sábado, 17 de outubro de 2015

A COZINHA


Sem dúvidas a cozinha é a parte mais aconchegante de uma casa. Se analisarmos bem, os melhores momentos que temos no dia dentro de casa acontece dentro da cozinha. Não raros, somos pegos lembrando de momentos de nossa infância que aconteceram dentro dela, junto com a família e amigos. Ao se chegar em casa, éramos sempre levados a ir para a cozinha.

É da cozinha que vem os cheiros e aromas que nos perseguem por toda a vida. Quando o dia amanhece, é de lá que surgem as primeiras vozes e os primeiros sons que nos acordam. O cheiro do café fresquinho também vem de lá. Sobre a mesa, sempre havia uma garrafa de café, com xícaras e copos, ao alcance de todos. A cozinha exerceu por muito tempo o papel de unir e de transmitir afeto.

Quando entramos em casa, cansados, exaustos, é pra cozinha que quase sempre nos dirigimos, em busca sempre de algo para nos envolver, seja comendo, seja bebendo. Como provedor de nossas necessidades, o fogão ocupava um lugar estratégico na cozinha, fosse a gás ou fosse a lenha, afinal, como um objeto sagrado, era o nosso principal utensílio. Em tempos passados, as casas não tinham aparelho de microondas, fornos, exaustores, máquinas elétricas entre outros. As cozinhas eras amplas e geralmente na mesa era onde fazíamos todas as refeições juntamente com aqueles que dividem conosco o dia a dia. Era este raro momento que tínhamos a oportunidade de sentar, ouvir, conversar, olhar nos olhos, comungar o pão... e isso ocorria dentro da cozinha. As refeições eram feitas, quando todos estavam à mesa e cada um em seus devidos lugares.

Mas os tempos mudaram. Como mudaram. Veio a arquitetura moderna e contemporânea, as necessidades foram se construindo, as pessoas foram se coisificando e o desenvolvimento foi forçando a mudança da cozinha dentro de nossa casa. Ela tem deixado de exercer o papel colocado a ela desde os tempos antigos. Os apartamentos e casas modernas, tem feito com que ela quase desaparecesse. Cada vez menor, ela quase tem sido desnecessária dentro de casa. 

As pessoas raramente visitam a cozinha; não sentam mais à mesa, não comungam e não se confraternizam nela. A sala e os quartos, tem exercido um papel mais importante. Isolada em um pequeno espaço, a cozinha permanece tímida, solitária e em vez de mesas temos balcões. Em vez de cadeiras, permanecemos de pé e o cheiro e os aromas produzidos lá, são substituídos por latas e saquinhos feitos por industrias

A correria dos tempos modernos, faz com as pessoas se afastem da cozinha. Nos finais de semana, as famílias buscam fazer suas refeições fora de casa, e ir para a cozinha no final de semana, é sinônimo de acumular mais cansaço além do já adquirido durante a semana. Acontecendo isso, o prazer, as descobertas e os rituais que seriam praticados dentro da cozinha se perdem e são trocados por outros prazeres, em especial os eletrônicos. Há quem diga, que mais gostos do que comer na cozinha, é estar nela com os amigos preparando aquilo que se vai comer. Não é o final, é o processo!

Talvez por isso, que estejamos mais frios, mais distantes, menos emotivos, mais depressivos, mais egoístas... menos na cozinha. Se antes comíamos juntos na mesa, hoje, fazemos um lanche rápido falando ao celular. Se conseguimos nos alimentar em casa, geralmente é cada um na sua individualidade, no sofá, no quarto, em frente o televisor, com os fones de ouvido. A correria faz com que não saboreamos o tempero, o cheiro, a alquimia... não fazemos elogios até porque não sabemos quem fez. Não agradecemos pelo alimento porque não tempo para isso. Não vamos à cozinha, porque cozinha é lugar de “Amélia”.

Alguns valores que perdemos, que parecem simples, levam junto outros valores que fazem falta na nossa construção como humanos. Talvez seja necessário voltarmos à cozinha sempre. Talvez seja preciso estar na cozinha com mais frequência, para sorrir, ouvir, comer, sentir seus cheiros, cores e sabores.

Já pensou qual é o papel da cozinha dentro da sua casa? Pense nisso!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A MORTE


E aí de repente a gente morre. Simples assim. Do nada! Sem fazer um aviso formal, ela vem, sem receios e nos leva. Pode ser de dia ou de noite, com chuva ou com sol, no calor ou no frio, cedo ou a tarde... com ela não tem acordo. Você deve conhecer alguém que já morreu e não avisou antes. Muita ingratidão. Mas você deve também conhecer muito mais pessoas que vão morrer e que da mesma forma será: não avisarão antes!

E de fato não sabemos como será. Penso que ninguém soube com antecedência como seria sua morte. Talvez até por um segundo pensamos como ela deve ser e que tipo de festa deve acontecer, mas nada como detalhar o dia que ela vem. Quem sabe será em um acidente automobilístico, na água, num assalto, dormindo, correndo, talvez quem sabe num voo, com amigos, com desconhecidos ou será só? Será se vai ser um um hospital, num leito, a conta gotas, ou de repente? Ou será suicídio diário? Porque não uma bala perdida? Mas pode ser serena e calma, ao lado da família, com alguém segurando a nossa mão esquerda, com os anos avançados. E tenha certeza: ela nunca vem na hora certa. 

Parece um processo injusto. Sem ao menos nos dar um tempo para resolver umas questões, ela vem e nos leva, sem volta, sem erro. Eram tantos e-mails pra ler, viagens a fazer, estudos, trabalhos a ser entregues, a casa a ser limpa, o aniversário a ser feito, a conta de água que ia ser paga, o carro que ia ser lavado no fim de semana, o amigo que ficamos de visitar, a mousse a ser elaborada no feriado e até mesmo o beijo que não foi dado. Os planos do casamento, da gravidez, do nascimento do filho, a compra da casa própria e a vida melhor que queríamos tanto.

Daquele momento em diante, somos tratados como um corpo. Até nosso nome é esquecido. Nu, sozinho, frio, gelado, sem cor, olhos cerrados, boca aberta quem sabe, lá estamos nós, esperando por alguém que nos olhe e nos cubra, pelo menos. Toda timidez some. Ninguém nos sorri, ninguém conta uma piada. Por certo nos apalpam, beijam, falam baixo e lamentam. As notícias continuam correndo, como se morrer fosse um espetáculo, onde quanto mais platéia, melhor. Irão repetir como foi a morte, dezenas, centenas de vezes.

A partir daí nos tratam com lágrimas, carinho e piedade. Visitas veem de longe para nos ver. Pessoas que nunca nos visitaram aparecem, abraçam os nossos, choram e até postam os pesares na redes sociais. A família, paga uma funerária para nos limparem e deixar mais um pouco sobre a terra. Nos colocam em um caixão caro, onde quase sempre a família faz força para pagar. Colocam uma roupa que nunca usamos antes, sem nos perguntar se gostamos da cor e procuram um bom túmulo, um horário bacana para o enterro e até atrasam a espera de uns e de outros. Algumas coroas de flores chegam com frases prontas, além daquelas que já nos cobriram. 

É muita bobagem num dia só! Já pensou nisso!?

A impressão é que damos mais valor a morte do que a vida. Estranho isso. Nunca temos tempo para os amigos, família... nunca viajamos e nem estudamos porque não temos tempo. Nunca mandamos flores porque não somos românticos. Raramente elogiamos e direcionamos palavras de conforto e carinho às pessoas que estão à nossa volta. A saúde quase sempre é esquecida e as relações que nos mantem vivos não são alimentadas. Gastamos na morte, o que evitamos gastar na vida. Ela foi curta e além de tudo, ainda foi pequena. Que ironia. 

Corremos dia e a noite, usamos nossa ambição para ter muito. Atropelamos o processo, o tempo, as pessoas, o amor.... pra que? Pra nada! A morte chega e nos iguala. O fato inevitável da vida, vem e sem escolha, nos torna justos e iguais como deveríamos ter sido em vida. O que muda é apenas a posição na fila. Mas a senha de cada um de nós irá chegar. Que privilégio não? 

Devemos observar que o que não foi feito na vida, não adianta mais fazer na morte. Nunca visitou alguém que você gosta? Não precisar ir no velório. Não disse que o amava? Poupe-se de abraçar o caixão no cemitério. Não deu uma flor que seja, em vida? Não gaste seu dinheiro com uma coroa para ser levada ao funeral. Falava mal e difamava durante a vida? Não gaste suas lágrimas no enterro. Lembre-se que, provavelmente, quanto maior for o choro, maior é o remorso. 

Pensemos nisso. Pensemos no valor da vida. Pensemos de que forma queremos o nosso velório. Pensemos de que forma queremos ser lembrados por aqueles que vão depois de nós. Pague suas dívidas em vida. Pode ser que dê tempo...

Porém antes de tudo, pense em que tipo de vida está levando. Lembre-se que o espetáculo maior é a vida. O que deveria ser feito na morte, faça antes, em vida. 

E ainda pense: O que nos separa uns dos outros não é a morte: É a vida!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


terça-feira, 31 de março de 2015

SOBRE TROTE EM UNIVERSIDADES


Não é de hoje, que alunos veteranos de universidades e faculdades, dão as "boas vindas" para os alunos novatos através do trote. O trote, nada mais é, do que uma série de atividades que devem marcar o ingresso desses novos estudantes ao ensino que vão começar.  É uma espécie de ritual que marca essa investidura em seus estudos. Geralmente, essas atividades são divididas em atividades consideradas leves ou pesadas. 

Costumam ocorrer nos dias da denominada calourada e sempre é no início de um semestre ou de um ano letivo. Nas escolas, o trote também costuma acontecer depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram a ela. Ele também pode acontecer fora da instituição de ensino, principalmente em casas de república, lugar onde dormem juntos os alunos que vieram de outras cidades.

Até aí tudo bem. O trote sendo solidário e saudável, não tem nada de ruim, até porque ele serve para ambientar o aluno novato junto à Instituição, junto aos seus novos colegas, serve para troca de experiências junto ao aluno veterano e até mesmo mesmo para um contato com quem serão os seus professores. Essa deveria ser a premissa do trote. Deveria! 

O que temos visto, é que a forma como o trote acontece hoje, não é nem de longe, a melhor maneira de ser apresentado a uma nova rotina de vida, nem tão pouco é um ritual de introdução a uma nova instituição que vai requerer desse aluno, normas, disciplinas, esforço, dedicação e foco. O trote deixou de ser uma atividade saudável e se tornou uma "brincadeira" de muito mau gosto, um crime, caso de polícia. O trote tem representado um rito de passagem e de violência contra alunos, que muitas vezes levam sequelas pro resto de suas vidas. Tem sido mais agressão do que emoção.

Talvez pelo fato da palavra trote, fazer uma alusão ao andar do cavalo que é adestrado - e adestrado a duras penas com chibatadas e esporadas - é que alguns alunos se comportam como animais na tentativa de domesticar os alunos que ainda não entraram no "passo" que a Instituição/curso exige. O cavalo aprende, a andar em um compasso que nem é lento, nem tão pouco em disparada. É como se o aluno novato, tivesse que aprender a trotar. Péssima iniciativa.

Me preocupa o fato de que, alunos que potencialmente irão defender uma profissão, um nome, irão ajudar uma sociedade com o seu ofício, terão a oportunidade de fazer história em um País que tanto necessita, se prestem a um papel de afogar pessoas, promover o coma alcoólico, brincadeiras que contribuem para o traumatismo cranioencefálico, rituais com animais mortos e fezes, fumar, tirar as roupas íntimas, pedir dinheiro nas ruas, deitar sobre um formigueiro, atear fogo na roupa, amarrar pesos de até 7k nos órgãos sexuais e o mais grave: a morte de alguns deles. 
   
De tudo isso, fica claro que as Instituições de Ensino que permitem tais práticas precisam ser punidas, além de expulsarem do seu quadro de discentes, pessoas que praticam tais atos. Isso não pode ser considerado, sob nenhuma ótica, como um ritual de boas vindas.

Me pergunto: porque não promover uma atividade beneficente ligada ao curso que o aluno está ingressando? Porque não fazer a semana da doação de leite; da higienização de creches e asilos públicos; da doação de sangue e plaquetas; da reforma de uma escola pública que estão em sua maioria estão precisando; da arrecadação de alimentos para um orfanato; doação de horas para a CVV na escuta de quem precisa; para a animação de um dia somente, para crianças com câncer; para palestras educativas a adolescentes sobre educação sexual e o uso de drogas; na reciclagem de lixo;  da montagem de um biblioteca em escola pública com doação de livros? São tantas as práticas de cidadania que podem ser feitas. 

Atividades assim, são as melhores para socializar o aluno e fazer com que ele de fato, vivencie um ritual de passagem para a nova etapa que irá viver em sua vida.

Diga não ao trote violento. Diga sim ao trote solidário e consciente. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A ARTE DE SABER ENVELHECER


Seja como for, iremos envelhecer. Seja quando for, envelhecer é sempre um presente. Estar vivo, do jeito que acontecer é sempre um privilégio. Estar vivo, sem sombra de dúvidas é maior presente que a vida pode nos oferecer. 

O interessante é que com o passar dos dias, o fardo da idade parece se tornar mais leve. É claro que você pode discordar dessa afirmação, mas é fato também, que a idade que você tenha você já consegue ver a vida de outra forma. Com outro olhar. Com outra perspectiva.

Mas eu penso que entender que a velhice não é um desprazer, seja o grande ponto de equilíbrio que nos faz conviver bem com esta fase da vida. É a chegada dos anos que nos ensina a aceitar os planos que não deram certo e a colocar outros no lugar de forma serena e leve, conservando sempre, o grande segredo de ser interessante para si mesmo. 

Estar velho é uma decorrência natural do ciclo da vida. Só quem morre cedo, perde o grande privilégio de ficar velho e morrer jovem é sempre uma grande tragédia. Mesmo jovens, planejamos chegar até os mais longos anos, de forma tranquila e segura. Embora vivamos cada dia como sendo um dia a menos, guardamos conosco o segredo de pensar na morte de vez em quando e quase sempre muito rápida e superficial. O homem é o único animal que sabe que vai morrer e por isso mesmo, nunca pensa nisso.

Mas, ficou por conta do grande poeta Adoniran Barbosa, falar um pouco sobre essa fase da vida. Ele diz: "Velho amigo não chore, pra que chorar por alguém te chamar de velho. Não decola, não esquente a cachola. Quando alguém lhe chamar de velho, sorria cantando assim: Sou velho e sou feliz, mais velho é quem me diz"  

Precisamos deixar de pensar que envelhecer é um pesadelo. Essa uma luta inútil e muitas vezes desastrosa pela juventude eterna precisa ser banida. Penso que ela apenas antecipa o inevitável. O medicamento mais indicado para uma velhice saudável deve estar pautado em comportamentos que podem fazer dessa uma das melhores fases da vida. Trocando em miúdos, estar velho é um estado de espírito. A angústia em não aceitá-lo é de todos o maior dos males. 


Seja jovem, seja velho, viva bem, viva feliz! 

domingo, 13 de julho de 2014

SOU DE UM TEMPO...

Sabe, eu sou de um tempo que ficou. E apesar desse tempo não ter ficado há muito, sinto que ele foi esquecido depressa demais. Percebo que ele foi consumido por fatos e atos rasos e supérfluos que foram "modernizando" os nossos dias. 

Sou de um tempo, onde as crianças andavam descalços, tomavam banho na chuva, faziam suas próprias pipas e seus carrinhos de rolimãs. O contato com a terra era diário e as brincadeiras eram de pique esconde, amarelinha, elástico é pique pega. Andávamos de bicicleta e esta era uma aquisição que nos envaidecia e nos diferenciava. Neste tempo, os filhos pediam benção aos pais e eles os abençoava. Era um tempo, onde os pais não iam presos por corrigir seus filhos.

No meu tempo, as crianças nasciam e as mães guardavam o resguardo, com canja de galinha, unguentos e chás. Os bebês usavam fraldas de pano e estas eram passadas de filho a filho ou para primos. Não haviam tantos partos de cesárea e as famílias era maiores. O mamar era prazeroso para o filho e as mães eram as que criavam e educavam sua prole. Na escola, chamávamos a professora de tia e esta fazia mesmo, o papel da mãe/tia.

Eu sou de um tempo, onde não haviam tantos apartamentos, onde as pessoas visitam as casas uma das outras ao anoitecer e umas cumprimentavam as outras quando se encontravam. Venho de um tempo, onde os vizinhos trocavam produtos de casa e dividiam aquilo que tinham para não ver o próximo passando necessidade. Eu sou do tempo que se vendiam ki-suco, conga, ki-chute, ki-bamba, baré e chiclete ping pong.

Eu sou de um tempo, onde as crianças e adolescentes trabalhavam e estudavam e pasmem: elas conseguiam. Nas escolas, estudávamos em cartilhas que eram aproveitadas no ano seguinte e olha que interessante: sabíamos cantar o hino nacional, o hino da bandeira e o hino da independência. E o mais chocante de tudo era que saíamos do ensino fundamental sabendo ler. Os filhos amavam e respeitavam os pais, como sendo estes seus únicos heróis. Neste tempo, as amizades se fortaleciam com brincadeiras, passeios, risadas e reuniões. 

Eu sou de um tempo, onde não tinha vídeo-game, não tinham tantos televisores e os que tinham, não tomavam o lugar da família. Neste tempo, as igrejas eram em menos quantidades e por conseguinte, eram de mais qualidade. As músicas desta época, era a junção gostosa de letra, melodia e voz. Ouvíamos falar em drogas e delas tínhamos medo. Quando tinha um velório, as pessoas iam e se solidarizavam com a dor de quem ficava. 

Neste tempo, haviam poucos telefones fixos e estes eram valiosos. Não existiam tantos celulares e dessa feito, falávamos, ouvíamos e tínhamos contato com as pessoas. Naquela época, contávamos as estrelas e procurávamos as que "andavam" na imensidão do céu escuro. Neste tempo a que me refiro, as pessoas não ficavam e em troca, buscavam um namoro sério e era motivo de orgulho dizer que ainda era virgem. Sou de um tempo, onde casamento era para um vida toda e não um serviço de ninguém.

Eu sou de um tempo, onde as pessoas escreviam cartas e guardavam. Sou de um tempo onde os fogões possuíam "asas" e em sua maioria eram vermelhos. Sou de um tempo, onde se encontravam alfaiate, engraxate e as músicas eram ouvidas em LP's e fita cassete. Quem tinha vídeo cassete e enceradeira era privilegiado. 

Sabe, eu sou de um tempo, que, onde se alimentava um, se alimentavam dez. Sou de um tempo, onde a palavra amor, amizade, respeito e compromisso tinham outro significado.  Sou de um tempo, onde era mais importante ser do que ter; era mais importante ter sentimento do que ter corpo; era mais importante ter valor do que ter preço. Não, não pense que sou velho. Eu apenas tive alguns privilégios que não existem mais.

E de que tempo você é? 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

PAÍS FULECO

Confesso que fiquei com vergonha, quando vi na mídia, que o nome do mascote da copa do mundo do Brasil, chama-se Fuleco. Pensei que tinha escutado mal, mas é isso mesmo: Fuleco. Minutos depois, fico sabendo, que essa escolha, foi decidida pelo povo, que escolheu o nome, entre mais opções, tão idiotas quanto este. A explicação para o nome, segundo a mídia, é que foi feita a junção de futebol com ecologia. Continuo com vergonha.

O resultado dessa escolha, ao meu ver, reflete dois fatos tristes, porém reais em nosso país. Primeiro, identifico o alto índice de ignorância do nosso povo. É notório o quanto a educação faz diferença na história de qualquer nação. Desconheço qualquer país, que tenha se desenvolvido e que não tenha a educação como principio de vida. A educação muda a história do povo. E logo, sendo este povo ignorante, torna-se fácil manipulá-lo. Torna-se alvo fácil para o pão e o circo.

O segundo ponto que vejo nessa escolha é que ele revela de fato uma realidade, uma triste realidade, posta a todos, sábios e tolos, ricos e pobres. De fato este é um país de fulecos. Acredito que quem votou (quem votou?), esqueceu de buscar o significado desta palavra, uma vez que ela não foi criada exclusivamente para a copa do mundo, como tenta dizer a mídia manipuladora. Mais uma vez, a ignorância vence.

Entre outros, a palavra fuleco é uma variação de fuleira, fuleragem entre outras variações. Esses termos são bem conhecidos no nordeste brasileiro e possui os seguintes significados: coisa ruim, de baixa qualidade, inferior, incapaz, duvidoso, tóba, rabo, anus, fiofó, rosca, roela, boga, cu, furreco, medíocre, descarado, fuleiro, ladrão, corrupto.... Nada mais natural para representar a nossa realidade. 

Nesse pais, a saúde é fuleca. Não há hospitais, vagas, ambulâncias, médicos, remédios, estrutura física, salários e por ai vai. Falta desde o garrote à maca. A educação também é fuleca. Não há escolas suficientes, o ensino é medíocre, o IDEB é falso, o MEC não funciona, as escolas são assaltadas todos os dias e as que sobram, não educam nem ensinam mais, os professores não são remunerados como deveriam e em sua maioria, a educação que existe, atende ao capital desenfreado no sistema fast food. A segurança não é diferente: também é fuleca. Não temos sistema penitenciário que resolva, não há vagas, há policiais de menos e bandidos de mais, a corrupção impera, as condições de trabalho são desumanas e o povo, em sua maioria, que é fuleca, paga o preço.

E o que dizer da política desse país? Como lidar com ela, onde a maioria absoluta é de fulecos, preocupados apenas com seu próprio interesse! Honestidade virou raridade e encontrar algum homem honesto que integre a política desse pais, torna-se uma atividade quase impossível. E a cultura? Em sua maioria é fuleca também. Ouvimos o que não presta, cantamos o que não sabemos o que é, e qualquer batida, torna-se primeiro lugar nas paradas de sucesso. Não há incentivo a leitura nem ao pensamento crítico, criativo, e assim, vamos sendo frutos de programas enlatados e manipuladores.

Mas é exatamente disso, que se faz um país de fulecos. É exatamente, essa massa que tem a capacidade de votar e eleger como mascote para uma copa do mundo - com um orçamento que não é fuleco - um tatu que tem por nome sua própria identidade. Cérebros de tatus! Assim se cria fulecos: pouca educação e muito futebol; muito circo e muito pão. E são esses, que farão de tudo, para pagar o ingresso do jogo, para poder ver a obra, fruto de sua ignorância e ainda poder dizer: tenho orgulho de ser brasileiro!

Me ponho a pensar e pergunto, do que se faz uma nação, não de fulecos, mais de cidadãos que criem seu próprio futuro, que pensem na sua formação educacional e que querem deixar para seus filhos, muito mais do que estádios e renda cidadão. Pergunto, como pode um pais, crescer e se desenvolver, com fulecos, desde os que votam até os que são eleitos. 



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

domingo, 24 de novembro de 2013

PESSOAS BAMBU

O Bambu é uma planta tropical, leve, que não necessita de reflorestamento constante. É bonita por fora, serve-se a muitas fabricações além de possuir uma rapidez incrível de crescimento e de aproveitamento de área no seu plantio. O bambu oferece uma sombra razoável e é divida em várias famílias. Acontece que o bambu é vazio por dentro. Ele é movido facilmente pelo vento, levado de um lado para o outro porque não possui nenhum peso por dentro, é oco.

Você conhece pessoas assim, pessoas bambus? São pessoas, que como diz o velho ditado popular, “por fora é bela viola mas por dentro é pão bolorento”. Não tem nada a oferecer em sua essência, em seu interior. São leves demais, superficiais demais e não tem muito a oferecer a não ser uma estética fabricada.

No que se refere ao lado profissional, são tão instáveis, tão inseguras e quase nunca se firmam no que querem ou provam para o que vieram. Não se profissionalizam, vivem de bicos, nunca sabemos ao certo o que fazem, nem onde estão. Não imprimem sua marca no que fazem. Não tem seu nome associado a algo que de fato fez diferença ou não associamos sua imagem a algo positivo. Sua vida profissional resume-se a promoção pessoal momentânea e não a segurança e futuro. O que elas fazem? Eu cansei!

No que se refere ao social continuam bambus, horizontais demais, volúveis. Resumem-se às baladas, às redes sociais, aos #chateado ou #balada. Não possuem verticalidade. Afinal o que tem para oferecer uma pessoa bambu? Há tanta necessidade mesmo de oferecer aos outros sua estética e o seu verde conceito de vida? Não possui opinião formada sobre quase nada e não conseguem formular uma frase e interpretá-la. No geral, confundem informação com inteligência e por conta do advento da internet, pensam que são formadores de opinião. Hoje, funkeiro ensina como educar filhos, modelos de personalidade duvidosa ensinam fidelidade e as novelas ensinam o modelo de família ideal. Cansei!

Suas amizades resumem-se a outros bambus. É assim mesmo, o bambu raramente nasce debaixo de árvores que não são de sua espécie. Resumem-se aos mesmos comportamentos, ideologias e visão de mundo. Estão muito mais ligados à embalagem do que ao conteúdo. Quem planta bambu no quintal, está mais preocupado com a sombra que ele trará e o barulho que será ouvido quando chegar o vento do que com seu valor de produção.

Notem que pessoas bambus não nos oferecem muito. Elas nos cansam rápido demais. Não convence. Não nos toma em sua essência e estar com elas teremos no máximo uma sombra, caso haja um sol maior por cima. Sabe quando preferimos ter o presente e não o presenteador. Então...

Mas o mais interessante, é que uma hora o bambu não resiste ao tempo. A árvore frondosa e verde vai se tornando amarela e seca, sem folhas, sem atração, sem cheiro, sem vida. É, o tempo passa, os anos vem e assim como o bambu, também vamos sofrendo o efeito das modas, dos tempos, dos vícios, das curtidas e dos comportamentos ocos e vazios. Na vida, o que sobre é o que somos e não o que temos. Pessoas bambus precisam entender que dignidade é medida por dentro e não pela estética. Precisam entender que o valor de uma árvore é medida pelo seu caule e não pelas folhas ou pela sua frondosa sombra. Afinal, o que é uma pessoa bambu?

E por fim, uma pergunta interessante: você conhece o fruto que o bambu oferece? Qual sua estação? Há flores em sua primavera ou há frutos em seu outono? Eu desconheço! 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...