quinta-feira, 7 de março de 2013

ONDE ESTÃO NOSSOS HERÓIS?


Nossos "heróis" estão morrendo?!

Me preocupa ver jovens e adolescentes cada vez mais idolatradores de artistas, homens e mulheres que não tem muito ou quase nada  a oferecer. Seus "heróis", morrem de overdose, se suicidam, batem nos pais, são presos, fazem músicas com apologia à depressão, à anarquia, ao consumismo, ao desrespeito, ao uso de drogas lícitas e ilícitas, ao sexo fácil e barato, ao nada, ao português chulo e à bizarrice (do funk ao sertanejo). Seus "heróis" quase sempre não defendem o bem, a educação, a família, os princípios. Quase sempre seus "heróis" não possuem nada disso. Só lhes ensinam o que não presta e é o que por certo vão lhes matar também. 

Não me diga que: "Eu só curto, a música, o som, a coragem e a arte que eles fazem". Somos construídos e constituídos por aquilo que ouvimos, fazemos, admiramos, acreditamos, defendemos... é isso que somos, mesmo que tenhamos letras de impacto e um discurso radicalizador! Usar drogas, ser "diferente", fazer o que der vontade, ir contra conceitos prontos, fazer musicas com letras de impacto... é ser "herói"? Pensar que estar arrazando e se achar o máximo é exatamente fazer o que?

Não nego os seus valores enquanto artistas, enquanto construtores de conceitos em sociedade e delimitador do tempo em que existiram. Mas não posso negar também, que cada vez mais construimos uma sociedade que caminha para o nada, para o caos e grande parte desse material construtivo, é absolvido desses "heróis" que estão na mídia, com o poder da palavra e da persuasão. É natural que hoje, os pais sejam substituidos pelo video game; a leitura de um bom livro, seja trocada pela batida inebriante do funk; o velho e bom bate papo sobre referências, sejam trocadas pelas horas na internet e até mesmo o brincar, foi trocado pelo frenético ardor do capitalismo selvagem.

É lamentável ter que admitir, mas um país que classifica-se em 55º lugar na educação mundial, onde necessidades básicas de sua sociedade, com saúde e saneamento não existem; onde gastamos muito mais com carnaval e  micaretas, possam de fatos construir "heróis" como estamos acostumados a ver. É neste mesmo país, onde leiloa-se a virgindade; onde ficar confinado numa casa, subemtendo-se a prova esdrúxulas é ser "herói"; onde mostrar as partes íntimas em uma faculdade é requisito para se tornar celebridade; onde família é produto descartável; onde a mulher vira fruta, onde propaganda de bebida é mais veiculada do que propaganda de educação; onde achar dinheiro na rua e devolver ao dono é algo extraordinário; onde professor é demitido quando reprova um aluno que não sabe ler; onde ler e escrever é ser alfatizado; onde fazer "gato" da tv a cabo é motivo de comemoração... é esse país onde os "heróis" podem tudo.

Não pense que estou dizendo o contrário, de que é justamente com as diferenças que se fortalece a democracia. E é na democracia que podemos pensar sempre que tipo de valor estamos criando em sociedade. Estou dizendo, que essa mesma democracia nos permite ser "essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Estou lembrando com isso, que nesta mesma democracia não se deve generalizar ou marginalizar a sua diveridade cultural. Contudo, não se deve fazer uma prisão (como era antes) nem tão pouco um parque de diversões (como o é agora).

Talvez precisemos repensar o conceito do que é ser herói. O momento de repensarmos o conceito de família é agora. Não estou me referiando ao modelo tradicional somente, mas ao sentido moral da palavra. É bom pensarmos um pouco, e assim refletirmos, sobre o que estamos ouvindo, sobre o que chamamos de ídolo, sobre o que são valores morais e éticos, sobre concepções a respeito de drogas, liberdade, civilização, educação, respeito entre tantos outros. Acima de tudo pensarmos que tipo de heróis queremos para um futuro próximo.

Onde estão nossos heróis? O que queremos ser quando crescer? Que exemplos estamos tomando para a vida? Quais são nossas referências? Vale parar e pensar um pouco sobre que valores são esses. 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.  

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

CARTA À MINHA JUVENTUDE

Sabe, hoje quando olho no espelho, vejo impresso as marcas de uma juventude, ali, bem perto, que há não muito tempo atrás ainda há. Ela permanece viva, como num estado de graça, que é preciso se renovar todo dia. Não pensem que estou velho. Tenham certeza no entanto, que tudo passa depressa demais e o que era, em 24h não importa mais.

Hoje percebo com mais força, que um sorriso muda muito. Quase tudo. Que sorrir faz muito bem em especial quando gostamos das pessoas. Eles cativam e quem sabe, eu tenha aprendido isso um pouco tarde. Não sorrir, sem duvidas é uma das piores bobagens que cometemos na vida, em especial na juventude. O sorriso nos deixa bobo por uns minutos, por umas horas, por uns dias talvez... e estar bobo, é entrar em um estado de graça, de êxtase. Os bobos vivem bem mais felizes. 

Sabe juventude, eu devia ter me apaixonado mais. Bem mais! Bem mesmo. Ter arriscado mais. Me refiro às paixões pela vida, pelas descobertas, pelo simples, pelo descomplicado. Apaixonado pelas pessoas, pelas histórias... Tanta coisa maravilhosa passou à minha volta e eu não vi, deixei ir embora, porque me faltou um olhar de paixão por elas. Muitos fatos bons se foram, e eu não os contei, não dividí, não repartí e eu acabei os perdendo. Quanta tolice! 

Olha juventude, quando se tem a sua idade, somos bem mais egoistas, do que somos agora. Reconheço hoje, que me prendí mais ao que eu tinha, do que ao que eu era. Haviam preocupações tão desnecessárias; cuidados tão fúteis; eram julgamentos infundados e com isso, deixei de viver mais intensamente essa vida. Foi rapido demais que você se foi! Nem nos despedimos. Eu queria mesmo juventude, era ter tido mais amigos, para hoje, com o peso dos anos, poder partilhar alguns fardos que pesam bem mais do que na sua idade. Alguns amigos que tive, não me levaram no colo, não foram comigo ao hospital, não choraram os meus lutos e não dividiram a minha dor. Acredite juventude: é bem mais fácil ter esses amigos hoje do que na minha época. Disso eu posso me gabar! 

Outro pecado que cometi juventude, foi no estudo. Eu sei que podia ter me dedicado mais. Eu devia ter lido mais, aprofundado mais os meus conhecimentos naquilo que descobrí que gostava. Devia ter sido mais vertical e não somente superficial em muitas coisas que realizei. Com isso, poderia ter conseguido muitas realizações, bem mais cedo, que planejei. Hoje, entendo que conhecer sempre um pouco de tudo, é uma atividade que sempre tem que estar por perto. Isso nos livra muito e nos guarda também!

De tudo, algumas certezas eu trouxe comigo. As coisas mudam e nós mudamos juntos. Isso será inevitável sempre. A gente sofre. Ah, como sofre juventude! No seu tempo, isso é mais facil de se lidar. Família, ganha outro significado e mesmo não sendo as pessoas que pedimos a Deus, vamos descobrindo que elas são necessárias pra uma vida toda. Aprendí nesse tempo todo, que constrangimentos vamos ter o tempo todo, em especial nessa etapa da vida. Aprendí juventude, que continuo errando, continuo fazendo besteiras, e muitas, eu ainda não sei porque. Aprendí que não dá pra voltar atrás, mas que é possível ir em frente todo dia. E olha, nós precisamos de um amor na vida. Não esquece disso!

E sabe juventude, te peço que quando chegares onde estou, que ainda saibas sonhar, acreditar, saibas fazer escolhas. Que em tudo que fores fazer, seja o melhor. Que entenda bem cedo, que estar velho é antes de tudo um privilégio! 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.  

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

DISTURBIO ALIMENTAR: ALIOTROFAGIA

Não raro, nos deparamos com síndromes e disturbios, comuns na sociedade contemporânea do século XXI. Algumas delas, está ligada à alimentação ou com o ato de se alimentar. A ela, damos o nome de Síndrome do Pêga ou como queira, Síndrome do Pica ou ainda, Aliotrofagia. Parece estranho, mas este nome, de origem latina, deriva-se do pássaro Pêga, que é um pombo faminto, que tamanha é sua voracidade, ele come tudo o que vê pla frente. Seu habitat é comum em países de clima tropical e/ou mais quente. 

Esse disturbio ou síndrome, gera no ser humano uma compulsão neurótica, fazendo-o, comer as substâncias mais complexas e não comestíveis e digeríveis. Por exemplo: giz, carvão, barro, pedra, colher, moeda, sabonete, tecido, cabelo, botões, excrementos, vômitos entre outros. Além é claro, do fator digestão, há ainda o fator social, uma vez que esse indivíduo exclui-se do convívio social, onde o seu alimento não é compartilhado por todos à mesa. Em alguns lugares do mundo, isso é comum, pois pode ser um fator ligado à tradição de um povo. Suas variações são muitas, subdividindo-se em tipos e quantidades de objetos ingeridos, podendo persistir, por mais de trinta dias.


Eu me ponho a pensar? O que andamos engolindo e que nem sempre conseguimos digerir? A que ponto, estamos doentes, frutos de um processo aliotrófago? Será se não estamos nos calcificando, fruto de uma obsessão por algo que insistimos, mas que não nos faz bem? É necessário nos alimentarmos bem, para que bem possamos viver, psicologicamente falando.


Eu penso, quantas amizades insistimos em manter e elas sempre nos fazem mal? É fato, que quase sempre há algumas amizades que não nos acrescentam nada. O tempo vai, o tempo vem, e não nos tornamos melhores com algumas companhias. Elas sempre são indigestas, nos dão mal estar, nos fazem sofrer muito, nos provocam dores e má digestão. Isso pode durar muito. E quanto "sapo" engolimos de graça, para ser aceito, para fazer parte, para não contrariar...  seja ele do superior, do par, do amigo, do inferior...


E os relacionamentos que não existem mais e continuamos a ingerí-los? Não existem mais em sentimentos, afetos, reciprocidades, sensações, respeitos... mas lá estamos nós a engolí-los dia após dia. Seja forçado pelo meio, pelas pessoas, pela necessidade, pela carência e pelo simples fato de "não consigo ficar só". Isso por certo nos faz muito mal. 

E as dores, incertezas, passados, medos, traumas que ingerimos diariamente e que quase sempre não fazemos digestão deles? Que tipo de alimentação estamos tendo para que termos boa saúde sentimental? Que tipo de providências estamos tomando, para engolir só aquilo que vai nos fazer bem? Por certo, as causas de certos sintomas que estamos sentindo, tem a ver com um comportamento doentio que temos, sem selecionarmos bem o que estamos comendo, sem ao certo saber, nem o que vamos digerir.

 Que tal, pensarmos nisso!?





 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.  

domingo, 29 de julho de 2012

PONTO DE EQUILÍBRIO

E parece mesmo que a vida toda, a gente passa ouvindo que, o importante é ter equilíbrio. É, equilíbrio. O que é isso? Anos se vão e parece que vamos descobrindo todos os dias, que mesmo o mais forte dos seres humanos, precisa de uma dose dessa virtude.

Mas eu me ponho a perguntar: o que nos tira do sério? O que nos deixa desequilibrado? Por certo, há algo que nos deixa sem os pés no chão. O tempo é longo quando procuramos equilibrar algo e rápido demais, quando quebramos essa harmonia.

Estamos sempre buscando o equilíbrio entre emagrecer e engordar; peso ideal pra harmonizar com corpo ideial. Esquilíbrio entre não se afastar demais da pessoa amada e não sufocar com excesso de cuidado. Mas às vezes é o equilíbrio entre a vida espiritual e a correria do dia a dia que nos afasta Dele. Mas e a vida social com familia e amigos, que quase sempre é consumida pelo trabalho e os afazeres ligados a ele?

São muitos. São inúmeros pratos que precisamos segurar nas mãos, sem deixá-los cair e na mesma velocidade devem ser mantidos. Lembra do malabarista lá no circo? Afinal, onde está esse equilíbrio? O que é que precisamos fazer para mante-lo conosco? Qual é o segredo?

Todos nós, ao analisarmos nossa vida, vamos descobrindo o que é que precisamos manter em harmonia. Às vezes, é por uma necessidade de sobrevivência, às vezes por uma imposição ou até mesmo por uma vaidade. A natureza, no seu compasso, nos diz que, apenas o equilíbrio que o homem não tem para com ela, seria necessário para mante-la viva. A doença vive nos dizendo, que muitos males poderiam ser evitados, se soubéssemos equilibrar o prazer simplesmente pelo prazer. Até os vícios nossos estão nos dizendo, que foi sóo uma falta de equilíbrio que não tivemos no passado para ele se instalar.

Diante da morte, diante de um não, diante de uma adeus, diante de uma chegada, na partida, na frustração, na amizade que não existiu, no amor, na separação... a gente vai descobrindo que é só uma questão de equilíbrio. Diante de uma rejeição, no carinho, no medo, nas decepções, ao ouvir um "nunca mais", "é pra sempre", é só uma questão de equilíbrio. No nascimento, no crescimento, nos prazeres, no sexo, nas descobertas, nas finanças... tudo é necessário equilíbrio.

Recordo-me, de quando estamos aprendendo andar de bicileta. O que mais queremos é ter o equilíbiro, para não cairmos quando ela deveria cair. Quando acreditamos nessa fassanha, arriscamos a pedalar e pedalar... O interessante é que até mesmo velhos, ainda estamos aprendendo andar de bicileta: na bicicleta da vida. O que nos mantem de pé é somente o equilíbrio. 

Vamos! Você pode ser o equilíbrio para muitas pessoas!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

segunda-feira, 12 de março de 2012

QUEREMOS SEMPRE IDEALIZAR O PASSADO?

Quando posso, fico observando o comportamento das pessoas, suas falas e atitudes, nossos atos e significados e cada vez mais me convenço de que, queremos sempre repetir o passado, ou quem sabe, refazê-lo de forma melhor. O passado é sempre belo, mesmo que ele não nos traga as melhores lembranças e sensações. Quanto mais distante ele fica, mas saboroso o é!

Estamos sempre à procura do novo, do atual, do ainda encantandor, mas a verdade é que a vida é como já foi um dia. Ela era melhor antes? Vem se tornando mesnos saborosa? Queremos sim, ser felizes, ter família grande, ser aceito na sociedade, ser reconhecido, ser amado por alguém. A família que queremos por exemplo, é aquela ainda feita de pai, mãe, irmãos, cachorro, gato, plantas, barulho, e essa família, está cada vez mais rara. Ficou registrado na história somente. 

Queremos mesmo que o passado volte, quando pensamos em crianças que brincavam mais, eram mais criativos, usavam o que tinham e brincavam o dia inteiro. Ir a escola, era de fato um processo de aprendizagem e não, em grande parte, um risco de vida. A gente prefere o passado, quando a adolescência era de fato vivida e não somente inventada e ir ficando adulto, era um acontecimento e não um simples trocar de idade. 

Nossa saudade é mesmo construído de um passado sem tanta violencia, do pique esconde na rua, das igrejinha do interior, das festinhas só com conhecidos,  da comidinha caseira e cheirosa da avó. Passado que hoje podemos atestar: Quanta sabedoria tem os nossos avós, ainda que muitas vezes, analfabetos. O passado que queremos refazer, era cheio de energia, de gritos e barulhos, de abraços, de pequenos presentes e de grandes agradecimentos. Passado bem mais grato.

As músicas do passado, eram melhores? As cores e cheiros eram mais saborosos? Os preconceitos eram menos cruéis? As pessoas se cumprimetavam mais? Educar era mais fácil? Sem duvida há um passado que é um presente colocado a todo momento em nossa vida e recusá-lo por der um presente que deixamos de ter e que nos machuca. Esquecer o passado é talvez, não ver um futuro que nos convida a todo instante e que  nos envolve a construí-lo. 
 
As amizades eram mais sinceras? Os relacionamentos duravam mais? As pessoas eram mais verdadeiras? Reinventar o passado e fazê-lo acontecer de novo, seria pedir que as pessoas se respeitassem mais, que a figura do vizinho voltasse a existir, que os valores que nossos avós nos ensinaram continuassem a existir e que cada vez mais, a gente imitasse nossos pais.

Os erros que cometemos no passado, sempre são aqueles que esperamos não comenter de novo. Mas até esses, parecem que as vezes, gostaríamos que acontecessem novamente, so para zerarmos o cronometro e refazer uma nova história. Como no passado, evitamos o sofrimento, perseguimos a felicidade, somos obstinados pelo sucesso e todos os dias, estamos na frenética briga pela sobrevivência.  

Tal qual no passado, nós só queremos viver o presente sem rasgar o embrulho que a vida o embala.
 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.  

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PONTO DE REFERÊNCIA


"O que você quer ser quando crescer?" Se não fizemos essa pergunta, por certo, alguém nos fez. Hoje, é mais raro se ouvir isso, acredito ao numero de ocupações que os pais possuem e com isso, o tempo que deveria ser dedicado aos filhos, fica pra depois. Ou será, que na falta de referência dos pais, essa pergunta fica inviável? Outro dia, ouvi um filho perguntar: "O que você virou, depois que cresceu"?

Momentos assim, eram de suma importância, porque nessa troca de valores, ia se criando na criança, o que chamamos de referência, que a rigor, deve ser primeiramente os pais. São eles, que quase sempre viram nossos heróis, o motivo maior de nossa admiração. Entenda-se por pais, aqueles elegidos de fato, como tais e não somente os biológicos.

Mas o tempo passa e chega um momento, que precisamos tomar decisões mais sérias e é aí que precisamos levar em conta algumas referências. Algumas delas, criamos lá atrás, geralmente em nossa infância, com as nossas relações, com a aceitação dos ideais que vamos planejando para uma vida inteira. Só notamos o peso delas, quando nos deparamos com a realidade imposta, com o curso que não conseguimos mudar e até mesmo com aquilo que teremos que nos adaptar.

Porém, é assustador hoje, o número de pessoas vivem sem uma referência se quer, um norte ou um exemplo a ser seguido. As pessoas, tornaram-se auto suficientes demais e dessa feita, donas de si. Pautam suas vidas, a forma como se divertem, as relações de amizades e amorosas, no vácuo e por isso, quase sempre erradas. É quase inaceitável nos dias atuais, a quantidade de opções que temos e em contra partida o excesso de decepções e frustrações.

Fico pensando, em adolescentes que tomados por uma especie de alucinação, acampam até 15 dias na porta de um estádio, abandonando um série de outros afazeres, para verem um show musical, que trocando a miúdos, não agrega quase nada. Quando não, são abduzidos de uma esteria tal, que desmaiam, choram, machucam-se, sofrem sobremaneira emocionalmente e a pergunta que fica é? Para que? Que referencias são essas? Pra onde vamos? Ainda temos casos de "ídolos" e de modelo de vida, admirados no mundo todo, que chega no mínimo a assustar. Eu me pergunto às vezes: O que esperamos para o futuro? Quem esperamos ser no amanhã? 

Penso, que poucas décadas atrás, esse referencial era diferente. Não sei se estou errado, mas o conceito de amizade tinha outro significado. Diversão, era de fato diversão e o ponto para divertir-se era carregado de outras emoções e de outros signos. Até mesmo a felicidade partia de outro princípio e mesmo com o pouco era possível ser feliz. Desculpem se parecer piegas, mas essa fase foi mais gostosa do que a de agora. 

Hoje, temos o excesso de muitos valores; hoje o novo fica velho rápido demais; o importante logo deixa de ser e o que satisfaz, em poucos dias passa a ser incapaz. Com isso, as referências desaparecem e as frustraões disputam lugar com o vazio e o nada. Há muito barulho e pouco conteúdo. Há muita relação e poucas pessoas felizes. Há muito contato e poucos amigos. Há muitos ideiais e pouco de concreto. 

Eu sei que o tempo passa, que evoluímos, que a tecnologia toma lugar, que o atropelo do capitalismo nos consome e que somos forçados a viver de tal modo, que só o fato de estarmos vivos já é um grande feito. Mas não devemos esquecer, que quando estamos buscando por um endereço, o ponto de referência faz com que o encontremos mais depressa. É através do ponto de referência que o endereço se torna mais lúcido. 

Pensemos nisso!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.  

sábado, 6 de agosto de 2011

DEPOIS DOS 30...

Não. Hoje não é meu aniversário, nem se trata de homenagear alguém que o faça hoje. Mas já passei dos trinta e gostaria de pensar um pouco sobre como nos sentimos após essa idade ou após eles. Nós mudamos nossos comportamentos e nossa forma de enxergar a vida, mas nem sempre nos atentamos ao que ganhamos de bom com tantas mudanças. 


Geralmente é só depois dos trinta, que passamos ver a família sob outra ótica. Seja os pais, irmãos, avós, filhos. A impressão que temos é que nessa etapa, essas pessoas passam muito mais a ter qualidade em nossas vidas, do que necessariamente o quanto eles estão presentes em nossos momentos.  Nessa mesma época, Deus e/ou religião passa a ter outro sentido, outro valor e cada um vai criando consigo, à medida que consegue suportar o seu "religare".


É verdade que depois dos trinta, algumas feridas doem mais, são mais agudas e algumas lembranças batem mais fundo e até algumas dores demoram mais a sumir. Em contrapartida, outros pesos e medidas que sempre levamos, passam a ter outro fardo, outros significados. Ficamos mais sentimentais, mais sensíveis, mais tocáveis. Trocamos preço por valor e valentia por ousadia.

Somente após os trinta é que damos valor de fatos às amizades. Será? Poucas na verdade, mas valorosas! Mas aprendemos a distinguir o que é ter alguém por perto e descobrindo junto com isso, que há pessoas que podemos contar, mesmo se esta estiver longe. No campo profissional, parece que é aps esses anos, que começamos a andar com as próprias pernas, que começamos a descobrir de fato o que gostamos de fazer e claro, a conquistar nosso espaço e fazer nosso nome.

Após os trinta, aprendemos a ouvir mais, a falar melhor, a agir com mais cautela, a descobrir com mais prazer. As dúvidas são mais elaboradas, as incertezas mais amenas, as certezas mais cruciais, os medos bem menores, os planejamentos mais sólidos e os cheiros mais apetitosos. Dizem que as viagens são mais saborosas, as bebidas possuem um outro sabor e a maioria dos nossos atos passam a ter significados e ressiginificados.

Será que o grande amor, vem mesmo só após os trinta? Antes, temos tantas idas e vindas, voltas e recomeços e parece que tudo isso faz parte do dia a dia. Mas chega um momento, que ter um grande amor é necessário, não somente porque precisamos fugir da solidão, mas porque precisamos ser o grande amor de outro também. É com esses anos, que podemos escrever uma história impregnada de muitos fatos históricos, acontecidos alí atrás, alí, antes dos trinta. 

Se é verdade mesmo, é após os trinta que descobrimos pra valer o poder da auto estima, da segurança pessoal, o que nos desata de alguns nós que pegamos na adolescência. Sem dúvidas, é após os trinta, que passamos a cuidar da saúde com intuito de ter saúde e não apenas vaidade. Nessa época, começamos a entender que se é balada por balada é melhor ficar em casa e que lugares são feito de companhias. 

Mas que data mágica é essa, que para alguns é contagiantes e para outros nem tanto? Do que foram feitos esses dias que construíram os trinta que se foram e ainda juntam-se a vários que ainda estão por vir? Que material é esse, que nos prende e tem sabor mais agradável do que desagradável? 

Pense um pouco no que você fez dos seus trinta anos. Estamos vivendo mais de sabores ou de dissabores?


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...