segunda-feira, 25 de abril de 2016

ALMOÇA COMIGO.


Dia desses, fui ministrar uma aula no Interior durante o fim de semana. Após a aula, a caminho do restaurante, sol a pino, desço a pé, uma distância razoavelmente pequena, embora parecesse maior, dado o horário e a fome. Tinham me orientado a ir ao restaurante conhecido na cidade e com boas opções no cardápio.

Sempre que tenho oportunidade, gosto de me deixar surpreender pela realidade, para assim me inspirar a escrever. Na verdade é um dos motivos que faz com que eu adie o momento de escrever algo. Assim, observo, vejo e busco algo. O que quero é o cotidiano, o acidental, as pessoas, os fatos, a convivência, os detalhes simples. A vida diária sempre se torna pitoresca quando olhado sob tal perspectiva. São os flagrantes que me emocionam mais.

Ocorreu, que chegar na entrada do restaurante, ao pé de uma pequena escada, um cidadão, que andava atrás de mim, e que eu não notara, me aborda fazendo com que eu me volte e o veja. Estava descalço, cabelos e barba por fazer, precisava também de um bom banho e de trocar as roupas, que embora gastas, estavam em bom estado: camiseta de posto de gasolina e bermuda xadrez. Tinha uma certa dificuldade em falar, seja no tom das palavras, seja na pronuncia delas. Notava-se também, pequena dificuldade em andar, talvez pela deformidade no pé direito. Porém, me chamou a atenção.

Acanhado e olhando para o chão, me pediu desculpas pela investida e me pediu uma marmita. Disse que estava com muita fome. Fixei o olhar nele,perguntei-lhe se estava estava sozinho e se já tinha feito alguma refeição naquele dia. Para confirmar minha suspeita ele disse que não. Sem titubear disse-lhe então, que eu também estava sozinho e lhe daria a marmita, mas só se sentasse comigo à mesa. Então, ele olhou nos meus olhos e disse que não podia entrar, pois não era bem aceito, por não ser apropriado ao lugar.

O acidental sempre faz com que o essencial se perca. Retruquei e disse que se fosse meu convidado "eles" iriam aceitar. Sem mais nada para contar, ele aceita e entra comigo. Permito que ele se sirva primeiro, escolhendo ao seu modo o que gostaria de comer, sentindo o cheiro, vendo as cores de algo que talvez nunca tinha comido antes. Procurei uma mesa, onde nos sentamos frente a frente. O garçom nos aborda e pergunta o que tomaríamos e deixei que ele escolhesse e optou por uma coca cola gelada. 

Eu observava mais do que me alimentava. Na verdade, todos observavam e conversavam entre si sem entender muito o que estava acontecendo. Os garçons e demais funcionários falavam entre si e perguntavam quem eu era e porque fazia aquilo. As pessoas que estavam indo acertar no caixa, também indagava ao atendente o que era aquilo. Eles não me conheciam, mas conheciam meu convidado.

Com lágrimas nos olhos, ele disse que nunca tinha almoçado em um restaurante em toda a sua vida e que quando passava por ali, sentia muita vontade de entrar para ver o que acontecia lá dentro. Perguntei seu nome, disse o meu a ele, perguntou se podia repetir o prato e poucas palavras trocamos. Terminados fomos saindo, agradeceu, despediu-se e se foi. 

Quando eu estava acertando o valor devido, um cidadão que fazia sua refeição sozinho me abordou e disse que minha atitude foi bonita, louvável e que pra ele foi uma lição. Disse porém que não entendeu porque eu fizera aquilo. O que eu ganhara com tudo isso. Disse  a ele que algumas coisas na vida não precisam de uma explicação. O essencial não pode fugir dos olhos. 

Ah, em sua despedida e agradecimento, o Carlos disse que tinha sido um dia muito feliz na vida dele, por dois motivos: pelo banquete que ele ganhou e por eu fazê-lo lembrar que ele tinha um nome. Eu disse que na minha vida também, tinha sido um dia feliz.

Por fim, pedi um abraço. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 28 de março de 2016

CARTA PARA 2065

Sabe, não sei ao certo como chamar você. Não sei o seu sexo, não sei a sua cor, não sei como brilha seus olhos. Não sei o seu nome, nem a sua idade. Apenas sei que estás lendo esta carta, que resolvi escrever na páscoa de 2016, 50 anos antes deste momento. Saiba que estou feliz por ela ter chegado até você. Leia bem devagar e dispense um momento dos seus afazeres para apreciar este presente.

Quero dizer a você que nunca vamos nos conhecer. Nunca! Nem por fotografias ou redes sociais. Mesmo com toda a tecnologia que já havia no meu tempo e muito mais avançada no seu tempo, não fará esse encontro. Você veio de um sêmen congelado há 76 anos atrás. Não se lamente ou se frustre. Essa prática estava ficando comum na época. Portanto, você também não saberá a cor da minha pele, a altura e o peso que coube a mim, a cor dos meus cabelos e nem conhecerá a minha forma de sorrir amiudando os olhos.

Há 50 anos antes, este mundo era bem diferente, mas já haviam as frustrações, os medos, as incertezas, as paixões mal resolvidas. Hoje, é preciso acordar cedo, batalhar, estudar, construir a estrada para um futuro melhor. Se proteger, desconfiar das pessoas e andar sobressaltado e em alerta. Nos seus dias, penso que o homem deve estar pisando na lua sempre, em marte e porque não em Júpiter. Imagino que os carros estão mais velozes, que as pessoas estejam mais frias, os rios mais poluídos e quase todos usam drogas.

Porém, há 50 anos também já haviam pessoas honestas, boas, sinceras... a palavra amigo já havia sido inventada, a palavra família também e já havíamos aprendido a sorrir. Penso que em 2065 isso ainda exista. Ame sua família e conte suas bênçãos a ela. Deixe para trás a dor que o dia a dia irá te causar e nunca deixe de sonhar. Era o que eu fazia muito. Todas as grandes realizações foram alcançadas através do trabalho e da espera e muito mais porque alguém sonhou. Portanto, peço-te que cultive a paciência. Por favor, não culpe as pessoas pelas condições em que você se encontrará determinadas vezes. Lembre-se que os fracassos e as vitórias serão fruto do seu trabalho e das suas escolhas.

Quero muito que você tenha uma condição financeira estável para viver melhor. Sim há 50 anos atrás o dinheiro já fazia a divisão de classes. Não sei o país em que você mora, nem imagino como deve ser a família de sua mãe, mas se necessário for, aprenda a conviver com a pobreza honesta e dedique-se a coisas bem mais importantes do que levar ouro e fama para a sua sepultura. E outra coisa que quero te dizer: Por certo eu já morri e imagino que já tenham dito que você também irá morrer. Portanto, não faça nada pela metade e não alimente a ansiedade pelo dia de amanhã, pois nunca sabemos se vamos terminar este. Mas jamais descuide de sua saúde. Ela e somente ela é que nos leva ao caminho da felicidade. Lembre-se de que é necessário muito pouco para uma vida feliz.

Sempre aprenda com os outros que estão à sua volta. Não leve a vida com arrogância pois aquele que ensina a si mesmo tem um sério risco de ter um tolo como professor. Sempre que encontrar em si mesmo algo que o encha de orgulho, examine atentamente e vai descobrir mais do que o suficiente para ficar humilde. É provável que nos seus dias essa qualidade tenha se tornado rara. Nos meus dias também.

E por fim, há um sentimento que talvez você está sentindo ao ler esta carta. É exatamente o que estou sentindo agora. Esse sentimento chama saudade. Com sua magia, a saudade nos faz senti-la por pessoas e lugares que não conhecemos. Não quero que a partir de agora, fique procurando nas pessoas o meu rosto. Não há necessidade. Mas quero que sinta e cultive o doce sabor do poder da saudade. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 22 de março de 2016

LIBERDADE


Há tanto do que se libertar e é tao importante se libertar, que a liberdade passa a ser um bem mais importante do que a vida. Constantemente as pessoas arriscam a vida, para ter alguns minutos de liberdade. Nesse momento, a vida passa a ser pequena tamanha a sensação de sentir-se livre. Morrer frente à liberdade, parece ser insignificante. A liberdade conecta ou nos desconecta com as leias e com a realidade? Estar livre é viver fora das normas da lei?

Foi a grande filósofa escritora francesa, Simone de Beauvoir (1908 -1986) que em sábias palavras traduziu o poder da liberdade: "Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria subsistência, já que viver é ser livre". Em outro momento, o poeta escritor português Fernando Pessoa (1888 - 1935 ) nos coloca em cheque quando diz que "a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é possível viver só, nasceste escravo". Que dura sentença.

Mas a verdade é que quase sempre não pensamos naquilo que de fato nos prende e que também não pensamos no que devemos fazer para ser livres. A liberdade parece ser utópica, uma vez que é passiva de questionamento sobre o que é liberdade ou o que nos faz sentir livres. Sempre nos queixamos que não nos sentimos livres, mas nunca nos queixamos daquilo nos aprisiona. Já parou para pensar do que você precisa se libertar?

Há que se libertar da língua que fera e dos comportamentos que aprisionam. Há que se libertar da angústia cruel e da maldade que desola e assola a alma. É possível se libertar da dependência de outros e dos outros que dependemos tantos. Necessário se faz, que sejamos libertos da piedade dos demais e da frieza dos que nos rodeiam.

Que a liberdade empurre pra longe o coração frio, o abraço sem vida, o sorriso sem alegria e o arco ires sem cores. Que ela nos livre do beijo traidor e do toque sem alento. Que possamos ter a ousadia de escolher o que nos faz bem e não somente o que nos dá status.

Libertemo-nos do cansaço que definha, da dor que escraviza, da ilusão que nos engana e da mentira leve que sempre nos confunde. Liberdade dos amigos insensatos e dos namoros comprados. Liberdade do emprego adoecedor e das migalhas que nos engorda dia a dia. Que a liberdade nos afaste do orgulho que nos torna indiferente e da mágoa que nos deprime e arranca nossas lágrimas.

Que a liberdade se achegue e afaste as manias que nos condicionam aos amores que não se prendem a nós. Que possamos aprender mesmo a deixar livre o que amamos e que possamos nos sentir livre, mesmo quando estamos amando alguém. Amar e ser livre é possível? Qual a conta exata dessa equação?

Que o poder da liberdade traga para perto de nós, a capacidade de dizer não, quando de fato queríamos dizer não e que o sim nunca seja dito sob os constrangimentos da prisão. Que a liberdade entregue em nossas mãos, a capacidade de escolher a roupa, o sapato, o cabelo... sem a necessidade de estar preso ao  que dizem ou ao que determinam. Que somente a liberdade nos permita ter o corpo que temos, do jeito que somos sem a necessidade de ter o corpo que o outro determina.

Que com o tempo, a liberdade nos ensine que escolha tem a ver ela própria e que ela mesma nos ensine a fazê-la de forma tranquila e sem prisões.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

QUANTO CUSTA O SEU AMOR?


É interessante pensar, a quantidade de tempo e energia que passamos analisando e julgando a vida das pessoas. Me refiro ao tipo de relação amorosa que elas levam, sejam namoro, casamento, relacionamento extra conjugal, relacionamento aberto, etc. Pra ser mais preciso, analisamos se é hétero, se é gay, se é bi, se é novo, se é feio, se é rico, se é compatível, se é verdadeiro, se é por interesse... e no fim, quase sempre queremos descobrir (como se necessário fosse) se de fato é amor.  

Por outro lado, raramente gastamos tempo e energia para analisar o tipo de relação que mantemos ou a que tipo de relação nos prestamos. Quase nunca perguntamos a nós mesmos, que tipo de amor estamos construindo ou que tipo de relação fazemos para ter do lado, alguém que durma conosco, nos beije, que faça um sexo bom, que dê atenção e porque não para chamarmos de "meu". Ou ainda, porque nunca fazemos a nós mesmos, a seguinte pergunta: Quanto custa o nosso amor?

Talvez você ainda não percebeu, mas por conta dessa relação, você ganhou peso, perdeu alguns valores, adquiriu alguns hábitos ruins e aquilo que você abominava passou a defender. Até confessa, que nem você próprio se conhece. Passou a usar drogas, afastou dos seus melhores amigos e de sua família, criou um mundo paralelo e deixou de ser você. Se pergunte: Vale a pena?

Não tem notado, que passou a ser controlado, prisioneiro de si mesmo, sufocado, chantageado e muito mais inseguro. É passado pra trás sempre que pensa que está na frente. Mas você ainda pensa que ser feliz é estar acompanhado. Seus novos amigos não foi você quem escolheu e os lugares que você frequenta não é você quem escolhe. As músicas que você gostava de escutar, já não escuta mais. A sua autoestima há muito tempo está no lixo. Aquilo que você chamava de dignidade hoje tem o nome de status. É uma pena que pense que isso é amor. 

Tudo bem que o jantar você não paga ou quando paga é somente a metade. Anda de carro bom, usa óculos de altas cifras, os perfumes são os melhores e suas roupas são as mais desejadas, viaja sempre que quer e provavelmente publica tudo isso em redes sociais. Sim, o que há de mal nisso? Isso é ótimo. Mas você nem notou, mas aprendeu nesta relação, que ser romântico é dar e receber presentes. Presentes caros. Em troca a tudo isso, a exploração dos seus sentimentos se vai. Sim, elas se cicatrizam mas deixam marcas que nem o tempo apaga. Afinal, se pergunte: Quanto custa o meu amor? 

Você não tem notado, mas você está muito diferente. Suas palavras e os seus gestos não são mais os mesmos. Sua agressão é outra e sua forma de ver o mundo também mudou. Agora tem ataques de ciúmes, usa de sua possessividade e tem um medo grandioso de perder o troféu que você tem chamado relacionamento. Cabe repensar o que é de fato romantismo e mais do que isso, quais são os comportamentos que ele desencadeia. A relação que você alimenta é a relação do "que temos" ou a relação do "que somos?" Tem parcelado o seu amor? Qual é o peso/preço de suas parcelas? 

É claro que é mais fácil analisar o amor dos outros. A diferença é que o preço da relação dos outros não é definitivamente nós que pagamos. O peso que uma relação carrega, é sobretudo o peso de cada um. A permissão que cada um determina ter, é o presente que elimina a solidão, afinal para muitos, e melhor estar mal acompanhado do que só.

Então, combinemos que, antes de olhar o outro e perguntar: "Que relação é esta?", vamos nos perguntando todo dia: "Que relação eu tenho?"


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

AS METAS PARA O ANO NOVO


É sempre no fim do ano, que as pessoas param - ou pelo menos deveriam parar - para fazer uma reflexão sobre o ano que se finda ao mesmo tempo quem que fazem os planos para o ano que se inicia. Mas e se a vida, fosse uma espécie de cola e copia? Se tivéssemos a possibilidade de copiar o ano que termina e colar no ano que começa, faríamos isso, sem nenhuma edição? Iríamos renomear alguns acontecimentos ou deleta-los? E o que queríamos duplicar? 

O certo é, que no ano que se inicia, irão acontecer dois fatos que são inevitáveis. O primeiro deles, são os fatos que temos certeza que vão acontecer. Do outro lado, estão os fatos que não sabemos se vão acontecer, estão no campo do talvez, do quem sabe... São incertos!

Neste novo ano, é certeza que vamos envelhecer um pouco. Sim é inevitável algumas rugas, algumas marcas, alguns sinais... quem disse que isso é ruim? Iremos aprender muito, seja com nossas próprias experiências ou pelas experiências dos outros. Sem duvidas, vamos errar, e por incrível que pareça com os mesmo erros. Que eles nos sirvam para engrandecer. É claro que vamos nos frustar, mas vamos também nos surpreender. Pode ser que façamos uma excelente viagem, mas pode ser que fiquemos em casa, trancados.

Quem sabe vamos encontrar um amor, mesmo seja apenas por alguns meses do ano. Quem sabe não vamos encontrar e o ano inteiro passaremos desacompanhados. Quem sabe, iremos nos decepcionar com alguns amigos, mas quem sabe iremos também encontrar bons amigos pelo caminho. Talvez alguns de nós que estamos lendo esse texto, iremos morrer, mas também podemos estar lendo de novo no fim do próximo ano. Quem sabe, um de nossos queridos nos deixe, e isso irá doer muito, mas poderemos juntos, comemorar tudo de novo.

É certo que iremos sorrir muito e claro poderemos também chorar. Chorar pela perda do emprego talvez; sorrir por um emprego novo. Quem sabe será o ano do seu casamento e de uma grande mudança, mas quem sabe não será o ano de sua separação e também o início de uma nova vida. Certeza que queremos muita saúde a nós e nossos familiares e amigos, porém, poderemos adoecer junto ou sofrer com a doença de outro.

Já parou pra pensar que muitos fatos que aconteceram este ano, não estavam no nosso planejamento. Alguns foram maravilhosos, outros nem tanto. Uns poderiam ter sido evitados por nós mesmos, outros nos pegaram de surpresa. Vamos deixar que tudo se repita novamente?

Mas que tal se neste ano, a gente começar a evitar muitos acontecimentos que não nos acrescentará em nada. Que só vai nos causar dor e tristeza? Que tal começar a estudar, parar de fumar, ler um bom livro, fazer atividade física, selecionar as suas amizades, ir mais ao médico, evitar fofocas, ser mais educado, sorrir mais, afastar-se da ganância e da falsidade, ajudar alguém, usar mais camisinha, pagar um plano de saúde, tratar o mal hálito, deixar de ser objeto nas mãos de outros, ser mais humilde, comer melhor, dormir melhor, crescer de alguma forma, jogar fora o que não serve mais, doar o que não se usa, separar o lixo, perdoar o passado, desenvolver uma habilidade...

São tantas as atividades simples que mudam muito. Basta querer.  

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

sábado, 17 de outubro de 2015

A COZINHA


Sem dúvidas a cozinha é a parte mais aconchegante de uma casa. Se analisarmos bem, os melhores momentos que temos no dia dentro de casa acontece dentro da cozinha. Não raros, somos pegos lembrando de momentos de nossa infância que aconteceram dentro dela, junto com a família e amigos. Ao se chegar em casa, éramos sempre levados a ir para a cozinha.

É da cozinha que vem os cheiros e aromas que nos perseguem por toda a vida. Quando o dia amanhece, é de lá que surgem as primeiras vozes e os primeiros sons que nos acordam. O cheiro do café fresquinho também vem de lá. Sobre a mesa, sempre havia uma garrafa de café, com xícaras e copos, ao alcance de todos. A cozinha exerceu por muito tempo o papel de unir e de transmitir afeto.

Quando entramos em casa, cansados, exaustos, é pra cozinha que quase sempre nos dirigimos, em busca sempre de algo para nos envolver, seja comendo, seja bebendo. Como provedor de nossas necessidades, o fogão ocupava um lugar estratégico na cozinha, fosse a gás ou fosse a lenha, afinal, como um objeto sagrado, era o nosso principal utensílio. Em tempos passados, as casas não tinham aparelho de microondas, fornos, exaustores, máquinas elétricas entre outros. As cozinhas eras amplas e geralmente na mesa era onde fazíamos todas as refeições juntamente com aqueles que dividem conosco o dia a dia. Era este raro momento que tínhamos a oportunidade de sentar, ouvir, conversar, olhar nos olhos, comungar o pão... e isso ocorria dentro da cozinha. As refeições eram feitas, quando todos estavam à mesa e cada um em seus devidos lugares.

Mas os tempos mudaram. Como mudaram. Veio a arquitetura moderna e contemporânea, as necessidades foram se construindo, as pessoas foram se coisificando e o desenvolvimento foi forçando a mudança da cozinha dentro de nossa casa. Ela tem deixado de exercer o papel colocado a ela desde os tempos antigos. Os apartamentos e casas modernas, tem feito com que ela quase desaparecesse. Cada vez menor, ela quase tem sido desnecessária dentro de casa. 

As pessoas raramente visitam a cozinha; não sentam mais à mesa, não comungam e não se confraternizam nela. A sala e os quartos, tem exercido um papel mais importante. Isolada em um pequeno espaço, a cozinha permanece tímida, solitária e em vez de mesas temos balcões. Em vez de cadeiras, permanecemos de pé e o cheiro e os aromas produzidos lá, são substituídos por latas e saquinhos feitos por industrias

A correria dos tempos modernos, faz com as pessoas se afastem da cozinha. Nos finais de semana, as famílias buscam fazer suas refeições fora de casa, e ir para a cozinha no final de semana, é sinônimo de acumular mais cansaço além do já adquirido durante a semana. Acontecendo isso, o prazer, as descobertas e os rituais que seriam praticados dentro da cozinha se perdem e são trocados por outros prazeres, em especial os eletrônicos. Há quem diga, que mais gostos do que comer na cozinha, é estar nela com os amigos preparando aquilo que se vai comer. Não é o final, é o processo!

Talvez por isso, que estejamos mais frios, mais distantes, menos emotivos, mais depressivos, mais egoístas... menos na cozinha. Se antes comíamos juntos na mesa, hoje, fazemos um lanche rápido falando ao celular. Se conseguimos nos alimentar em casa, geralmente é cada um na sua individualidade, no sofá, no quarto, em frente o televisor, com os fones de ouvido. A correria faz com que não saboreamos o tempero, o cheiro, a alquimia... não fazemos elogios até porque não sabemos quem fez. Não agradecemos pelo alimento porque não tempo para isso. Não vamos à cozinha, porque cozinha é lugar de “Amélia”.

Alguns valores que perdemos, que parecem simples, levam junto outros valores que fazem falta na nossa construção como humanos. Talvez seja necessário voltarmos à cozinha sempre. Talvez seja preciso estar na cozinha com mais frequência, para sorrir, ouvir, comer, sentir seus cheiros, cores e sabores.

Já pensou qual é o papel da cozinha dentro da sua casa? Pense nisso!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A MORTE


E aí de repente a gente morre. Simples assim. Do nada! Sem fazer um aviso formal, ela vem, sem receios e nos leva. Pode ser de dia ou de noite, com chuva ou com sol, no calor ou no frio, cedo ou a tarde... com ela não tem acordo. Você deve conhecer alguém que já morreu e não avisou antes. Muita ingratidão. Mas você deve também conhecer muito mais pessoas que vão morrer e que da mesma forma será: não avisarão antes!

E de fato não sabemos como será. Penso que ninguém soube com antecedência como seria sua morte. Talvez até por um segundo pensamos como ela deve ser e que tipo de festa deve acontecer, mas nada como detalhar o dia que ela vem. Quem sabe será em um acidente automobilístico, na água, num assalto, dormindo, correndo, talvez quem sabe num voo, com amigos, com desconhecidos ou será só? Será se vai ser um um hospital, num leito, a conta gotas, ou de repente? Ou será suicídio diário? Porque não uma bala perdida? Mas pode ser serena e calma, ao lado da família, com alguém segurando a nossa mão esquerda, com os anos avançados. E tenha certeza: ela nunca vem na hora certa. 

Parece um processo injusto. Sem ao menos nos dar um tempo para resolver umas questões, ela vem e nos leva, sem volta, sem erro. Eram tantos e-mails pra ler, viagens a fazer, estudos, trabalhos a ser entregues, a casa a ser limpa, o aniversário a ser feito, a conta de água que ia ser paga, o carro que ia ser lavado no fim de semana, o amigo que ficamos de visitar, a mousse a ser elaborada no feriado e até mesmo o beijo que não foi dado. Os planos do casamento, da gravidez, do nascimento do filho, a compra da casa própria e a vida melhor que queríamos tanto.

Daquele momento em diante, somos tratados como um corpo. Até nosso nome é esquecido. Nu, sozinho, frio, gelado, sem cor, olhos cerrados, boca aberta quem sabe, lá estamos nós, esperando por alguém que nos olhe e nos cubra, pelo menos. Toda timidez some. Ninguém nos sorri, ninguém conta uma piada. Por certo nos apalpam, beijam, falam baixo e lamentam. As notícias continuam correndo, como se morrer fosse um espetáculo, onde quanto mais platéia, melhor. Irão repetir como foi a morte, dezenas, centenas de vezes.

A partir daí nos tratam com lágrimas, carinho e piedade. Visitas veem de longe para nos ver. Pessoas que nunca nos visitaram aparecem, abraçam os nossos, choram e até postam os pesares na redes sociais. A família, paga uma funerária para nos limparem e deixar mais um pouco sobre a terra. Nos colocam em um caixão caro, onde quase sempre a família faz força para pagar. Colocam uma roupa que nunca usamos antes, sem nos perguntar se gostamos da cor e procuram um bom túmulo, um horário bacana para o enterro e até atrasam a espera de uns e de outros. Algumas coroas de flores chegam com frases prontas, além daquelas que já nos cobriram. 

É muita bobagem num dia só! Já pensou nisso!?

A impressão é que damos mais valor a morte do que a vida. Estranho isso. Nunca temos tempo para os amigos, família... nunca viajamos e nem estudamos porque não temos tempo. Nunca mandamos flores porque não somos românticos. Raramente elogiamos e direcionamos palavras de conforto e carinho às pessoas que estão à nossa volta. A saúde quase sempre é esquecida e as relações que nos mantem vivos não são alimentadas. Gastamos na morte, o que evitamos gastar na vida. Ela foi curta e além de tudo, ainda foi pequena. Que ironia. 

Corremos dia e a noite, usamos nossa ambição para ter muito. Atropelamos o processo, o tempo, as pessoas, o amor.... pra que? Pra nada! A morte chega e nos iguala. O fato inevitável da vida, vem e sem escolha, nos torna justos e iguais como deveríamos ter sido em vida. O que muda é apenas a posição na fila. Mas a senha de cada um de nós irá chegar. Que privilégio não? 

Devemos observar que o que não foi feito na vida, não adianta mais fazer na morte. Nunca visitou alguém que você gosta? Não precisar ir no velório. Não disse que o amava? Poupe-se de abraçar o caixão no cemitério. Não deu uma flor que seja, em vida? Não gaste seu dinheiro com uma coroa para ser levada ao funeral. Falava mal e difamava durante a vida? Não gaste suas lágrimas no enterro. Lembre-se que, provavelmente, quanto maior for o choro, maior é o remorso. 

Pensemos nisso. Pensemos no valor da vida. Pensemos de que forma queremos o nosso velório. Pensemos de que forma queremos ser lembrados por aqueles que vão depois de nós. Pague suas dívidas em vida. Pode ser que dê tempo...

Porém antes de tudo, pense em que tipo de vida está levando. Lembre-se que o espetáculo maior é a vida. O que deveria ser feito na morte, faça antes, em vida. 

E ainda pense: O que nos separa uns dos outros não é a morte: É a vida!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...