quarta-feira, 7 de junho de 2023

NÃO ADIANTA FUGIR

 


É bem comum falarmos que estamos fugindo de algo que sabemos que precisamos fazer, de algo que nos incomoda, sobre algo que precisamos aceitar ou em toma uma decisão. Mas porque fazemos isso?

Uma das razões, é que ao percebermos que estas situações nos causam mal estar, colocamos o que foi percebido no inconsciente, como forma de proteção e de fugir dessa dor. É importante lembrar que nem sempre essas ameaças estão no mundo exterior, mas sim dentro de nós mesmos, construído nos mais variados sentimentos e emoções.

Na medida em que tais situações fogem ao nosso controle e elas acabam sendo feitas, a reação mais comum é não querer falar sobre elas ou até mesmo racionalizar dizendo, por exemplo, se auto afirmando como ser humano e questionando quem nunca fez aquilo ou que se comportou daquela maneira.

Portanto, esta é uma das maneiras mais evidentes de se tornar prisioneiro daquela atitude ou comportamento que não se deseja ter.

E como melhorar isso? A liberdade pode consistir exatamente em ter consciência destes comportamentos. A realidade, embora não seja a mais agradável, é preciso entendermos que é com ela que trabalhamos e mesmo que momentaneamente é ela que temos. Se possível for, ela pode ser modificada, mas nunca será fugindo dela.

Reconhecer que se está preso pode ser um passo fundamental para a busca da liberdade.


Paulo Veras
 é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


segunda-feira, 1 de maio de 2023

O SEGREDO É CONTINUAR A SER CRIANÇA, SEM CONTUDO, SER INFANTIL


Não é uma tarefa tão simples e é comum que no dia a dia usemos os dois conceitos como se fossem sinônimos. No entanto, são termos que se diferem. Manter viva a sua criança interior, nada tem a ver com externalizar o infantilismo que muitos usam para seguir com suas vidas.

Ser criança diz respeito ao indivíduo, ao ser nos momentos iniciais da vida, a um ser humano de pouca idade. O que se vive nesta fase, são determinantes psíquicos e podem nos acompanhar até a vida adulta e lá permanecem, não como traço de imaturidade, mas compondo a vida psíquica de cada um de nós.

No que se refere a infância, existem sérias mudanças de um contexto para o outro, varia de cultura para cultura e não existe uma cronografia universal da infância, pois é categoria histórica. Vale ressaltar que o modo de se pensar a criança foi totalmente mudado a partir da invenção da infância.

Portanto, a transição da infância para a fase adulta é um verdadeiro desafio para muitos. Isso porque embora adultos, continuam a agir com infantilidade como se crianças fossem. E continuar a ser criança pode, o que não é concebível é continuar com comportamentos infantis, porque a infância tem data pra começar e terminar. Ter atitude para não agir de forma infantil, assumir responsabilidades e lidar com a próprias emoções fazem parte dessas mudanças.

Ser imaturo, recusar-se a assumir seus erros e procurar resolvê-los, ser incapaz de lidar com pressão e responsabilidades, além de não conseguir se posicionar de forma madura quanto às exigências sociais, vitimizando-se sempre, denunciam um adulto ainda infantilizado está agindo mais como criança do que como adulto.

A inacessibilidade emocional, a teimosia repetitiva, a reatividade seguida do mimo e a falta do diálogo, também representam a infantilidade na prática. Adulto não resolve a vida comportando-se a tudo somente com muita raiva; com muito medo, com muita birra ou se isolando sem pensar no outro. Adulto dialoga porque cresceu.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


segunda-feira, 3 de abril de 2023

HÁ SEMPRE CRIANÇAS FERIDAS ESCONDIDAS EM ADULTOS DIFÍCEIS

 


A visão e a maneira como passamos a ver a criança, o infantil, bem como as suas representações, passaram a ser reveladas por Freud (1907/1976), quando disse que a criança sente tristeza, solidão, raiva, desejos destrutivos, vive conflitos e contradições, é portadora de sexualidade, escapa ao controle da educação e “[...] é capaz da maior parte das manifestações psíquicas do amor, por exemplo, a ternura, a dedicação e o ciúme.”

Foi a partir de então, que a psicanálise, traz um novo olhar sobre o ser humano, não como indivíduo (somente), mas também como marca de um passado, formado e significado pela sua infância. Sendo assim, a infância não se trata somente de uma fase na nossa formação, mas nos ajusta e nos marca pelo inconsciente, que é inquietante, impreciso e em construção.

Portanto, o que acontece na infância, não fica lá. Algumas marcas permanecem por longos anos e podem atrapalhar muito a idade adulta. Já pensou, por exemplo, quanta dor temos guardada, quando decidimos machucar alguém? Ou, já pensou, o gasto emocional que fazemos para não enfrentar e dar nomes a certas emoções reprimidas, que acabam saindo em forma agressão e escolhas mal sucedidas? Tem pensando, que os maus tratos que subjugamos a nós mesmos e aos outros, refletem muito à maneira como fomos castigados como forma de educação?

O medo de ser abandonado que vivenciamos na infância, o medo de ser rejeitado, a humilhação a que fomos submetidos, a falta de confiança, a ansiedade da separação, o medo da traição e a injustiça, por exemplo, escondem questões mais profundas, sempre associadas à nossa necessidade constante de acolhimento, aceitação, pertencimento e importância.

Sobre os fatos do passado não há anulação, mas é importante saber que podem ser ressignificados. Precisam ser elaborados para não ser repetidos. Não podemos mudar o que passou, mas podemos modificar o que está por vir. Quem manda no adulto é a criança e é sempre bom que a criança seja bem educada e que não aja pelo impulso.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO

domingo, 12 de março de 2023

O ADULTO INSEGURO PODE TER SIDO A CRIANÇA BOAZINHA

 


Em conversas e palestras com os pais, o que mais ouço e vejo neles é o discurso de que o filho dá muito trabalho. Em outras palavras eles estão dizendo: meu filho não pode me contrariar e a dificuldade que eles tem em aceitar que a criança seja criança. Não se educa pensando apenas na fase da infância, mas educa-se pensando no adulto que eu quero que essa criança seja.

Talvez por isso, que a educação feita por estes pais, seja mais voltada para punir e obedecer, do que para autonomia e independência dos filhos. Assim, os filhos vão se educando para agradar os pais e não para serem adultos.

Os pais precisam entender, que existem comportamentos que embora não os agrade e deem trabalho, faz parte da infância da criança e é necessário que isso aconteça para formar o adulto que ela vai ser.

A necessidade que temos de agradar é originada da demanda de pertencimento, ou seja, ao punir a criança por fazer aquilo que não agrada aos pais, eles a educam com a ideia de que, para ser aceita, ela não pode jamais se posicionar, fazer birra, dar trabalho e acima de tudo, precisa ser uma criança boazinha e isso não sendo bem alinhado, prejudica em muito o futuro da criança.

Sim, educar dá trabalho e é por isso que exige dos educadores uma postura que vá além de fazer a criança cumprir os seus caprichos. Veja por exemplo, o adulto que tem o desejo de agradar os outros a todo custo e que não vem da vontade de ver os outros felizes, mas da sua insegurança e falta de autoestima.

São adultos que em sua infância aprenderam que o amor está ligado à obediência, a não dar trabalho, a agradar e serem sempre subordinados. Geralmente são adultos que sofrem em dizer não, com dependência emocional, baixa autoestima, lutam sempre para serem generosas, aceitas, queridas e compreensivas com todos, pois aprenderam que assim serão amadas e nunca serão rejeitadas.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

SE SENTIR SOZINHO É DIFERENTE DE ESTAR SOZINHO

 


Não é novidade que a solidão é uma das epidemias mais graves deste século. Não é, portanto, um sentimento simples, fácil de ser explicado, mas trata-se de um misto de sensações como a dor, angústia, tristeza e medo, que foi mudando ao longo do tempo, com dimensões culturais, sociais e políticas. Aliadas a ela estão ainda o stress, a obesidade, o uso excessivo de drogas, entre outras variáveis.

É notório que cada vez mais as pessoas estão vivendo sozinhas e tudo indica que esse número deve aumentar nos próximos anos. Também não é novidade que as famílias estão cada vez menores, em casas menores, com menos filhos e em atividades que cada vez mais valorizam a sua individualidade e a sua solidão.

Embora a solidão não seja necessariamente má, deve-se ficar claro que ela é também fundamental para a constituição do ser humano. Durante as nossas vidas, a solidão faz parte do processo de crescimento e como tal, é inevitável.

Porém, é importante afirmar – e não confundir - a solidão como um processo de escolha, uma prática do individualismo ou com uma necessidade de não se socializar momentaneamente com qualquer outra pessoa. Estar só nesse caso, é estar fisicamente sozinho. Este estar solitário não expressa o sentimento de solidão e trata-se de um isolamento social por escolha, como um processo de fuga ou de experimento para se auto conhecer e crescer.

Mas é preciso atentar-se à solidão como um estado, onde a pessoa tem a necessidade (vontade) de estar com outras pessoas, mas é incapaz de fazê-lo. Pode ser que as condições sociais, financeiras e cognitivas permitam esse contato, mas a insegurança e outros fatores psicológicos contribuem para a solidão.

A isso, estão aliados os sentimentos de imprestabilidade, estranheza, desprezo, rejeição, desânimo e muito pouco contato visual, ou seja, o isolar-se não é escolha, é incapacidade. De igual modo, pense que estar sozinho pode ser positivo, mas sentir-se sozinho pode ser fator de risco e precisa ser visto com atenção.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

NÃO EDUQUE FILHOS INTOLERANTES E INSEGUROS

 


Senhores educadores (incluindo os pais), saibam todos que é muito cruel para uma criança se ver na impossibilidade de cometer erros. Reconhecer os erros e enxergar neles as possibilidades de equilíbrio, começa com os pais e com seus educadores.

Os erros que são cometidos e que são corrigidos de maneira cruel (tapa na cara, cala a boca, castigo, torturas) vão educando a criança para não tolerar a sua própria frustração, mas também, para não ser tolerante com os erros dos que com ela convive. Pense ainda, que essa criança vai se desenvolvendo com um medo terrível de assumir os seus erros, mesmo que sejam os mais simples.

Encher uma criança de elogios apenas quando acerta, pode ser que faça mais mal do que bem a ela. Entenda que elogiar somente as habilidades, os talentos, o que ela ganha e acerta e a inteligência da criança, é diminuir e fragilizar a sua autoconfiança. Os pais/educadores devem se concentrar em elogiar também o seu esforço.

Quando se foca somente na inteligência ou somente no fracasso, estão educados crianças medrosas e com baixíssima disposição para escolher tarefas desafiadoras e correr o risco de perder, ou seja, tem medo de se frustrar ou de frustrar o sonho dos seus pais.

Entenda que não ser o Super-herói todos os dias, não te faz um pai/mãe/educador menos importante ou menos especial para eles. Seja uma referência, não um infalível. Por isso, é importante que você lide bem com seus próprios fracassos, com suas escolhas mal feitas, com seus contratempos, com suas impossibilidades e suas angustias.

Mostre a eles que os adultos também cometem erros, mas sobretudo, se responsabilizam por eles, fazem suas reparações e seguem. Assim, eles vão se educando para lidar com os seus erros nas suas relações que irão construir pela vida.

Aprenda a deixar de tratar os seus erros e os dos seus filhos como algo cruel e irreparável. Se liberte disso. Nem sempre você está certo!

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

É PRECISO SUPORTAR O DESAMPARO

 


Embora seja difícil o desamparo é uma experiência fundamental e faz parte da condição humana e é, em torno dela, que se constitui a posição de sujeito no mundo. O desemparo com as suas diferentes vulnerabilidades impostas é que faz o desafio de se trabalhar com a falta, e assim, o vazio se faz necessário.

É fácil entender que não fomos educados para trabalhar com a falta. Fomos ensinados, que para nos sentirmos bem, precisamos ter o chão da segurança sob nossos pés e este é um dos motivos que nos fazer ter pavor do desamparo.

Basicamente, em outras palavras, só mudamos quando a realidade em que estamos é de fato insuportável. Ainda assim, para que não possamos sair dela, entramos facilmente em um processo de neurose, ficando em um ciclo de repetir os mesmos fatos, ter prazer nos mesmos erros e ainda reviver as mesmas situações dolorosas e traumáticas. Para isso, haja mecanismo de defesa para não admitir toda essa problemática, sempre buscando contornos prazerosos nisso tudo.

É natural, portanto, que sempre estejamos buscando prever esta condição de desamparo: cercamos de um lado; buscamos colocar anteparos de outro; negamos um pouco ali; fingimos outro tanto ali e assim vamos levando a vida. Todos estão diretamente implicados, embora todos estejam também negando essa implicação, tentando se isentar cada um de suas responsabilidades por suas escolhas e suas consequências. No fundo, todos querem a garantia da previsibilidade para evitar o desemparo.

É preciso não ter medo do vazio, do desemparo, da solidão. É preciso se permitir desfrutar os benefícios que estar sozinho pode trazer. Mas é preciso também, depois de adquirir tal liberdade, suportar-lhe o peso.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

  O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de es...