobrimos esse dia. E aí a relação com a essa data começa a ser construída.

É normal que quase sempre, nós não nos lembremos desse dia. Talvez agora, com um pouco de exercício, possamos revisitar essa data, e perceber alguns por menores, que não percebíamos. Talvez hoje, outra forma fácil que relembrarmos essa data é assistindo um adulto tentando fazer isso com uma criança.

Mas era nessa tarefa que por certo iríamos ficar muito feliz ou por certo iríamos nos aborrecer e aborrecer outros. O cabelo -  o nosso cabelo -  que iam por as mãos, era algo que quase sempre não gostávamos. Os pais precisavam prometer balas e doces, para conseguir em poucos instantes, a quietude tão difícil para o pequenino. Para outros, esse dia era sinonimo de festa. A pessoa que ia cortá-lo sempre tornava-se o "tio" a quem depositávamos confiança.

Para outros, esse era um acontecimento digno de festa. Era um lugar, que era bom para ir com outros, e quando a família tinha mais de um filho, geralmente era uma tarefa coletiva e embora inquieto, cortar os cabelos era bom. Após, haviam os elogios e o reforço de que "ficou lindo". 

Outro fator curioso, e que reforçava a decisão de cortá-lo ou não, era  a posição da lua, que sempre era observada. Dependendo da fase que a mesma estava, era melhor não cortar. Até hoje, há pessoas que a observam. A diferença é que naquele época, nós não entendíamos porque.

Ainda havia um fator que hoje não se vê mais. O corte dos cabelos era feito por alguém que não era um profissional propriamente dito. Ele, a pedido dos pais, colocava o pequenino sobre uma cadeira e sem capa ou espelho, fazia o corte. Esse corte, era uma escolha dos adultos e só depois de pronto era nos dado um pequeno espelho para a avaliação. Pequeno mesmo.

Para uns, a impressão era de que os cabelos nunca mais iriam voltar a ser o que eram. O temor era de que no dia seguinte, iríamos ser alvo de críticas dos amigos na escola, na rua e com um corte, que até nós mesmos reprovava na maioria das vezes.

Dito isso, podemos pensar no cortar o cabelo de hoje. Talvez por conta desse dia de cortar o cabelo que ficou para trás é que pensamos nos valores atuais. O cortar do cabelo fala muito de uma pessoa. Os cortes e as formas, revelam muito. Hoje, não há mais o "barbeiro" de espelho pequeno e cada um de nós podemos escolher como usá-lo e como cortá-lo. Há aqueles que odeiam que toquem nos seus cabelos; há aqueles que amam que tocam; podemos ver aqueles que cuidam e fazem dele um aliado à sedução e há aqueles que deixam como estão. Até na religião, encontramos a força da fé, baseada no cabelo. Há os que penteiam, os que fazem cachos, outros que alisam, outros que deixam criar piolhos.

O tempo também pesa nos cabelos. Eles ficam brancos, outros desaparecem e há os que se enfraquecem demais. Há os que lutam para mantê-lo sempre vivo com cores das mais variadas e por outro lado, os que dizem que o charme é a cor que o tempo lhe dá. É impressionante como existe hoje cremes e mais cremes para todos os tipos de cabelos possíveis. 
 
O que trazemos de real, do dia em que cortavam o nosso cabelo? Porque esse dia marcante é lembrado tão pouco? Porque chorávamos quase sempre? Porque ás vezes sorríamos?  Porque havia o dia de cortar os cabelos?


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

domingo, 26 de setembro de 2010

JUNTOS, PORÉM SEPARADOS

Não é raro ouvirmos queixas sobre queixas, de relacionamentos que estavam muito bem enquanto namorados, mas que acabou por se desmoronar quando casados. O que deveria ser a lua de mel, até porque deveria ser também o que se busca no namoro,  passa a ser frustrante. Não é via de regra logicamente, mas é comum que isso ocorra, ou pelo menos que as crises compareçam. Mas, cabe reflexão, para pensarmos o porque isso ocorre e mais ainda, descobrirmos quais as formas viáveis para se resolver isso. 

Um dos fatos mais notórios, é justamente a convivência diária e continuada. Em outras palavras, a intimidade que passa a ser dividida, como se obrigação fosse. Enquanto namoro, essa "caixa de segredo" chamado intimidade fica preservada e de certa forma protegida. Numa relação, agora de casados, é necessário aprender a dividir o que antes não se dividia; precisa aprender a compartilhar o que não se compartilhava; precisa aprender a ceder, o que antes não cedia.

Outro fator é o desgaste comum e inevitável, que todos nós estamos submetidos, quando convivemos com as pessoas por muito tempo. Claro, que quando temos um sentimento por alguém, a busca por este, é incessante. Porém, os acontecimentos tornam-se de grande proporção, quando estamos pertos demais. O exemplo mais claro para ilustrar o quero dizer, são as interpretações na fala, olhar, atitudes que comumente pensamos ser de certa forma, quando na verdade pode ser de outra. Exatamente pelo fato de irmos conhecendo um pouco mais uma pessoa que até pouco tempo, não compartilhava sua vida conosco e não dividia a mesma cama, e que, o que antes era novidade, agora vira rotina.

E por fim, ainda temos a dificuldade de fazermos o simples tornar especial. Geralmente, na fase do namoro, essa arte ainda é possível ser feita: simples gestos e encontros, tornam-se especiais. Um cinema, fim de semana com amigos, risos, o pensar no outro,  planejamento do futuro entre outras atividades, transformam o corriqueiro em especial. No casamento, isso vai aos poucos perdendo o sentido.

Dessa forma, podemos então pensar, que hoje temos muitos casais, que estão juntos, porém separados há tempos.  Porque? Explica-se isso em partes, no fato de não ter o sentimento que está só, ou ainda o sentimento de que não está separado. Sem dúvidas,  isso pesa muito em qualquer relação. Há muitos relacionamentos, em que os casais não estão casados. Estão separados fisicamente, emocionalmente, amorosamente, mas são dependentes da necessidade de ter alguém do lado, mesmo que isso não tenha nenhum significado. Em algum momento essa companhia serve para alguma coisa.

Outros fatores devem ser notados para que isso ocorra. Fatores tais como financeiro, social e pessoal. Para muitas pessoas, adaptar-se a viver uma vida de solteiro ou ainda, morar sozinho novamente é crucial. Por certo, você conhece alguém que sempre está em um relacionamento, pelo simples fato de não estar sozinho. Há pessoas, que ainda não aprenderam conviver com a solidão ou ainda, não conseguem dominá-la. 

Também é necessario dismistificar alguns sentimentos. Somente amor, de fato, não salva nenhuma relação. Há sentimentos que são parte subjetivos e espontâneos, partes construídos. Nenhum sentimento nasce pronto e continua pronto. Toda relação necessita de manuntenção para que continue existindo. E é chato fazer manutençao. Na manutenção é que coseguimos descobrir as "pequenas grandes coisas" e são essas, que precisam ser detectadas, juntos e/ou separados.

Contudo, estar juntos, - juntos - de fato, é essencial para fazer a felicidade de uns. É bem verdade também, que estando separados, é possível estar feliz também. A regra é simples: Junte-se quando o "seu todo", precisa do outro para estar completo. 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS: CASO JOYCE e LILIAN

É impressionante como vida e morte se confundem. Quase sempre andam juntas e frequentemente uma tenta tomar o lugar da outra. Nesse embate, sempre haverá uma vencedora e uma delas, é a que sempre queríamos que não vencesse.

Quero com isso relatar a história de duas mulheres, que muito recentemente travaram esse embate. Joyce e Lilian, duas mulheres em busca de um ideal comum: O transplante de uma órgao. Ambas, dispuseram-se a lutar em favor da vida, fazendo tudo que podiam para não entregar-se.

Joyce precisava de um rim para voltar a ter todo o vigor de sua vida. Para continuar trabalhando, sendo a mulher de força e fibra que sempre foi. Com um novo rim, ela queria continuar a ser o apoio e a referência da família. 

Lilian precisava de um fígado. Com ele, ela fugiria de um passado recorrente, onde familiares perdeu a vida, por falta de um. Lilian, além de cantora excepcional da Banda Voz da Verdade (www.vozdaverdade.com.br), era mãe de duas crianças e a esposa, grande companheira.

Com o apoio de amigos e família do lado, chegou o grande dia para ambas. Joyce, recebeu o rim do irmão e sua recepção não podia ter sido melhor. Sua vitalidade e a disposição, parecem atestar que a mesma nunca precisou da ajuda de um órgão para voltar a ter a vida que tem hoje. 

Lilian, também recebeu o seu fígado. Não teve a mesma aceitação que teve a Joyce. O organismo rejeitou. Um segundo fígado lhe foi enviado, mas em condições inferior. A batalha entre vida e morte continuava e infelismente quem venceu, foi a morte. Lilian nos deixou na madrugada do dia 04 de agosto. O choque em perder a Lilian, foi proporcional à alegria em não perder a Joyce.

A guerra por um orgão, que vale uma vida.

Acontecimentos como estes dois, só nos levam a refletir, quando temos os mesmos bem próximos ou dentro de nossas casas. São esses momentos, que nos faz pensar, no tamanho da importância que é a palavara doar. Doar, é a capacidade de dar algo nosso a alguém. Não se trata de vender, emprestar, ou apenas desfazer. Doar e dar, sabendo que no fundo ainda é seu, justamente porque, quem receberá continua sendo nosso.

Doar as pequenas coisas, já é um bom começo. Doar atenção, cuidado, tempo; doar cariho, um pouquinho do que sabemos, um pouquinho do que temos. Doar, não porque se sente obrigado, mas doar porque se sente invadido por uma causa. Daor sangue, doar plaquetas, doar medula, fica sendo um passo um pouco maior, por se trata de algo que ainda podemos dar, quando temos a capacidade de doar sempre.

Quando chegamos à grandiosidade de doar um orgão, como foram os orgãos de Joyce e Lilian, maior fica sendo esta dádiva. Digo dádiva, porque é uma das formas de trabalharmos a eternidade. É forma de manter aqui, aquele que já se foi, mas que fica, por que há um orgão pulsante no corpo de quem precisa. Saber que a possibilidade de vida existe e que naquele momento está contida em um orgão é algo chocante.

Com esse manisfesto, queremos dizer, que se você ainda não é um doador de órgãos, comece a pensar na possibilidade. Comece a jogar do lado da vida. Se você pode, doe sangue, doe plaquetas, cadastre-se num banco de sangue e entre no cadastro mundial de doadores de medula óssea. E ainda, se puder, doe seus órgãos e deixe que a vida continue aqui, através de você em outras pessoas.

Minha amiga Lilian, não teve o mesmo destino que minha outra amiga Joyce. Lilian amou muito a vida e nos deixou lutando por ela. A outra, continua aqui nos alegrando e ensinando que, viver é também um ato de doação.



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO

sábado, 10 de julho de 2010

PSICOPATAS


Impossível não refletir, em relação aos ultimos acontecimentos envolvendo o goleiro Bruno do Flamengo. São inúmeras as teorias sobre este assunto. Desde Freud, muito tem se falado em psicopatas, até as recentes descobertas no campo da psiquiatria e da neurologia sobre o processo que forma a personalidade, os conceitos sociais e morais, princípios éticos e comportamentais e, sem dúvidas, seus desvios ou desequilíbrios.

O psicopata possui um comportamento acima de qualquer suspeita. Na verdade, ele se comporta da forma que todos desejam que o faça. Sua conduta, é de uma pessoa honesta, que cumpre seus compromissos, que trabalha, que relaciona-se bem. Poderíamos dizer de forma simples, que a loucura do psicopata é sã, isso porque, ele jamais sente culpa. Não há nada que o incrimine, até certo momento. São sábios mentirosos, pois os significados de seus atos, são banais, simples e de fácil explicação. Matar um ou matar dois, não muda. Só muda a explicação.

Mas talvez, uma das características mais forte na personalidade de um psicopata, seja o remoroso. A palavra é latina, vem de remorsus, que significa tornar a morder, ou morder outra vez. Ou seja, o sujeito tido como normal, sentindo o remorso, evitar morder pela segunda vez. O sentimento do remorso, está ligado a satirizar, atacar, ferir, atormentar, torturar, magoar, dilacerar, etc. Pelos próprios significados da palavra, já temos uma vaga noção de como esse sentimento é. Com ele, há sempre uma mistura de dor, angustia, vergonha, adquiridos com a consciência moral, coisa que falta na personalidade do psicopata.

Outro fator que é chocante quando pensamos em comportamentos psicóticos, é o requinte e a elaboração que os seus atos são realizados. Não basta apenas satisfazer uma necessidade vital de realização. Essa realização precisa vir acompanhada de uma dose de show. Como não há normas que o limite, exatamente o limite é sua imaginação. Esse requinte, sempre nos deixa intrigados: Seja a frieza, o riso, o sacrifício, as palavras finais, o contar detalhadamente depois, a pose para as fotos, o colocar na mala, o esquartezar das vítimas, o estupro, o planejamento estratágico e outros infinitos casos ja conhecido por todos.

Possuem uma simpatia singular. São sedutores e o fazem constantemente. É a forma de atrair suas vítimas, que nunca são pegas de imediato. Há sempre uma dança de sedução, uma espécie de amadurecimento da idéia, para que esta aconteça de forma fria e cruel. Até nós, vendo de longe, somos fascinados por sua frieza, pela sua performance e por sua ausência de culpa. São dotados de um poder de convencimento sem igual. Sua envolvência, parece magia. São fáceis de serem amados. Eles conseguem por muito tempo, camuflar-se, coisa que o neurótico não sabe fazer. O neurótico, sempre se entrega, ou seja, eles sempre trocam os pés pelas mãos, usando um dito popular.

Socialmente falando, outro fator preponderante do psicopata é um forte traço narcisista. Se acaham únicos, superiores, imprevisíveis, sem escrúpulos, e claro, excessivamente egoístas. Notem que no caso Bruno, ele demonstrou forte preocupação, já tendo sido preso, em nao saber se iria ou não disputar a copa do mundo de 2014. Precisam de holofotes. São charmosos e dizem isso com o maior orgulho. Notem que, o psicopata possue característica narcisista, que muitas vezes, acentua-se mais, do que o próprio portador deste transtorno. Seu amor-próprio é tão elevado, que, quando querem ofuscar-lhes, eles matam, mandam matar.

Não podemos pensar erroneamente, associando psicopatas como violentos, insanos, cruéis e de fácil identificação. Por certo, convivemos com alguns deles, seja no trabalho, no círculo social, na igreja (sim, na igreja) ou nas instituições de ensino. Nem todo transtono de sociopatia está ligado a uma série de assassinatos, ou vice e versa. Se assim fosse, seria fácil fugir deles. Eles nos seduzem. Olham nos nossos olhos. Fazem teatro. Se precisar, eles choram. Em geral, os sociopatas possuem emoções, embora rasas e breves.

Dados mostram, que a cada 25 pessoas, 1 pode ter traços psicóticos. E que provavelmente é do sexo masculino, uma vez que esse comportamento é menor entre as pessoas do sexo feminino.

O que devemos lembrar sempre é que, como nos nossos desejos sexuais, uma vida em sociedade requer uma séria de repressões, negações e fugas de alguns instintos, muitas vezes primitivos. Portanto que bom, que sentimos remorso, culpa, que choramos verdadeiramente, que conseguimos pedir desculpas, que sentimos vergonha por alguns atos que julgamos errados. Santo não somos com certeza. Mas também não queiramos ser psicóticos.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O FIM DA HISTÓRIA


Certa vez, fui convidado a escrever no blog do meu Amigo Douglas. E agora, ele nos brinda com tanta riqueza. Douglas Barraqui professor e pesquisador em história ambiental pela Universidade Federal do Espírito Santo, leciona em escolas, cursos preparatórios e pré-vestibulares. Págians relacionadas ao autor: www.dougnahistoria.blogspot.com e www.ambientalhistoria.blogspot.com

As reflexões sobre a “história” ecoaram durante milênios e continuam até hoje a soar como sons enigmáticos: “quem somos? Para onde vamos? Para que viemos e qual será nosso destino? como obter a salvação? Onde encontrar todas as respostas para todas as perguntas?

“Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. [1]

Em tempos remotos o homem buscou as respostas para suas aflições em meio a rituais míticos, solicitou respostas a oráculos, a videntes e a profetas. É o homem, que sofrendo com a própria ausência, tenta criar uma imagem global, reconhecível e aceitável, de si mesmo. O homem tentou isso o tempo todo e continua por tentar.

Para os gregos a história se repete, o futuro teria os mesmos eventos do passado, e os homens teriam sempre as mesmas pulsações e necessidades. Portanto, os gregos tem uma visão cíclica da história, repetitiva: nasce, cresce, dá frutos, envelhece e morre, quanto a seu fruto, este crescerá, dará frutos, envelhecerá e morrerá e assim será com os frutos dos seus frutos.

Os helênicos não se preocupavam como o passado. Acreditavam que o futuro individual já estava traçado podendo até ser antevisto: perguntar o que fazer? e/ou, o que será? Questões que apontam necessariamente para o papel dos oráculos. Entre os teóricos da historiografia é sabido que entre os gregos não há idéia de história universal, não havia ainda sido formulada, sendo esta desenvolvida pelos romanos cristãos.

Na concepção dos romanos o futuro passou a ser o centro da história e o fim da história seria a romanização do mundo. É aqui que surge o conceito de história universal aplacada em amplitude pelo o que seria a dominação romana sobre o mundo pagão, dominação seria justificada pelo cristianismo que o próprio homem criou.

Os judeus por sua vez desenvolveram a idéia de história como um caminho linear para a salvação humana. Os romanos cristãos encaravam o futuro como a vitória incontestável de cristo, e consequentimente de Roma, e o fim do calvário do homem. O mundo assim era efêmero, sujeito a mudanças.

A modernidade passa a representar a nova temporalidade histórica, marcada fundamentalmente pela recusa da metafísica. O novo personagem, protagonista, é o homem da cidade e o burguês que estão inseridos em um intenso esforço para a racionalização. A fé não consegue mais aplacar os anseios e dar todas as respostas ao homem.

Segundo Weber somente o ocidente experimentou a racionalização que culminou na fraqueza da influência do religioso sobre o homem. O mundo oriental  manteve-se ligado a ética contemplativa e mística em detrimento ao ocidente que mergulhou na razão. O homem renascentista buscava o êxito econômico com a riqueza, o êxito político com o poder, o êxito social com o estatus, a estética com a vaidade e o intelectual com a razão. O mundo medieval abria espaço para um mundo em que o homem estava no centro das coisas. O ascetismo dava lugar ao hedonismo.

Para Kant a razão traria a reunificação da humanidade e substituiria a religião. Para Habermas o futuro era o espaço de realizações da perfeição humana, o individuo seria autônomo, autodeterminado e crítico.

O ambiente na pós-modernidade é caracterizado pelo individualismo, pelas mudanças aceleradas na ciência e tecnologia que caminham de mãos dadas a fim de dar a respostas e acabar com o sofrimento do homem. Tudo é em tempo real e imediato: mundialização. As questões locais tomam relevância e as generalizações tornam-se um perigo eminente a exemplo do etnocentrismo, imperialismo, racismo, xenofobismo, nacionalismo. As resistências passam a ser concebidas como intolerância, fanatismo e irracionalidade. Surgem novos atores Hitler, Saddam, e Bush. O mundo não pode mais ser visto em uma estrutura maniqueísta de preto e branco, heróis e vilões, vitoriosos e derrotados; aparecem outras cores.

Tudo é prazer imediato, não é mais o que você é, e sim o que você tem. Não é mais o que você planta, e sim o que você pode destruir e construir a partir da destruição. E as respostas para as aflições humanas? Talvez esta seja a resposta: a constante busca. Mas o homem é ao mesmo tempo tão perecível, tão destrutível, tão ameaçador que sua busca por respostas talvez o leve a autodestruição. É o fim da história.

   1. Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios (c. 650a.C.-550 a.C.)

Bibliografia:

WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. 15. ed. São Paulo: Cultrix, 2008. 124 p.

IACONO, Alfonso M. Caminhos de saída do estado de menoridade: Platão, Kant e o problema da  autonomia. Rio de Janeiro: Istituto Italiano di Cultura: Lacerda, 2001. 87 p.

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...