quarta-feira, 1 de julho de 2020

COM O TEMPO VAMOS PERCEBENDO QUE TODO JULGAMENTO É UMA CONFISSÃO




É no julgamento que temos a oportunidade de apontarmos nos outros, os nossos pontos fracos. Como todos nós temos algo a esconder, todos nós temos também a necessidade de julgar. Saber a razão por que estamos sempre apontando o dedo para o outro é descobrir como relacionamos com o nosso próprio ego.

Umas das maneiras de saber sobre esta relação é começar a prestar atenção na maneira como lidamos com os erros dos outros. Quando não temos consciência de quem somos de verdade, temos a urgente necessidade de nos sentirmos melhores que os outros, como se expressar a nossa rejeição diante de determinadas atitudes, fosse uma obrigação. Não é!

Nunca devemos esquecer que o julgamento sempre fala mais sobre quem julga do que sobre aquele que está sendo julgado. Sentir-se no direito de julgar alguém é sempre se colocar na posição de sentir-se melhor que o outro e isso, alimenta o nosso ego, fazendo com que fiquemos insuportáveis nas nossas relações.

Estar nessa condição faz com que enxerguemos as pessoas não como elas de fato são, mas sim como nós somos, isso porque, tudo o que falamos do outro é na verdade a tentativa de esconder aquilo que de certa forma é vergonhoso em nós. O outro tem o papel de ser o espelho que vai refletir aquilo que não queremos ver em nós mesmos. Não é fácil admitir, mas todo julgamento acaba sendo uma confissão.

Quando resolvemos em nós, aquilo que nos incomoda no outro, quer dizer que aquilo que não está ainda resolvido no outro, não nos incomoda mais. Significa dizer, que quando criticamos o peso de alguém, revelamos que não estamos bem com o nosso. Isso se aplica para os seus relacionamentos, sua sexualidade, sua religião, sua carreira e sua família.

Pessoas bem resolvidas, são resolvidas porque cuidaram de suas vidas ao invés de perder tempo julgando a vida dos outros. Acreditar que somos superiores, especiais e blindados pode nos dar a falsa permissão para julgar as pessoas e isso, além ser cruel é sinal de ignorância.

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

BOA NOITE JULIANA



Haviam três meses da sua transferência de posto no órgão público em que trabalhava. Inevitavelmente foi preciso mudar sua rota para ir ao trabalho e isso de certa forma lhe trazia mais prazer do que desconforto. Embora não ficasse muito distante, Mário preferia ir mais de carro do que de Metrô. Gostava de praticidade e acreditava que o carro lhe oferecia.

A mídia já não falava mais sobre os últimos assassinatos de mulheres e ficou menos preocupado quando o delegado disse em entrevista que não haviam relações entre os crimes, não sendo portanto, crimes cometidos por um serial killer. Para sentir-se mais confortável, preferiu mudar de apartamento, trocou de academia e passou cada vez mais a ir em supermercados diferentes.

Sentia que sempre que olhava os recortes de jornais sobre os crimes cometidos, era tomado por uma sensação de poder e grandeza sem iguais. Embora soubesse que era tímido e de poucos amigos, era nesse momento que se sentia envaidecido. Era tão prazeroso rever tudo isso, que em forma de ritual, sempre bebia algo e brindava a si mesmo.  

Aproveitando o novo caminho, parou para visitar um sebo de livros o que fazia com certa frequência no trajeto anterior. Encontrou em uma dessas livrarias, uma grande coleção de livros infantis e como esse era seu gênero literário favorito, sentiu-se em casa. Em poucos dias passou a ser familiar e sempre passava ali em busca de novos títulos.

Na mesma rota, parava sempre na esquina do bosque onde se via pessoas caminhando, vendendo objetos, fazendo atividades físicas ou passeando com seus pet’s e isso o distraía enquanto o farol de trânsito ficava verde. No final do dia sempre era mais divertido e algumas vezes, também parava ali tomar água de coco.

A vendedora de frutas sempre o abordava e quando não comprava nenhuma mercadoria, entregava a ela chicletes, balas ou até mesmo chocolates. Essa rotina já fazia parte do seu cotidiano, que era comum diminuir a velocidade do veículo afim de pegar o farol fechado na esquina do bosque, aproveitando a sombra e o sorriso da vendedora.

Apostando no vínculo criado com a moça, resolveu pedir o número do seu telefone com a intenção de encomendar frutas frescas, em especial maçãs. Segundo ele, gostava de ler suas histórias enquanto as comia. As verdes, geladas, eram as suas preferidas. No final de semana esteve no bosque, mas não encontrou a vendedora. Fazer caminhadas não era uma atividade que o seduzia, mas aproveitou a oportunidade para dar uma volta no bosque e conhece-lo melhor. Embora frustrado decidiu procurá-la na semana seguinte.

Conforme planejado, na semana seguinte passou lhe a primeira mensagem, apresentou-se a ela e disse que era o rapaz do carro cinza. Mandou uma foto, pediu uma dela, confidenciaram suas idades, que estavam solteiros, que moravam sozinhos, falaram do seus trabalhos, sorriram e ele salvou o número dela no seu celular. Trocaram mais algumas palavras, acertaram os valores e marcaram o dia de pegar as frutas encomendadas.

Não sabia exatamente, mas fez isso por cinco ou seis semanas seguidas. Mesmo não comprando frutas todos os dias, se viam no transito, trocavam sorrisos e mensagens. Em um dos finais de semana, pediu a ela que fossem a um parque do outro lado da cidade para se verem e andar de patins. Embora ela dissesse que não conseguia andar, ele insistiu que ensinaria ela, além de pagar a locação. Tomaram água de coco, sorriram e ele a deixou em casa.

Na quarta-feira seguinte, saiu do trabalho uma hora mais cedo, passou na padaria mais perto e comprou um pedaço de torta de chocolate. Passou pelo bosque e como de costume ela veio ao seu carro. Sorriram e ao entregar a torta disse que era para adoçar a sua noite após o jantar. De boné para se proteger do sol, agradeceu constrangida. O sinal abriu e eles se despediram.

No dia seguinte, passando pelo mesmo trajeto, ele não a viu. Na segunda feira, 5 dias depois, parado na esquina do bosque, escutou pelo rádio que vizinhos acionaram a polícia, que encontrou uma moça morta dentro de casa. Do lado, um recipiente de isopor com uma fita vermelha por fora e resto de torta de chocolate por dentro, com a frase escrita ao fundo: “Boa Noite Juliana.”

O sinal abriu. Sorrindo, engatou a primeira marcha e seguiu.



Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

CARÊNCIA DEMAIS INCOMODA



É triste quando as pessoas pensam que não tem nenhuma importância para ninguém. Requer tratar isso. Mas é complicado conviver com pessoas que pensam exatamente o oposto. Também requer tratamento.

Pessoas assim são dodói demais e se magoam com tudo que acontece e pensam que os outros tem a obrigação de atender as suas expectativas. Entenda: o mundo não gira em torno de você. O seu umbigo não é o centro do planeta, da mesma forma, que o mundo não está o tempo todo apontando para você. As pessoas se envolvem com outros afazeres e nem sempre está ao seu serviço.

Compreender isso traz um alívio imenso para as relações. Sim, embora pareça cruel, o mundo não vai parar para atender os seus desejos e as suas vontades e a você, cabe escolher se vai ficar ressentido e melindrado, complicando ainda mais as relações à sua volta.

Seus filhos podem não ser o que você esperava; seu casamento pode ser exatamente o oposto do que você sonhou; a empresa que você trabalha pode te demitir e algumas pessoas só estarão por perto enquanto você tiver algo para oferecer. Sim, as pessoas tomam decisões sem pensar em você, ainda que isso te machuque.

Lembre-se que situações desagradáveis acontecem com todas as pessoas. Elas possuem dores, porque já foram esquecidas; foram dispensadas do trabalho; fizeram luto; receberam um fora; se desapontaram e inúmeras vezes perderam. Acontece que tem pessoas que valorizam demais esses acontecidos e fica insuportável estar do lado delas.

Os acontecimentos da vida ainda poderão te magoar e não é que eles te perseguem. Viver requer atitude e determinação. Não pensar nisso é imaginar que estamos acima de tudo e de todos. Portanto, aprenda a lidar com a dor e com o vazio de não ter e de não ser o centro. A frustração te ajuda a se tornar mais forte e emocionalmente mais preparado. Aprender com isso é uma opção. Ficar se lamentando também. 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 28 de abril de 2020

NÃO COBRE DO SEU PARCEIRO O AMOR QUE NÃO TE DERAM NA INFÂNCIA.




A maneira como somos amados na infância é fundamental para determinar a maneira como lidaremos com os nossos “amores” pelo resto das nossas vidas.

Em outras palavras, a criança precisa sentir-se amada, para assim, aprender a empatia desde cedo, para aprender a conhecer o seu amor próprio. É o afeto que recebemos na infância, que vai ser o termômetro para as relações adultas, ou seja, não desenvolvendo uma carência excessiva e patológica, nem, por outro lado, vendendo a imagem que somos imunes aos afetos comuns nas nossas relações.

É com as figuras maternas e paternas que vamos aprendendo a aprender o amor. Quando vamos crescendo, vamos encontrando dificuldades em ser amado e em amar, da mesma maneira que vamos encontrando dificuldades em eleger para quem vamos direcionar essa energia de cuidado e de querer bem.

Portanto, é fundamental que consigamos ir identificando essas lacunas deixadas na infância para que elas não atrapalhem a maneira como nos vemos e como nos cuidamos. Quando não temos essa consciência, colocamos no outro a obrigação de nos dar os sentimentos que não deram lá atrás.

O perigo reside quando não temos o discernimento de quem somos, e por isso, acreditamos que necessitamos excessivamente do reconhecimento, da valorização e do amor do nosso par, ou o contrário disso, quando acreditamos piamente que não precisamos do afeto de ninguém. Agindo assim, estamos tentando suprir e compensar a falta do amor e do afeto que nos faltaram na infância.

Então, carência demais pode nos levar a uma busca desgovernada por um “amor” só para suprir o nosso vazio, bem como, se imunizar aos afetos e às emoções, pode nos auto sabotar afastando a possibilidade de vínculos e afetos. Observe que o seu amor-próprio relaciona-se com o seu jeito de amar.

Não é importante apenas o amor que damos aos outros, mas sobretudo o amor que damos a nós mesmos.


Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

domingo, 8 de março de 2020

AS FRÁGEIS RELAÇÕES DO EXCESSIVO CULTO "AO EU".



Não é raro se ouvir: “É que eu tenho um gênio muito forte” e isso vai justificando a dificuldade que se tem cada vez mais de conviver em sociedade. 

Com frases desse tipo, você já deve ter visto comportamentos de baixa tolerância com a opinião de outros e da exigência que algumas pessoas fazem de sempre prevalecer as suas opiniões, interesses e pensamentos. Isso expressa o tamanho da arrogância que determinadas pessoas possuem, fazendo com que elas não se preocupem com o bem estar do outro, acreditando que a sua existência ali, é absolutamente necessária e encantadora.

Você já deve ter notado, que que a convivência com pessoas que pensam diferente de nós, tem sido uma tarefa difícil e que tem exigido um maior trato e habilidade, para que as relações não se tornem insuportáveis. A necessidade de auto promoção tem levado um bom número de pessoas a criarem bolhas em volta de si, permitindo acesso a elas, apenas aqueles que comungam dos mesmos propósitos. 

Por sua vez, as bolhas incentivam os comportamentos egoístas, negando a existência de que existem outros mundos fora da bolha criada. Conviver com a diferença tem sido uma tarefa exaustiva. O culto excessivo ao “eu” vem produzindo relações cada vez mais frágeis e solitárias, afinal, são pessoas que sentem prazer em se fechar pelo lado de dentro, enquanto buscam uma admiração pelo lado de fora. 

Perceber que as relações são construídas com a diferença, faz com que o sujeito vá percebendo que não é ele o centro das relações, mas que ele faz parte delas. Como em um quebra cabeças, o sujeito precisa conseguir identificar, através dos laços que vai estabelecendo, as suas singularidades, para só assim conseguir ver no outro aquilo que esta em falta ou está sobrando nele mesmo. É assim também que se cresce. 

O culto excessivo ao “eu”, educa sujeitos com uma baixa resistência a frustração, afinal nem sempre seus desejos serão atendidos, da mesma maneira que nem sempre terá controle sobre as situações.


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA



Grande parte de nós, de uma maneira ou de outra, deseja ser elogiado e admirado e isso é normal, é saudável e faz parte da construção de alguns valores da nossa personalidade. Porém, há um determinado tipo de pessoas que essa necessidade foge da normalidade e pode se transformar em um traço patológico.

Essa condição mental faz com que a pessoa tenha um senso altamente inflado da sua importância aliado a uma necessidade de aplausos e plateia. No fundo, elas imaginam que a terra gira em torno delas. São, portanto, as pessoas que provavelmente possuem o Transtorno de Personalidade Narcisista. Em suas cabeças só ficam os ecos de suas próprias ideias.

Possuem uma arrogância desmedida aliada a uma prepotência e não é por menos, pois acreditam ser únicos, especiais e donos de uma existência maravilhosa. Corpo, beleza, brilho e inteligência foram destinados apenas a eles. Por isso mesmo, precisam ser admirados constantemente, tornando quase insuportável seu relacionamento pois na tentativa diária de se sobressaírem em tudo e sobre todos, se tornam pessoas insuportavelmente competitivas.

Senhores pais, eduquem seus filhos, ensinando que a vida não é sobre chegar primeiro e sim sobre chegar juntos. Outra característica do narcisista é a necessidade que possuem de esconder as suas emoções, sobretudo a sua vulnerabilidade. A dor do outro não lhes tocam e isso é falta de empatia, no entanto, quando se sentem mal, exigem o apoio dos demais.

Querem sempre se colocar no centro das relações e isso os impedem de se colocar no lugar dos outros. A equação é simples: escondendo os seus defeitos a todo custo e não admitindo que os outros os aponte, conseguem transformar sua insegurança em uma falsa fortaleza cujo objetivo é que ninguém possa prejudicá-los, mas sim dar-lhes toda atenção de que precisam.

Senhores pais, lembrem de educarem seus filhos, ensinando-os que na vida, sempre poderemos ter motivos, mas nem sempre poderemos ter direitos. 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

NÃO FAÇA O PAPEL DE TROUXA




Constantemente, sem perceber, fazemos o papel de trouxa nas relações que vamos construindo. Não é uma tarefa difícil, porque é comum também darmos outro nome a este tipo de comportamento. Dizemos que não temos sorte no amor, que temos dedo podre para escolher parceiros, que o bonzinho sempre se ferra, que é azarado ou que as pessoas sempre se dão menos do que a gente espera.

A verdade é que ninguém nasce trouxa, e, portanto, é no dia a dia que se aprende a ser um. Deixar de sê-lo, não significa que nunca mais iremos quebrar a cara ou que nunca mais seremos vítimas da sedução de alguém que quer apenas nos usar. Mas, significa que as pessoas só fazem conosco aquilo que permitimos.

Pense que você só recebe aquilo que você aceita e isso deve servir desde sentimentos e atitudes até dinheiro emprestado e outros favores. Uma das habilidades que vamos adquirindo quando decidimos deixar de ser trouxa, é ir com menos “sede ao pote” em tudo que formos realizar. A pressa em decidir tudo acaba por atrapalhar o nosso destino.

Quando forçamos para algo acontecer, estamos abrindo a possibilidade de que aquilo aconteça de qualquer jeito e isso não é bom. Entender que mudanças repentinas não são tão fáceis de acontecer e que isso é um processo trabalhoso e demanda tempo, contribui para entendermos também que quando nos dispomos a qualquer coisa, estamos dispostos a colher qualquer coisa.

Lembre-se que insistir em algo, com alguém que não está na mesma sintonia só mostra o quão disposto estamos a cumprir o papel de trouxa mais uma vez. Não adianta reclamar! Deixar de ser trouxa, tem a ver com o respeito que damos a nós mesmos e ao quanto temos consciência de quem somos.

Deixar de ser trouxa é não criar expectativas achando que as pessoas irão mudar por nossa causa. Elas mudam por elas mesmas e quando lhes convém. Sabe porque se leva tanto tempo para perceber isso? Porque leva-se algum tempo para perceber que para termos relações mais dignas com as pessoas, precisamos aprender a se relacionar dignamente conosco em primeiro lugar.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...