sábado, 10 de julho de 2010

PSICOPATAS


Impossível não refletir, em relação aos ultimos acontecimentos envolvendo o goleiro Bruno do Flamengo. São inúmeras as teorias sobre este assunto. Desde Freud, muito tem se falado em psicopatas, até as recentes descobertas no campo da psiquiatria e da neurologia sobre o processo que forma a personalidade, os conceitos sociais e morais, princípios éticos e comportamentais e, sem dúvidas, seus desvios ou desequilíbrios.

O psicopata possui um comportamento acima de qualquer suspeita. Na verdade, ele se comporta da forma que todos desejam que o faça. Sua conduta, é de uma pessoa honesta, que cumpre seus compromissos, que trabalha, que relaciona-se bem. Poderíamos dizer de forma simples, que a loucura do psicopata é sã, isso porque, ele jamais sente culpa. Não há nada que o incrimine, até certo momento. São sábios mentirosos, pois os significados de seus atos, são banais, simples e de fácil explicação. Matar um ou matar dois, não muda. Só muda a explicação.

Mas talvez, uma das características mais forte na personalidade de um psicopata, seja o remoroso. A palavra é latina, vem de remorsus, que significa tornar a morder, ou morder outra vez. Ou seja, o sujeito tido como normal, sentindo o remorso, evitar morder pela segunda vez. O sentimento do remorso, está ligado a satirizar, atacar, ferir, atormentar, torturar, magoar, dilacerar, etc. Pelos próprios significados da palavra, já temos uma vaga noção de como esse sentimento é. Com ele, há sempre uma mistura de dor, angustia, vergonha, adquiridos com a consciência moral, coisa que falta na personalidade do psicopata.

Outro fator que é chocante quando pensamos em comportamentos psicóticos, é o requinte e a elaboração que os seus atos são realizados. Não basta apenas satisfazer uma necessidade vital de realização. Essa realização precisa vir acompanhada de uma dose de show. Como não há normas que o limite, exatamente o limite é sua imaginação. Esse requinte, sempre nos deixa intrigados: Seja a frieza, o riso, o sacrifício, as palavras finais, o contar detalhadamente depois, a pose para as fotos, o colocar na mala, o esquartezar das vítimas, o estupro, o planejamento estratágico e outros infinitos casos ja conhecido por todos.

Possuem uma simpatia singular. São sedutores e o fazem constantemente. É a forma de atrair suas vítimas, que nunca são pegas de imediato. Há sempre uma dança de sedução, uma espécie de amadurecimento da idéia, para que esta aconteça de forma fria e cruel. Até nós, vendo de longe, somos fascinados por sua frieza, pela sua performance e por sua ausência de culpa. São dotados de um poder de convencimento sem igual. Sua envolvência, parece magia. São fáceis de serem amados. Eles conseguem por muito tempo, camuflar-se, coisa que o neurótico não sabe fazer. O neurótico, sempre se entrega, ou seja, eles sempre trocam os pés pelas mãos, usando um dito popular.

Socialmente falando, outro fator preponderante do psicopata é um forte traço narcisista. Se acaham únicos, superiores, imprevisíveis, sem escrúpulos, e claro, excessivamente egoístas. Notem que no caso Bruno, ele demonstrou forte preocupação, já tendo sido preso, em nao saber se iria ou não disputar a copa do mundo de 2014. Precisam de holofotes. São charmosos e dizem isso com o maior orgulho. Notem que, o psicopata possue característica narcisista, que muitas vezes, acentua-se mais, do que o próprio portador deste transtorno. Seu amor-próprio é tão elevado, que, quando querem ofuscar-lhes, eles matam, mandam matar.

Não podemos pensar erroneamente, associando psicopatas como violentos, insanos, cruéis e de fácil identificação. Por certo, convivemos com alguns deles, seja no trabalho, no círculo social, na igreja (sim, na igreja) ou nas instituições de ensino. Nem todo transtono de sociopatia está ligado a uma série de assassinatos, ou vice e versa. Se assim fosse, seria fácil fugir deles. Eles nos seduzem. Olham nos nossos olhos. Fazem teatro. Se precisar, eles choram. Em geral, os sociopatas possuem emoções, embora rasas e breves.

Dados mostram, que a cada 25 pessoas, 1 pode ter traços psicóticos. E que provavelmente é do sexo masculino, uma vez que esse comportamento é menor entre as pessoas do sexo feminino.

O que devemos lembrar sempre é que, como nos nossos desejos sexuais, uma vida em sociedade requer uma séria de repressões, negações e fugas de alguns instintos, muitas vezes primitivos. Portanto que bom, que sentimos remorso, culpa, que choramos verdadeiramente, que conseguimos pedir desculpas, que sentimos vergonha por alguns atos que julgamos errados. Santo não somos com certeza. Mas também não queiramos ser psicóticos.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O FIM DA HISTÓRIA


Certa vez, fui convidado a escrever no blog do meu Amigo Douglas. E agora, ele nos brinda com tanta riqueza. Douglas Barraqui professor e pesquisador em história ambiental pela Universidade Federal do Espírito Santo, leciona em escolas, cursos preparatórios e pré-vestibulares. Págians relacionadas ao autor: www.dougnahistoria.blogspot.com e www.ambientalhistoria.blogspot.com

As reflexões sobre a “história” ecoaram durante milênios e continuam até hoje a soar como sons enigmáticos: “quem somos? Para onde vamos? Para que viemos e qual será nosso destino? como obter a salvação? Onde encontrar todas as respostas para todas as perguntas?

“Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. [1]

Em tempos remotos o homem buscou as respostas para suas aflições em meio a rituais míticos, solicitou respostas a oráculos, a videntes e a profetas. É o homem, que sofrendo com a própria ausência, tenta criar uma imagem global, reconhecível e aceitável, de si mesmo. O homem tentou isso o tempo todo e continua por tentar.

Para os gregos a história se repete, o futuro teria os mesmos eventos do passado, e os homens teriam sempre as mesmas pulsações e necessidades. Portanto, os gregos tem uma visão cíclica da história, repetitiva: nasce, cresce, dá frutos, envelhece e morre, quanto a seu fruto, este crescerá, dará frutos, envelhecerá e morrerá e assim será com os frutos dos seus frutos.

Os helênicos não se preocupavam como o passado. Acreditavam que o futuro individual já estava traçado podendo até ser antevisto: perguntar o que fazer? e/ou, o que será? Questões que apontam necessariamente para o papel dos oráculos. Entre os teóricos da historiografia é sabido que entre os gregos não há idéia de história universal, não havia ainda sido formulada, sendo esta desenvolvida pelos romanos cristãos.

Na concepção dos romanos o futuro passou a ser o centro da história e o fim da história seria a romanização do mundo. É aqui que surge o conceito de história universal aplacada em amplitude pelo o que seria a dominação romana sobre o mundo pagão, dominação seria justificada pelo cristianismo que o próprio homem criou.

Os judeus por sua vez desenvolveram a idéia de história como um caminho linear para a salvação humana. Os romanos cristãos encaravam o futuro como a vitória incontestável de cristo, e consequentimente de Roma, e o fim do calvário do homem. O mundo assim era efêmero, sujeito a mudanças.

A modernidade passa a representar a nova temporalidade histórica, marcada fundamentalmente pela recusa da metafísica. O novo personagem, protagonista, é o homem da cidade e o burguês que estão inseridos em um intenso esforço para a racionalização. A fé não consegue mais aplacar os anseios e dar todas as respostas ao homem.

Segundo Weber somente o ocidente experimentou a racionalização que culminou na fraqueza da influência do religioso sobre o homem. O mundo oriental  manteve-se ligado a ética contemplativa e mística em detrimento ao ocidente que mergulhou na razão. O homem renascentista buscava o êxito econômico com a riqueza, o êxito político com o poder, o êxito social com o estatus, a estética com a vaidade e o intelectual com a razão. O mundo medieval abria espaço para um mundo em que o homem estava no centro das coisas. O ascetismo dava lugar ao hedonismo.

Para Kant a razão traria a reunificação da humanidade e substituiria a religião. Para Habermas o futuro era o espaço de realizações da perfeição humana, o individuo seria autônomo, autodeterminado e crítico.

O ambiente na pós-modernidade é caracterizado pelo individualismo, pelas mudanças aceleradas na ciência e tecnologia que caminham de mãos dadas a fim de dar a respostas e acabar com o sofrimento do homem. Tudo é em tempo real e imediato: mundialização. As questões locais tomam relevância e as generalizações tornam-se um perigo eminente a exemplo do etnocentrismo, imperialismo, racismo, xenofobismo, nacionalismo. As resistências passam a ser concebidas como intolerância, fanatismo e irracionalidade. Surgem novos atores Hitler, Saddam, e Bush. O mundo não pode mais ser visto em uma estrutura maniqueísta de preto e branco, heróis e vilões, vitoriosos e derrotados; aparecem outras cores.

Tudo é prazer imediato, não é mais o que você é, e sim o que você tem. Não é mais o que você planta, e sim o que você pode destruir e construir a partir da destruição. E as respostas para as aflições humanas? Talvez esta seja a resposta: a constante busca. Mas o homem é ao mesmo tempo tão perecível, tão destrutível, tão ameaçador que sua busca por respostas talvez o leve a autodestruição. É o fim da história.

   1. Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios (c. 650a.C.-550 a.C.)

Bibliografia:

WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. 15. ed. São Paulo: Cultrix, 2008. 124 p.

IACONO, Alfonso M. Caminhos de saída do estado de menoridade: Platão, Kant e o problema da  autonomia. Rio de Janeiro: Istituto Italiano di Cultura: Lacerda, 2001. 87 p.

domingo, 9 de maio de 2010

FILHO DA MÃE


Todos nós, em algum momento da vida, já ouvimos essa expressão. Outros há, que foram chamados por ela, em momentos de alegria ou de puro furor. De um lado os que aprovam e não se sentem mal e do outro lado, os que desaprovam e entendem como sendo um palavrão. O certo, é que todos nós, somos filhos da mãe. Sem duvidas e sem questionar, viemos dela e nada anula isso.

É ela que aprendemos a amar logo cedo, sem nenhum tipo de ressalva. Esse amor é tão grande, que em dados momentos, confundimos, ser ela é nós, apenas uma pessoa. Achamos o peito, o aconchego no braço, o cheiro, o toque, as sensações que fazem o magnetismo entre nós e ela. Estando ela por perto, sentimos seguro. O choro as vezes, é só pra ter certeza que ela aparece.

Vamos crescendo, e ela é quem nos ensina praticamente tudo. Desde a se proteger, como a se relacionar. Algumas, com mais didática, ensinam isso melhor. Outras, ao seu modo, também nos ensinam. Nos falam do bem e do mal; do medo e da dor; da paz e da ciência; nos ensinam a ser educado e a evitar o palavrão; ensinam como sentar à mesa e nos diz para nunca fazer feio diante das visitas. Nunca é bom ser o filho da mãe deselegante.

Por perto, não menos importante, está o pai. O pai nem sempre está presente. Ele muitas vezes, em função dos deveres, está ausente. Significados vão se formando e quase nunca, nos sentimos um filho do pai. Porque?

O tempo voa e logo elas dizem que a sua criança, virou homem depressa demais. Logo, vai se formando a personalidade, o caráter, a vida adulta, os relacionamentos, os acontecimentos vem, as descobertas inevitáveis, a dor que ela disse que existia, a independência, os sonhos, as frustrações... Encontramos grupos; lutamos por causas e desafios; a vaidade vai nos tomando e cada vez mais, a criança dela vira adulto. Cada vez mais, o tempo a leva, dando-lhe a segurança do dever cumprido. E nós... vamos nos virando...

Tudo isso parece acontecer, só pra provar também, que nunca vamos deixar de ser o filho da mãe. Mesmo que os dias nos distanciem, as queixas e mágoas de um passado remoto não nos deixa em paz, pois ela estará sempre ali, dizendo: Já tomou seu café? Comeu bem hoje? Como anda o trabalho? Deixar de ser um filho da mãe é impossivel. Nessa relação não se usa "ex".

Essa relação continua por toda nossa vida, embora quase sempre esquecemos disso. Não raro, nos pegamos fazendo as mesmas coisas, que ela sempre ensinou. Algumas manias, dilemas, crenças, medos e os ensinamentos de anos atrás, nos martela sempre que necessário. Os dias vão, saudades vem e a relação continua viva. Ali, de olos fortes, parece estar ela nos monitorando.

De onde vem tanta energia? Que nos faz viver, de tal modo, que nunca nos faz deixar de ser o filho da mãe?

E no fim de tudo, quando ela vai primeiro, lamentamos a lacuna, que nunca vai ser preenchida. Choramos não por ela. Choramos o cheiro e o afago de mãe. Choramos a dor de saber que nunca, seremos o filho de outra. Choramos, porque mesmo a segurança do pai, é desnecessária quando não temos a fragilidade da mãe. A relação é tão forte, que o tempo vai fazer, com que, ensinemos nossos filhos a também serem filhos da mãe, mesmo se forem nós, os pais.

Não adianta: Seremos sempre os filhos da mãe, todos os dias, pra sempre!
Que bom!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O FIM DA COISAS


Por certo, tudo em nossas vida, chegará no fim, um dia. Essa deve ser uma das poucas certezas que temos na vida. Se isso é certo, é melhor aprendermos conviver com essa perda. A vida tem um sentido quando insistimos em certa etapa da vida e tem outro sentido, muito mais especial, quando abrimos mão de uma etapa e começamos outra.

A vida se constitui de ciclos e são esses, cada um ao seu tempo, que nos faz amadurecer e entender essa mesma vida. São os ciclos e a forma com que eles acontecem que nos faz entender os acontecimentos do viver. É o fim deles que nos faz crescer.

Se perdemos um grande amor, ou o grande amor nos perde, talvez seja essa a maior dor em uma etapa de nossas vidas. Não me refiro ao grande amor eros, mas esse grande amor pode ser o pai, a mãe, o filho, os avós e até mesmo o irmão. Talvez é a mudança de cidade. Mudança de emprego, do velho carro, de casa. Talvez é abandonar a cama de solteiro e agora ter que mudar juntos. Esse corte, representa nosso maior apego, que não será pra sempre. Disso nós já sabemos.

É forte, quando conseguimos ver, que mesmo a amizade que cultivamos anos para fazer, pode acabar e o o grande amigo de ontem, pode vir a ser o estranho que se apresenta amanhã. Se era o bom emprego, que vivemos grande parte da vida nele, dividindo ali, parte de nosso legado, um dia também não existe mais. Só as lembranças de um passado, que nem sempre, traz as melhores recordações.

Talvez o fim, seja a saúde que tanto nos deixava potentes diante das intempéries da vida. Podemos ainda em vida, ter o fim de nossas pernas, talvez de nossos olhos, de nossos tatos e movimentos. O fim de tanta vitalidade, pode estar a um fio e a linha que divide o tempo real para o tempo do fim, é quase imperceptível.

O tempo da juventude, também tem seu fim. Lutamos tanto contra a chegada da velhice, mas é certo que ela vem ao nosso encontro e quase sempre em passos rápidos. É doloroso entender o fim desse ciclo, mas os cabelos logo mudam de cor, a memória sempre falha e a forma comum quase sempre, começa a falhar. É o fim de alguns prazeres, de outros desejos e perder a visão de futuro, torna-se comum, quando esse ciclo morre.

E abrir mão de certos hábitos e valores, que por toda a vida nos acompanhou? Não é fácil. Sempre pensamos que não sobreviveremos sem aquilo. Percebemos que o tempo torna-se mais complicado e a forma de lidar com essa falta, parece incompreensível.

Interessante pensar, que todo início só surge, quando tem-se um fim. Abrir mão de certas “riquezas”, constitui permitir-se descobrir o novo. Assegurar que a mudança acontecerá é uma riqueza que permite com que cada um de nós se constitua como indivíduo. As nossas percepções sobre a vida mudam e precisamos mudar conceitos, comportamentos e não esperar muito, além daquilo que nós mesmos podemos fazer.


É isso. Pensemos no fechar das cortinas.



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO.

quinta-feira, 4 de março de 2010

DE TUDO QUE GOSTO


A vida, é feita de coisas simples, sem dúvida. Elas é que dão sentido às nossas rotinas, e talvez por serem simples, acabam sendo esquecidas por nós. O prazer da vida se encontra também nelas e para que não esqueçamos, é bom de vez em quando gozarmos um pouco delas.

Eu, por exemplo, gosto do cheiro que tem, quando a chuva cai sobre a terra, em especial no final do dia. Eu gosto de chuva bem serena e calma, avisando que cai, sobre um telhado seguro. Gosto de pessoas simples, num papo sem pretensões não ditas. Gosto de viajar, para o novo, descobrindo o desconhecido, permitindo-me novas descobertas. Gosto de ouvir músicas, que conseguem ter letra, ríttmo e melodia. Elas, de alguma forma, nos deixam melhor.

Gosto de ver um vagalume na negra noite, que não se intimida e insiste com sua luz. Gosto de ver a lua cheia, no céu, solitária e imponente. Não tão longe, gosto de ver as estrelas, que juntas formam o mais belo tapete de brilho acima de nós. Gosto de fruta do pé, ali, natural. Goiaba, então... Gosto de ver a semente nascer, na terra preta de uma horta. Gosto de família reunida, com crianças, barulhos, risos e recordações. Gosto de voar. A sensação de liberdade aumenta, estando entre as nuvens.

Gosto de conversar com pessoas que também gostam, numa relação onde há de fato diálogo. Gosto de ver pessoas conversando, defendendo o que pensam e se entregando ao que acreditam. Gosto de reunir amigos, pra fazer nada ou ficar apenas sorrindo e jogando conversa fora. Gosto de pessoas corajosas, com capacidade para assumir riscos, coragem de falar e com coragem de ouvir. Gosto das letras das verdadeiras musicas sertanejas: Elas trazem uma dor, um drama, que por vezes nos fazem repensar alguns valores.
Gosto de ler. Biografias especialmente. Mas também gosto de ler anúncios, propagandas, piadas e por que não histórias em quadrinho? Gosto de ver as pessoas elogiando as outras, em especial quando não estão na presença delas. Gosto de ver pessoas que sabem dançar, dançando. Pessoas que dançam quando estão dispostas. Gosto de ver pessoas que cantam interpretando, não somente cantando.

Gosto de comer um bom pastel. Não muito quente, nem frio. Um pastel na temperatura certa e com pimenta. Gosto de feijão cozido no dia, com bastante alho e bem quente. Gosto de um bom vinho, acompanhado de bons amigos, bom papo e muito senso de humor. Gosto de paçoca de pilão. O ritual faz parte do sabor. Gosto de abacaxi gelado. Gosto de melância gelada. Gosto de cozinhar. O ritual também faz parte.

Gosto de filmes e dou mais valor aos dramas, com história real e final francês. Final verdadeiro. Gosto de pessoas humoradas, daquelas que conseguem ver humor em tudo e que da dor, conseguem tirar boas risadas. Gosto de rede na varanda. Gosto de gente com senso de justiça, sem contudo ser cruel. Gosto de choro de gente sincera.

Gosto de abraços apertados. Daqueles que a cabeça encaixa no ombro. Demorado. Gosto de receber ligações raras, de pessoas raras, sem compromisso, em especial, as fora de hora. Gosto de afagos de olhos fechados, conversa ao pé do ouvido e de dormir de conchinha em noites frias. Gosto de aperto de mão forte, de olhos nos olhos. Gosto de significados nas relações. Gosto dos seus significantes. Gosto de gente persistente. Gente sincera e franca. Gente animada e que sabe contagiar.

Gosto de desejar.


E você, do que gosta um pouco?


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

MÁSCARAS


Tempos atrás, meu amigo blogueiro, Douglas Barraqui, cujo o blogger é http://dougnahistoria.blogspot.com/2009/12/mascaras.html me convidou para escrever algo para o seu excelente blogger. Na ocasião escrevi o que você lerá abaixo. Obrigado pelo privilégio Douglas.


Todos nós as usamos. Sejam de vez em quando, seja diariamente. Todos nós temos uma porção delas. As máscaras, se tornaram acessórios essenciais para nossa sobrevivência. São usadas para disfarçar uma séria de verdades: a idade, nossa verdadeira identificação, nossa identidade, nossa natureza e até nosso espírito. Podemos usa-lás no carnaval, nas festas, nas noites, no trabalho, em casa, nos relacionamentos. Sem dúvidas, as máscaras são poderosos meios de defesa.

Mas as máscaras mais perigosas, são aquelas que usamos no dia-a-dia; aquelas que não tiramos em nenhum momento. São aquelas que não são mais adereços e sim, parte fundamental de nosso caráter, de nossa personalidade. Estão tão impregnadas em nossa vida, que só não disfarçam, como transformam-nos.

Quer seja na história, quer seja na poesia, na arte, lá estão elas. A máscara possui para cada um, um significado próprio, que vai desde o sentido religioso, até o mais pessoal possível. Pode se manifestar-se desde o sagrado, até o profano, do mais cruel até o mais bondoso, do bem até o mal, indo do fraco até o mais forte.

O mais interessante das máscaras, é o poder que elas tem, de esconder o real, o que fato acontece e que por algum motivo, queremos que os outros não vejam. As máscaras são feitas, de acordo as ocasiões e os destinos. Não estão ligadas somente aos grupos, mas também aos desejos e anseios.

E nas relações é que elas de fato se fundamentam. São tão usadas que nunca conhecemos de fato quem está do nosso lado, dormindo conosco e comendo à nossa mesa. De tanto termos máscaras do lado, e que temos a necessidade de criarmos as nossas. A aceitação pela sociedade, através do que somos, só pode se dar através delas. É por isso que encontramos tanta gente que esconde, teima, mente, finge, descarta, aceita, cobra, nega, sorrir, estigmatiza, esquece e por ai vai.

Há os que escondem-se por sua própria vontade; outros vivem ocultos sem saberem disso; e por fim, os que de fantasia se sustentam e sobrevivem. Elas são necessárias. Precisamos delas. Mas como nos bailes que acontecem no ano, elas não podem ser usadas o tempo todo. Precisam ser descartadas de vez em quando e dar lugar à nossa verdadeira identidade.


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

SENTIMENTO ILHADO


O cantor e compositor nordestino Fagner, com sua poesia cantada, sabe bem dizer sobre isso: "Quando a gente tenta, de toda maneira dele se guardar, sentimento ilhado, morto, amordaçado volta a incomodar." Ele fala de uma angústia, de algo forte, que embora preso e dominado, volta um dia a colocar-nos contra a parede.

Mas, licenças poéticas à parte, isso é algo muito comum, numa sociedade onde as pessoas, cada vez mais escondem o que sentem, para agradar as pessoas. Hoje, vivemos muito mais escondendo nossas emoções, do que vivendo-as de forma racional. Mas porque, que, viver sem máscaras incomoda tanto? Porque que, geralmente as pessoas, não gostam de ver aflorados seus sentimentos? Já observaram que negar-se, é talvez umas das atitudes mais corriqueiras em nossas relacções?

Dizer isso, vai em encontro com nossos conflitos, com os nossos sentimentos ilhados. Vai em encontro com aquelas nossas emoções que pensamos já ter superado, acreditamos ja ter vencido e que com o tempo, tudo aquilo já morreu. Doce ilusão! Eles estão ali, vivos, fortes, apenas esperando por um momento de coragem da nossa parte. Ignorá-los não ajuda em nada. Fingir que não é comigo, é apenas adiar um conflito, que mais cedo ou mais tarde, vais nos colocar no canto da vida.

Podemos parar um momento e pensar agora, o que trazemos guardados dentro do peito, da memória, do coração? Vamos pensar em quantos vezes, preferimos não falar nisso, não tocar naquilo, não vê aquilo ali e claro, sufocar, amordaçar esse sentimento. Pra quê? Isso não muda nada. Reelaborar isso e tantar fazer de novo, vai doer e assim é preferível deixar lá. Latente.

Talvez é o grande amor da sua vida, que na verdade nunca foi seu, mas que você prefere fingir que esqueceu. Esse amor não vai ser seu nunca. Então porque não resolver isso? Ou quem sabe, é aquele medo bobo de dizer uma verdade que você esconde pensando que algumas pessoas vão morrer quando ficarem sabendo e enquanto isso, você mata a si mesmo. Talvez é o seu futuro profissional: Fez um curso para agradar seus pais e eles na verdade nunca souberam qual o curso que você faria pra você mesmo. E se for a tua orientação sexual? Até quando vai negar pra você mesmo? Pode ser então, a coragem que você finge ter, mas no fundo nunca assume seus erros, suas fraquezas e fica longos anos de sua vida, "mantendo a pose" só pra sair bem na foto.

Amigos, na vida é assim: Ou somos ou deixamos de ser. Não tem outra saída. O que ocorre é que metade das pessoas que conhecemos acham que são. A outra metade são, mas não assumem. Complicado não? Quando digo em ser verdadeiramente o que somos, me refiro a aprender a lidar com nossos conflitos, com nossos sentimentos ilhados. Me refiro ir nessa ilha e de alguma forma conviver com esse morador. Tentar pelo menos tirar ele da ilha de vez em quando e faze-lo socializar com os demais.

Tente! Você vai se sentir melhor sempre. Converse. Aprenda a perguntar. Permita-se ouvir. Não tenha medo de você mesmo. Deixe de ser ilha. Tente pelo menos de vez em quando ser uma ponte entre ele e você.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO.

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...