terça-feira, 31 de março de 2015

SOBRE TROTE EM UNIVERSIDADES


Não é de hoje, que alunos veteranos de universidades e faculdades, dão as "boas vindas" para os alunos novatos através do trote. O trote, nada mais é, do que uma série de atividades que devem marcar o ingresso desses novos estudantes ao ensino que vão começar.  É uma espécie de ritual que marca essa investidura em seus estudos. Geralmente, essas atividades são divididas em atividades consideradas leves ou pesadas. 

Costumam ocorrer nos dias da denominada calourada e sempre é no início de um semestre ou de um ano letivo. Nas escolas, o trote também costuma acontecer depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram a ela. Ele também pode acontecer fora da instituição de ensino, principalmente em casas de república, lugar onde dormem juntos os alunos que vieram de outras cidades.

Até aí tudo bem. O trote sendo solidário e saudável, não tem nada de ruim, até porque ele serve para ambientar o aluno novato junto à Instituição, junto aos seus novos colegas, serve para troca de experiências junto ao aluno veterano e até mesmo mesmo para um contato com quem serão os seus professores. Essa deveria ser a premissa do trote. Deveria! 

O que temos visto, é que a forma como o trote acontece hoje, não é nem de longe, a melhor maneira de ser apresentado a uma nova rotina de vida, nem tão pouco é um ritual de introdução a uma nova instituição que vai requerer desse aluno, normas, disciplinas, esforço, dedicação e foco. O trote deixou de ser uma atividade saudável e se tornou uma "brincadeira" de muito mau gosto, um crime, caso de polícia. O trote tem representado um rito de passagem e de violência contra alunos, que muitas vezes levam sequelas pro resto de suas vidas. Tem sido mais agressão do que emoção.

Talvez pelo fato da palavra trote, fazer uma alusão ao andar do cavalo que é adestrado - e adestrado a duras penas com chibatadas e esporadas - é que alguns alunos se comportam como animais na tentativa de domesticar os alunos que ainda não entraram no "passo" que a Instituição/curso exige. O cavalo aprende, a andar em um compasso que nem é lento, nem tão pouco em disparada. É como se o aluno novato, tivesse que aprender a trotar. Péssima iniciativa.

Me preocupa o fato de que, alunos que potencialmente irão defender uma profissão, um nome, irão ajudar uma sociedade com o seu ofício, terão a oportunidade de fazer história em um País que tanto necessita, se prestem a um papel de afogar pessoas, promover o coma alcoólico, brincadeiras que contribuem para o traumatismo cranioencefálico, rituais com animais mortos e fezes, fumar, tirar as roupas íntimas, pedir dinheiro nas ruas, deitar sobre um formigueiro, atear fogo na roupa, amarrar pesos de até 7k nos órgãos sexuais e o mais grave: a morte de alguns deles. 
   
De tudo isso, fica claro que as Instituições de Ensino que permitem tais práticas precisam ser punidas, além de expulsarem do seu quadro de discentes, pessoas que praticam tais atos. Isso não pode ser considerado, sob nenhuma ótica, como um ritual de boas vindas.

Me pergunto: porque não promover uma atividade beneficente ligada ao curso que o aluno está ingressando? Porque não fazer a semana da doação de leite; da higienização de creches e asilos públicos; da doação de sangue e plaquetas; da reforma de uma escola pública que estão em sua maioria estão precisando; da arrecadação de alimentos para um orfanato; doação de horas para a CVV na escuta de quem precisa; para a animação de um dia somente, para crianças com câncer; para palestras educativas a adolescentes sobre educação sexual e o uso de drogas; na reciclagem de lixo;  da montagem de um biblioteca em escola pública com doação de livros? São tantas as práticas de cidadania que podem ser feitas. 

Atividades assim, são as melhores para socializar o aluno e fazer com que ele de fato, vivencie um ritual de passagem para a nova etapa que irá viver em sua vida.

Diga não ao trote violento. Diga sim ao trote solidário e consciente. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A ARTE DE SABER ENVELHECER


Seja como for, iremos envelhecer. Seja quando for, envelhecer é sempre um presente. Estar vivo, do jeito que acontecer é sempre um privilégio. Estar vivo, sem sombra de dúvidas é maior presente que a vida pode nos oferecer. 

O interessante é que com o passar dos dias, o fardo da idade parece se tornar mais leve. É claro que você pode discordar dessa afirmação, mas é fato também, que a idade que você tenha você já consegue ver a vida de outra forma. Com outro olhar. Com outra perspectiva.

Mas eu penso que entender que a velhice não é um desprazer, seja o grande ponto de equilíbrio que nos faz conviver bem com esta fase da vida. É a chegada dos anos que nos ensina a aceitar os planos que não deram certo e a colocar outros no lugar de forma serena e leve, conservando sempre, o grande segredo de ser interessante para si mesmo. 

Estar velho é uma decorrência natural do ciclo da vida. Só quem morre cedo, perde o grande privilégio de ficar velho e morrer jovem é sempre uma grande tragédia. Mesmo jovens, planejamos chegar até os mais longos anos, de forma tranquila e segura. Embora vivamos cada dia como sendo um dia a menos, guardamos conosco o segredo de pensar na morte de vez em quando e quase sempre muito rápida e superficial. O homem é o único animal que sabe que vai morrer e por isso mesmo, nunca pensa nisso.

Mas, ficou por conta do grande poeta Adoniran Barbosa, falar um pouco sobre essa fase da vida. Ele diz: "Velho amigo não chore, pra que chorar por alguém te chamar de velho. Não decola, não esquente a cachola. Quando alguém lhe chamar de velho, sorria cantando assim: Sou velho e sou feliz, mais velho é quem me diz"  

Precisamos deixar de pensar que envelhecer é um pesadelo. Essa uma luta inútil e muitas vezes desastrosa pela juventude eterna precisa ser banida. Penso que ela apenas antecipa o inevitável. O medicamento mais indicado para uma velhice saudável deve estar pautado em comportamentos que podem fazer dessa uma das melhores fases da vida. Trocando em miúdos, estar velho é um estado de espírito. A angústia em não aceitá-lo é de todos o maior dos males. 


Seja jovem, seja velho, viva bem, viva feliz! 

domingo, 13 de julho de 2014

SOU DE UM TEMPO...

Sabe, eu sou de um tempo que ficou. E apesar desse tempo não ter ficado há muito, sinto que ele foi esquecido depressa demais. Percebo que ele foi consumido por fatos e atos rasos e supérfluos que foram "modernizando" os nossos dias. 

Sou de um tempo, onde as crianças andavam descalços, tomavam banho na chuva, faziam suas próprias pipas e seus carrinhos de rolimãs. O contato com a terra era diário e as brincadeiras eram de pique esconde, amarelinha, elástico é pique pega. Andávamos de bicicleta e esta era uma aquisição que nos envaidecia e nos diferenciava. Neste tempo, os filhos pediam benção aos pais e eles os abençoava. Era um tempo, onde os pais não iam presos por corrigir seus filhos.

No meu tempo, as crianças nasciam e as mães guardavam o resguardo, com canja de galinha, unguentos e chás. Os bebês usavam fraldas de pano e estas eram passadas de filho a filho ou para primos. Não haviam tantos partos de cesárea e as famílias era maiores. O mamar era prazeroso para o filho e as mães eram as que criavam e educavam sua prole. Na escola, chamávamos a professora de tia e esta fazia mesmo, o papel da mãe/tia.

Eu sou de um tempo, onde não haviam tantos apartamentos, onde as pessoas visitam as casas uma das outras ao anoitecer e umas cumprimentavam as outras quando se encontravam. Venho de um tempo, onde os vizinhos trocavam produtos de casa e dividiam aquilo que tinham para não ver o próximo passando necessidade. Eu sou do tempo que se vendiam ki-suco, conga, ki-chute, ki-bamba, baré e chiclete ping pong.

Eu sou de um tempo, onde as crianças e adolescentes trabalhavam e estudavam e pasmem: elas conseguiam. Nas escolas, estudávamos em cartilhas que eram aproveitadas no ano seguinte e olha que interessante: sabíamos cantar o hino nacional, o hino da bandeira e o hino da independência. E o mais chocante de tudo era que saíamos do ensino fundamental sabendo ler. Os filhos amavam e respeitavam os pais, como sendo estes seus únicos heróis. Neste tempo, as amizades se fortaleciam com brincadeiras, passeios, risadas e reuniões. 

Eu sou de um tempo, onde não tinha vídeo-game, não tinham tantos televisores e os que tinham, não tomavam o lugar da família. Neste tempo, as igrejas eram em menos quantidades e por conseguinte, eram de mais qualidade. As músicas desta época, era a junção gostosa de letra, melodia e voz. Ouvíamos falar em drogas e delas tínhamos medo. Quando tinha um velório, as pessoas iam e se solidarizavam com a dor de quem ficava. 

Neste tempo, haviam poucos telefones fixos e estes eram valiosos. Não existiam tantos celulares e dessa feito, falávamos, ouvíamos e tínhamos contato com as pessoas. Naquela época, contávamos as estrelas e procurávamos as que "andavam" na imensidão do céu escuro. Neste tempo a que me refiro, as pessoas não ficavam e em troca, buscavam um namoro sério e era motivo de orgulho dizer que ainda era virgem. Sou de um tempo, onde casamento era para um vida toda e não um serviço de ninguém.

Eu sou de um tempo, onde as pessoas escreviam cartas e guardavam. Sou de um tempo onde os fogões possuíam "asas" e em sua maioria eram vermelhos. Sou de um tempo, onde se encontravam alfaiate, engraxate e as músicas eram ouvidas em LP's e fita cassete. Quem tinha vídeo cassete e enceradeira era privilegiado. 

Sabe, eu sou de um tempo, que, onde se alimentava um, se alimentavam dez. Sou de um tempo, onde a palavra amor, amizade, respeito e compromisso tinham outro significado.  Sou de um tempo, onde era mais importante ser do que ter; era mais importante ter sentimento do que ter corpo; era mais importante ter valor do que ter preço. Não, não pense que sou velho. Eu apenas tive alguns privilégios que não existem mais.

E de que tempo você é? 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

PAÍS FULECO

Confesso que fiquei com vergonha, quando vi na mídia, que o nome do mascote da copa do mundo do Brasil, chama-se Fuleco. Pensei que tinha escutado mal, mas é isso mesmo: Fuleco. Minutos depois, fico sabendo, que essa escolha, foi decidida pelo povo, que escolheu o nome, entre mais opções, tão idiotas quanto este. A explicação para o nome, segundo a mídia, é que foi feita a junção de futebol com ecologia. Continuo com vergonha.

O resultado dessa escolha, ao meu ver, reflete dois fatos tristes, porém reais em nosso país. Primeiro, identifico o alto índice de ignorância do nosso povo. É notório o quanto a educação faz diferença na história de qualquer nação. Desconheço qualquer país, que tenha se desenvolvido e que não tenha a educação como principio de vida. A educação muda a história do povo. E logo, sendo este povo ignorante, torna-se fácil manipulá-lo. Torna-se alvo fácil para o pão e o circo.

O segundo ponto que vejo nessa escolha é que ele revela de fato uma realidade, uma triste realidade, posta a todos, sábios e tolos, ricos e pobres. De fato este é um país de fulecos. Acredito que quem votou (quem votou?), esqueceu de buscar o significado desta palavra, uma vez que ela não foi criada exclusivamente para a copa do mundo, como tenta dizer a mídia manipuladora. Mais uma vez, a ignorância vence.

Entre outros, a palavra fuleco é uma variação de fuleira, fuleragem entre outras variações. Esses termos são bem conhecidos no nordeste brasileiro e possui os seguintes significados: coisa ruim, de baixa qualidade, inferior, incapaz, duvidoso, tóba, rabo, anus, fiofó, rosca, roela, boga, cu, furreco, medíocre, descarado, fuleiro, ladrão, corrupto.... Nada mais natural para representar a nossa realidade. 

Nesse pais, a saúde é fuleca. Não há hospitais, vagas, ambulâncias, médicos, remédios, estrutura física, salários e por ai vai. Falta desde o garrote à maca. A educação também é fuleca. Não há escolas suficientes, o ensino é medíocre, o IDEB é falso, o MEC não funciona, as escolas são assaltadas todos os dias e as que sobram, não educam nem ensinam mais, os professores não são remunerados como deveriam e em sua maioria, a educação que existe, atende ao capital desenfreado no sistema fast food. A segurança não é diferente: também é fuleca. Não temos sistema penitenciário que resolva, não há vagas, há policiais de menos e bandidos de mais, a corrupção impera, as condições de trabalho são desumanas e o povo, em sua maioria, que é fuleca, paga o preço.

E o que dizer da política desse país? Como lidar com ela, onde a maioria absoluta é de fulecos, preocupados apenas com seu próprio interesse! Honestidade virou raridade e encontrar algum homem honesto que integre a política desse pais, torna-se uma atividade quase impossível. E a cultura? Em sua maioria é fuleca também. Ouvimos o que não presta, cantamos o que não sabemos o que é, e qualquer batida, torna-se primeiro lugar nas paradas de sucesso. Não há incentivo a leitura nem ao pensamento crítico, criativo, e assim, vamos sendo frutos de programas enlatados e manipuladores.

Mas é exatamente disso, que se faz um país de fulecos. É exatamente, essa massa que tem a capacidade de votar e eleger como mascote para uma copa do mundo - com um orçamento que não é fuleco - um tatu que tem por nome sua própria identidade. Cérebros de tatus! Assim se cria fulecos: pouca educação e muito futebol; muito circo e muito pão. E são esses, que farão de tudo, para pagar o ingresso do jogo, para poder ver a obra, fruto de sua ignorância e ainda poder dizer: tenho orgulho de ser brasileiro!

Me ponho a pensar e pergunto, do que se faz uma nação, não de fulecos, mais de cidadãos que criem seu próprio futuro, que pensem na sua formação educacional e que querem deixar para seus filhos, muito mais do que estádios e renda cidadão. Pergunto, como pode um pais, crescer e se desenvolver, com fulecos, desde os que votam até os que são eleitos. 



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

domingo, 24 de novembro de 2013

PESSOAS BAMBU

O Bambu é uma planta tropical, leve, que não necessita de reflorestamento constante. É bonita por fora, serve-se a muitas fabricações além de possuir uma rapidez incrível de crescimento e de aproveitamento de área no seu plantio. O bambu oferece uma sombra razoável e é divida em várias famílias. Acontece que o bambu é vazio por dentro. Ele é movido facilmente pelo vento, levado de um lado para o outro porque não possui nenhum peso por dentro, é oco.

Você conhece pessoas assim, pessoas bambus? São pessoas, que como diz o velho ditado popular, “por fora é bela viola mas por dentro é pão bolorento”. Não tem nada a oferecer em sua essência, em seu interior. São leves demais, superficiais demais e não tem muito a oferecer a não ser uma estética fabricada.

No que se refere ao lado profissional, são tão instáveis, tão inseguras e quase nunca se firmam no que querem ou provam para o que vieram. Não se profissionalizam, vivem de bicos, nunca sabemos ao certo o que fazem, nem onde estão. Não imprimem sua marca no que fazem. Não tem seu nome associado a algo que de fato fez diferença ou não associamos sua imagem a algo positivo. Sua vida profissional resume-se a promoção pessoal momentânea e não a segurança e futuro. O que elas fazem? Eu cansei!

No que se refere ao social continuam bambus, horizontais demais, volúveis. Resumem-se às baladas, às redes sociais, aos #chateado ou #balada. Não possuem verticalidade. Afinal o que tem para oferecer uma pessoa bambu? Há tanta necessidade mesmo de oferecer aos outros sua estética e o seu verde conceito de vida? Não possui opinião formada sobre quase nada e não conseguem formular uma frase e interpretá-la. No geral, confundem informação com inteligência e por conta do advento da internet, pensam que são formadores de opinião. Hoje, funkeiro ensina como educar filhos, modelos de personalidade duvidosa ensinam fidelidade e as novelas ensinam o modelo de família ideal. Cansei!

Suas amizades resumem-se a outros bambus. É assim mesmo, o bambu raramente nasce debaixo de árvores que não são de sua espécie. Resumem-se aos mesmos comportamentos, ideologias e visão de mundo. Estão muito mais ligados à embalagem do que ao conteúdo. Quem planta bambu no quintal, está mais preocupado com a sombra que ele trará e o barulho que será ouvido quando chegar o vento do que com seu valor de produção.

Notem que pessoas bambus não nos oferecem muito. Elas nos cansam rápido demais. Não convence. Não nos toma em sua essência e estar com elas teremos no máximo uma sombra, caso haja um sol maior por cima. Sabe quando preferimos ter o presente e não o presenteador. Então...

Mas o mais interessante, é que uma hora o bambu não resiste ao tempo. A árvore frondosa e verde vai se tornando amarela e seca, sem folhas, sem atração, sem cheiro, sem vida. É, o tempo passa, os anos vem e assim como o bambu, também vamos sofrendo o efeito das modas, dos tempos, dos vícios, das curtidas e dos comportamentos ocos e vazios. Na vida, o que sobre é o que somos e não o que temos. Pessoas bambus precisam entender que dignidade é medida por dentro e não pela estética. Precisam entender que o valor de uma árvore é medida pelo seu caule e não pelas folhas ou pela sua frondosa sombra. Afinal, o que é uma pessoa bambu?

E por fim, uma pergunta interessante: você conhece o fruto que o bambu oferece? Qual sua estação? Há flores em sua primavera ou há frutos em seu outono? Eu desconheço! 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

BOA NOITE MARILENE


Sentia-se mais caseiro e as vontades de sair com os amigos haviam diminuído bastante. Guardava em casa catalogados em pastas, todos os recortes de jornais a respeito do ultimo assassinato, ocorrido há 6 meses. Talvez por isso, preferia permanecer em casa, tendo apenas como rotina, ir de casa para o trabalho e suas leituras de ficção acompanhadas de muito café.

Naquela manhã ensolarada de maio, o outono de domingo fez com que ele acordasse disposto a ir à missa, coisa que não fazia há anos. Tomou banho, colocou sapatos pretos, camisa manga longa creme e calça jeans. Preferiu algo mais despojado. Durante a semana, considerava-se formal demais. Comeu um pedaço de pão adormecido molhando-o ao leite gelado e foi tomar ônibus. Era domingo e decidiu comungar.

A catedral da cidade lhe trazia um misto de recordações boas e más. Era lá que ele comia as hóstias que sobrava da missa, mas era lá também que sua mãe o obrigava a contar, rezando, as 150 bolas do terço. Repetições sempre o deixava mal. Contemplou de longe a porta da igreja, ouvindo os coros beneditinos e adentrou. Sentou-se no último banco. De lá, tinha uma visão privilegiada de todo o santuário

Sua atenção foi incomodada, pela jovem com uma aparência sóbria, séria, comprometida com a missa e que deveria ter 30 anos em seus cálculos. Cabelos encaracolados, despontados, negros e sedosos. Vestidos adornados e no dedos, nenhum anel. Nas mãos, um terço de metal amarelado, com bolas grandes e uma cruz dourada, exagerada no tamanho. Parecia pesado! Pensou que seria uma irmã, mas não tinha véu nem usava hábito. No terceiro domingo consecutivo, notou a presença dela, imóvel, no mesmo lugar e admitia-se numa posição tentadora.

Resolveu esperar pelo fim completo da liturgia. Ficou sentando, enquanto observava todos saírem, um a um, inclusive ela, com seu terço reluzente. Não suportou e aproximou-se no pátio da igreja. Apresentou-se, elogiou seu comportamento e disse que desde três semana atrás, aquela era a sua igreja. Por sua vez, Marilene, sorriu, timidamente agradeceu e depois de um tempo de conversa, revelou sua intenção em ser freira, e por isso mesmo, ainda era virgem. Ficou surpresa, quando descobriu que ele tinha sido coroinha daquela igreja, porém desistido de ser padre.

Almoçaram juntos a convite dele na sexta feira seguinte. Sorriram, conversaram e rezaram juntos por todo o mês seguinte. Por insistência dele, começaram a rezar todas as quintas feiras a noite, pois era o único dia que a igreja era fechada à visitação. 

Estava tentado a não ir naquela quinta. Sentia-se inquieto, talvez pelo excesso do café da noite anterior e sabia que não ia concentrar-se em suas orações. Mesmo atrasado foi. Chegando nos fundos, Marilene já rezava, de joelhos, como sempre o fazia. Reparou pela primeira vez que aquilo o excitou.

Tirou os sapatos, colocou luvas simples, e delicadamente entrou. De posse do terço, deu-lhe duas voltas no pescoço até ficar completamente desmaiada. Em seus braços, levou-a ao fundo da Igreja, com um pedaço de tecido, entupiu-lhe a boca até perder completamente a respiração. Certificou-se que estava morta e com paciência e um sorriso, colocou uma a uma as bolas do terço em sua vagina. Ao final, segurando na cruz, que balançava de fora, disse: "Boa noite Marilene".


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

domingo, 21 de julho de 2013

APRISIONADOS PELO PASSADO

E parece mesmo, que Albert Einstein tinha razão, quando disse que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente. E para algumas pessoas, essa frase tem um sentido muito maior. Elas vivem de todas as formas, regidas pro forças que há muito tempo já ficaram para trás. Elas são aprisionadas pelo passado.

A razão que nos faz ver além das formas eleva o pensamento humano e representa uma força superior à matéria. Cada um dentro do seu mundo estabelece as suas verdade e tenta, através delas, introduzir o seu elemento justificativo o qual pertence a uma ordem de ideias individual.

Coloco-me a pensar, sobre como deve ser a razão dessas pessoas, que deixam de viver o presente, para prender-se a um passado que por certo, não pode mais ser alterado. Não se pode esquecer, que esse passado possui verdades e virtudes, que já foram dissolvidos com o tempo e pelas oportunidades que surgem à todo instante em nossa volta.

Seja num amor que não se consumou ou no amor que se consumou mas não durou. Quem nunca teve um "amor" que deveria ter tido vida ou um "amor" que não deveria ter surgido? Quantos de nós, perdemos no passado algum valor que mesmo com os anos que virão, não os teremos de volta. Talvez seja uma dor moral, talvez seja um familiar, talvez seja uma conquista, quem sabe uma dor espiritual que necessite de perdão.

Sabemos que somos imersos em sentimentos e saudades que nos alteram a consciência, em valores que ressuscitam medos e descobertas. Mas o presente está ai! Ter tido a chance de viver um novo presente, significa caminhar adiante, significa fechar ciclos, significa resolver lacunas e claro, significa permitir-se de novo.

Conheço pessoas, que se libertaram desse passado e hoje, descobriram um novo momento de suas vidas. E é notório, o quanto estão mais felizes, mais autênticos, mais verdadeiros e seguro em suas demandas. A libertação de um passado amargo e sombrio gera em nós, mais saúde, mais risos, mais amigos e claro, uma autoestima sem igual. 

Não é exagero dizer, que as pessoas que convivem com o seu passado de forma saudável, até adoecem menos. Nosso corpo, responde a todas as nossas dores emocionais e grande parte delas, são eliminadas quando vamos nos libertando daquilo que nos aflige, e nos aflige há anos.

E você, já pensou o quanto tem mentido pra você mesmo sobre o seu passado? Já pensou o quanto tem dito que perdoou e esqueceu, quando na verdade engole diariamente  o fel de um passado que não passou? Já pensou o quanto poderia ser feliz com aquele novo amor, se acreditasse pra valer, que aquele que passou não é seu e não será mesmo? Já parou pra pensar, que muitas vezes, você poderia conviver melhor com isso que tem, ao invés de lamentar o que não tem e não vai ganhar?

Pense nisso. Liberte-se!

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...