A citação de Freud, nos oferece uma metáfora precisa para compreendermos um dos mecanismos centrais do funcionamento psíquico: a negação. Na obra, Freud aprofunda sua investigação sobre como o sujeito lida com o sofrimento psíquico e mostra que, diante da angústia, o psiquismo tende a buscar saídas que aliviem a tensão, ainda que essas saídas não promovam um real entendimento da situação vivida.
O “cantar na escuridão” representa justamente essa
tentativa de aliviar o medo. O andarilho, ao cantar, produz um gesto ativo
contra a angústia: ele ocupa o silêncio ameaçador com som, cria uma sensação de
controle e, momentaneamente, reduz o impacto do medo. De forma análoga, o ser
humano frequentemente nega aspectos dolorosos da realidade psíquica ou externa
para tornar a experiência mais suportável. Ela pode se manifestar como
minimização de conflitos, racionalizações excessivas, pensamentos
infantilizados ou mesmo como uma recusa inconsciente em reconhecer determinados
afetos.
Porém, é importante pensar sobre este movimento:
negar o medo não equivale a compreendê-lo. Assim como o andarilho continua sem
enxergar o caminho, o sujeito que se apoia exclusivamente na negação permanece
afastado da elaboração psíquica do conflito. A angústia, que poderia funcionar
como sinal de algo que exige atenção e simbolização, é silenciada, mas não
resolvida. O sofrimento retorna, então, sob outras formas, como sintomas,
inibições ou repetições.
A facilidade em negar é compreensível: o aparelho
psíquico busca preservar-se do desprazer. No entanto, é justamente aí que
reside o risco. Ao evitar o contato com aquilo que causa dor, o sujeito também
se afasta da possibilidade de transformação. O caminho é o oposto da negação:
não eliminar o medo rapidamente, mas criar condições para que ele seja nomeado,
pensado e elaborado. A angústia, para Freud, é também um sinal de alerta que
indica a presença de um conflito psíquico relevante.
Somente ao abandonar o canto defensivo é que o
sujeito pode, pouco a pouco, construir formas mais claras de compreender sua
experiência e encontrar novos caminhos para lidar com o sofrimento.
Paulo Veras é
doutorando em educação; mestre em educação, linguagem e tecnologia; psicólogo
clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista
em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e
professor universitário em Goiânia-GO

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