domingo, 12 de março de 2023

O ADULTO INSEGURO PODE TER SIDO A CRIANÇA BOAZINHA

 


Em conversas e palestras com os pais, o que mais ouço e vejo neles é o discurso de que o filho dá muito trabalho. Em outras palavras eles estão dizendo: meu filho não pode me contrariar e a dificuldade que eles tem em aceitar que a criança seja criança. Não se educa pensando apenas na fase da infância, mas educa-se pensando no adulto que eu quero que essa criança seja.

Talvez por isso, que a educação feita por estes pais, seja mais voltada para punir e obedecer, do que para autonomia e independência dos filhos. Assim, os filhos vão se educando para agradar os pais e não para serem adultos.

Os pais precisam entender, que existem comportamentos que embora não os agrade e deem trabalho, faz parte da infância da criança e é necessário que isso aconteça para formar o adulto que ela vai ser.

A necessidade que temos de agradar é originada da demanda de pertencimento, ou seja, ao punir a criança por fazer aquilo que não agrada aos pais, eles a educam com a ideia de que, para ser aceita, ela não pode jamais se posicionar, fazer birra, dar trabalho e acima de tudo, precisa ser uma criança boazinha e isso não sendo bem alinhado, prejudica em muito o futuro da criança.

Sim, educar dá trabalho e é por isso que exige dos educadores uma postura que vá além de fazer a criança cumprir os seus caprichos. Veja por exemplo, o adulto que tem o desejo de agradar os outros a todo custo e que não vem da vontade de ver os outros felizes, mas da sua insegurança e falta de autoestima.

São adultos que em sua infância aprenderam que o amor está ligado à obediência, a não dar trabalho, a agradar e serem sempre subordinados. Geralmente são adultos que sofrem em dizer não, com dependência emocional, baixa autoestima, lutam sempre para serem generosas, aceitas, queridas e compreensivas com todos, pois aprenderam que assim serão amadas e nunca serão rejeitadas.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

SE SENTIR SOZINHO É DIFERENTE DE ESTAR SOZINHO

 


Não é novidade que a solidão é uma das epidemias mais graves deste século. Não é, portanto, um sentimento simples, fácil de ser explicado, mas trata-se de um misto de sensações como a dor, angústia, tristeza e medo, que foi mudando ao longo do tempo, com dimensões culturais, sociais e políticas. Aliadas a ela estão ainda o stress, a obesidade, o uso excessivo de drogas, entre outras variáveis.

É notório que cada vez mais as pessoas estão vivendo sozinhas e tudo indica que esse número deve aumentar nos próximos anos. Também não é novidade que as famílias estão cada vez menores, em casas menores, com menos filhos e em atividades que cada vez mais valorizam a sua individualidade e a sua solidão.

Embora a solidão não seja necessariamente má, deve-se ficar claro que ela é também fundamental para a constituição do ser humano. Durante as nossas vidas, a solidão faz parte do processo de crescimento e como tal, é inevitável.

Porém, é importante afirmar – e não confundir - a solidão como um processo de escolha, uma prática do individualismo ou com uma necessidade de não se socializar momentaneamente com qualquer outra pessoa. Estar só nesse caso, é estar fisicamente sozinho. Este estar solitário não expressa o sentimento de solidão e trata-se de um isolamento social por escolha, como um processo de fuga ou de experimento para se auto conhecer e crescer.

Mas é preciso atentar-se à solidão como um estado, onde a pessoa tem a necessidade (vontade) de estar com outras pessoas, mas é incapaz de fazê-lo. Pode ser que as condições sociais, financeiras e cognitivas permitam esse contato, mas a insegurança e outros fatores psicológicos contribuem para a solidão.

A isso, estão aliados os sentimentos de imprestabilidade, estranheza, desprezo, rejeição, desânimo e muito pouco contato visual, ou seja, o isolar-se não é escolha, é incapacidade. De igual modo, pense que estar sozinho pode ser positivo, mas sentir-se sozinho pode ser fator de risco e precisa ser visto com atenção.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

NÃO EDUQUE FILHOS INTOLERANTES E INSEGUROS

 


Senhores educadores (incluindo os pais), saibam todos que é muito cruel para uma criança se ver na impossibilidade de cometer erros. Reconhecer os erros e enxergar neles as possibilidades de equilíbrio, começa com os pais e com seus educadores.

Os erros que são cometidos e que são corrigidos de maneira cruel (tapa na cara, cala a boca, castigo, torturas) vão educando a criança para não tolerar a sua própria frustração, mas também, para não ser tolerante com os erros dos que com ela convive. Pense ainda, que essa criança vai se desenvolvendo com um medo terrível de assumir os seus erros, mesmo que sejam os mais simples.

Encher uma criança de elogios apenas quando acerta, pode ser que faça mais mal do que bem a ela. Entenda que elogiar somente as habilidades, os talentos, o que ela ganha e acerta e a inteligência da criança, é diminuir e fragilizar a sua autoconfiança. Os pais/educadores devem se concentrar em elogiar também o seu esforço.

Quando se foca somente na inteligência ou somente no fracasso, estão educados crianças medrosas e com baixíssima disposição para escolher tarefas desafiadoras e correr o risco de perder, ou seja, tem medo de se frustrar ou de frustrar o sonho dos seus pais.

Entenda que não ser o Super-herói todos os dias, não te faz um pai/mãe/educador menos importante ou menos especial para eles. Seja uma referência, não um infalível. Por isso, é importante que você lide bem com seus próprios fracassos, com suas escolhas mal feitas, com seus contratempos, com suas impossibilidades e suas angustias.

Mostre a eles que os adultos também cometem erros, mas sobretudo, se responsabilizam por eles, fazem suas reparações e seguem. Assim, eles vão se educando para lidar com os seus erros nas suas relações que irão construir pela vida.

Aprenda a deixar de tratar os seus erros e os dos seus filhos como algo cruel e irreparável. Se liberte disso. Nem sempre você está certo!

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

É PRECISO SUPORTAR O DESAMPARO

 


Embora seja difícil o desamparo é uma experiência fundamental e faz parte da condição humana e é, em torno dela, que se constitui a posição de sujeito no mundo. O desemparo com as suas diferentes vulnerabilidades impostas é que faz o desafio de se trabalhar com a falta, e assim, o vazio se faz necessário.

É fácil entender que não fomos educados para trabalhar com a falta. Fomos ensinados, que para nos sentirmos bem, precisamos ter o chão da segurança sob nossos pés e este é um dos motivos que nos fazer ter pavor do desamparo.

Basicamente, em outras palavras, só mudamos quando a realidade em que estamos é de fato insuportável. Ainda assim, para que não possamos sair dela, entramos facilmente em um processo de neurose, ficando em um ciclo de repetir os mesmos fatos, ter prazer nos mesmos erros e ainda reviver as mesmas situações dolorosas e traumáticas. Para isso, haja mecanismo de defesa para não admitir toda essa problemática, sempre buscando contornos prazerosos nisso tudo.

É natural, portanto, que sempre estejamos buscando prever esta condição de desamparo: cercamos de um lado; buscamos colocar anteparos de outro; negamos um pouco ali; fingimos outro tanto ali e assim vamos levando a vida. Todos estão diretamente implicados, embora todos estejam também negando essa implicação, tentando se isentar cada um de suas responsabilidades por suas escolhas e suas consequências. No fundo, todos querem a garantia da previsibilidade para evitar o desemparo.

É preciso não ter medo do vazio, do desemparo, da solidão. É preciso se permitir desfrutar os benefícios que estar sozinho pode trazer. Mas é preciso também, depois de adquirir tal liberdade, suportar-lhe o peso.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO

terça-feira, 1 de novembro de 2022

AO IDEALIZAR ALGUÉM, NÃO ESTAMOS FAZENDO NADA ALÉM DE CONDENÁ-LO A NOS DECEPCIONAR.

 


Esta é uma das formas mais comuns que muitas histórias terminam, antes mesmo de terem a chance de começar. Para ter a possibilidade de amar, é preciso primeiro resolver algumas questões próprias, justamente para não transferi-las para o outro, a quem temos a intenção de seduzir.


Porém mora ai o problema, pois quando idealizamos o outro – mesmo não sabendo disso – estamos eliminando-o. Ao idealizar alguém, nós o anulamos como pessoa, com a sua individualidade, com a sua subjetividade, e, automaticamente, ele se torna nada mais que um produto de nossa própria fantasia.


Assim, projetamos nossas próprias ideias, imagens e exigências e com isso, temos a certeza que essa pessoa, de fato, vai cumpri-las. Não queremos alguém como de fato ela é, mas sim, queremos alguém que imaginamos. Assim, as distorções em qualquer relação começam com a idealização.


Ainda há o risco, de que, para ser aceito dentro da fantasia do outro, vamos nos encaixando ali e revirando aqui. Para se caber dentro da fantasia que o outro criou, vamos cedendo às cobranças para uma perfeição, de quem um dia criou uma distorção. Por isso é preciso cuidado – com as idealizações que fazemos e com aquelas que aceitamos.


Pense nisso: a idealização nos faz ver somente o que é bom no outro, alimentando assim a nossa própria fantasia. E com essa “falsa” visão, vamos construindo uma pessoa maravilhosa em nosso imaginário, sempre colocando-o em um lugar especial. O perigo, é que para tirá-lo lá depois, o trabalho será muito maior, quando a fantasia acabar.

 

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

FALAR EVITA CONFLITOS

 


Embora pensemos que se aprende a falar na infância, levamos uma vida inteira aprendendo a falar. É um exercício contínuo que por mais que exercitamos nunca estamos aptos a fazê-lo em sua totalidade.

Falar vai muito além de emitir sons, nomear pessoas e objetos, decifrar símbolos e estabelecer algum tipo de comunicação. Falar é algo mais profundo. Falar requer a compreensão de pausas, de momentos, de situações e de oportunidades.

Aprender a falar é conseguir em partes dar nome aos seus sentimentos e com isso, tentar conviver melhor com eles. É pela falta do auto conhecimento sobre o falar que vezes por outras somos atravessados por aquilo que falamos.

É pela falta de preparação sobre como falamos que criamos situações de embaraço emocional, assim como, por imaginarmos que podemos falar a nossa verdade a todo custo, que alguns estão pagando um preço doloroso.

Nunca se fez tanto barulho como se faz agora. Nunca tivemos tanta informação como estamos vendo. Nunca se falaram tanto, como atualmente. No entanto, nunca se ouviu menos, como agora. Estamos cada vez menos prestando atenção nas pessoas e com isso desprendendo cada vez mais como.


Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

TODA GRANDEZA É PASSAGEIRA

 


É sempre bom não esquecer que a grandeza é uma experiência do tempo, portanto, transitória. Ela nunca é constante e nem dura para sempre. Somos momentos. Ela, a ideia da grandeza, é em grande parte criada pela imaginação daquele, que por algum motivo se sente superior aos outros, seja pelo seu cargo, cor de sua pela, pelo corpo, pela conta bancária, pelo currículo e até pela posição na fila em que se encontra.


O bom seria se pessoas que em alguém momento se sintam grandes, enxergassem a mentira na qual estão inseridas. Esse seria o caminho ideal para perceberem o quanto isso é efêmero e fruto da projeção criada em resposta à fraqueza e insegurança que elas mesmas possuem. Sim, àqueles que se dizem grandes e superiores, sofrem com a sua inferioridade e aceitação.


O perigo ao manejar essa síndrome do pequeno poder é que a vida real, vai desaparecendo para a predominância de outra forma de relação. Há alterações na forma de ver a vida e obviamente, há a mudança dos sentimentos e daqueles com quem se relaciona. Existe uma condição humana que é igual para todos que vai sendo esquecida e sobreposta pelo poder, ainda que passageiro. A falsa grandeza, muitas vezes, faz com que a pessoa que humilha ou maltrata alguém, não tenha empatia com o sofrimento alheio e, por isso, ela não se dá conta do que está ocasionando ao outro.


Esquece-se das responsabilidades afetivas, confundindo em muitos casos honestidade com reciprocidade e respeito com pena ou dó. O falso poder vai fazendo com que o outro deixe de ser real e assim, não percebe que o que não significa nada para ele, pode significar muito para o outro.

Portanto é importante estabelecer vínculos com quem trata todos com generosidade e respeito, independente de posições ou do que elas podem oferecer. Manter contatos com pessoas que não se incomodam com status, com aquilo que possuem, que preservam o SER e não somente o TER.

Por fim, sua falsa grandeza não te torna melhor, maior e não te dá, na verdade, nenhum privilégio.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...