terça-feira, 4 de agosto de 2026

A NEGAÇÃO SOB A LUZ DA PSICANÁLISE

 




A citação de Freud, nos oferece uma metáfora precisa para compreendermos um dos mecanismos centrais do funcionamento psíquico: a negação. Na obra, Freud aprofunda sua investigação sobre como o sujeito lida com o sofrimento psíquico e mostra que, diante da angústia, o psiquismo tende a buscar saídas que aliviem a tensão, ainda que essas saídas não promovam um real entendimento da situação vivida.


O “cantar na escuridão” representa justamente essa tentativa de aliviar o medo. O andarilho, ao cantar, produz um gesto ativo contra a angústia: ele ocupa o silêncio ameaçador com som, cria uma sensação de controle e, momentaneamente, reduz o impacto do medo. De forma análoga, o ser humano frequentemente nega aspectos dolorosos da realidade psíquica ou externa para tornar a experiência mais suportável. Ela pode se manifestar como minimização de conflitos, racionalizações excessivas, pensamentos infantilizados ou mesmo como uma recusa inconsciente em reconhecer determinados afetos.


Porém, é importante pensar sobre este movimento: negar o medo não equivale a compreendê-lo. Assim como o andarilho continua sem enxergar o caminho, o sujeito que se apoia exclusivamente na negação permanece afastado da elaboração psíquica do conflito. A angústia, que poderia funcionar como sinal de algo que exige atenção e simbolização, é silenciada, mas não resolvida. O sofrimento retorna, então, sob outras formas, como sintomas, inibições ou repetições.


A facilidade em negar é compreensível: o aparelho psíquico busca preservar-se do desprazer. No entanto, é justamente aí que reside o risco. Ao evitar o contato com aquilo que causa dor, o sujeito também se afasta da possibilidade de transformação. O caminho é o oposto da negação: não eliminar o medo rapidamente, mas criar condições para que ele seja nomeado, pensado e elaborado. A angústia, para Freud, é também um sinal de alerta que indica a presença de um conflito psíquico relevante.


Somente ao abandonar o canto defensivo é que o sujeito pode, pouco a pouco, construir formas mais claras de compreender sua experiência e encontrar novos caminhos para lidar com o sofrimento.

 

Paulo Veras é doutorando em educação; mestre em educação, linguagem e tecnologia; psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


A NEGAÇÃO SOB A LUZ DA PSICANÁLISE

  A citação de Freud, nos oferece uma metáfora precisa para compreendermos um dos mecanismos centrais do funcionamento psíquico: a negação. ...