segunda-feira, 9 de novembro de 2020

É LOUCURA QUERER SER AMADO POR TODOS


 

Se sentir amado, além de ser muito bom, é também uma necessidade. Mas se esta necessidade se tornar uma obsessão torna-se um perigo, uma loucura, na verdade um delírio.

É claro que não vamos conseguir que todos nos amem ou que gostem de nós e se libertar disso é abrir mão de um narcisismo, alimentado em grande parte, pela cultura dos likes e da não frustração sobre o que criamos: se não gosta de mim, se não concorda com o que eu digo, eu cancelo.

Viver qualquer relação onde exista a obrigação de amar o outro é adoecedor e pode ter dias reduzidos em sua duração. Amar qualquer pessoa nunca deve ser uma imposição, do mesmo modo que não é saudável implorar o amor do outro. Essa dependência afetiva não se constrói do nada e se faz necessário uma auto reflexão para buscar compreender de onde vem essa carência de aprovação para que seus projetos aconteçam.

Pautar suas decisões sob o olhar de outro é renunciar seus próprios desejos em função das prioridades daqueles que te rodeiam e apesar de frustrante, não é tão catastrófico assim viver com independência.

Aprenda que, viver sem expectativas sobre os sentimentos do outro é entender que há lugares que não te cabem, como há relacionamentos que não são para você, e está tudo bem. Vida que segue. Libertar-se disso, é parar de pedir atenção 24 horas sem se culpar quando isso não acontece. Sim, as pessoas podem viver suas vidas sem te colocar no centro, da mesma forma, que você pode viver a sua vida sem girar em torno delas.

Já parou para pensar que essa aprovação e esse amor que você julga essencial para sua vida é apenas uma resposta ao seu ego pequeno e frágil que precisa ser reverenciado?

Entenda que se há a necessidade de ser amado assim é porque de fato não é de amor que você precisa. Não é forçando que se tem amor, é fluindo.


Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

AMOR EM BANHO MARIA: NÃO ATA E NEM DESATA

 


Em algum momento você já se deparou com relações onde um dos parceiros não assume o relacionamento, mas também não desiste dele. Hoje é seu atual, amanhã o seu ex e depois de amanhã atual de novo. Relação construída dentro deste modelo é recheada de incertezas, esperanças sem fundamentos, além de um cardápio farto de promessas raramente cumpridas.

Estas relações são aquelas que costumamos dizer que nem atam e nem desatam e com o tempo você se acostuma com esse ritual que só te adoece e te faz dependente. A questão central é sempre a mesma: Se está comigo é porque gosta, mas se gosta porque não assume? Doce ilusão! Onde você aprendeu que estar junto significa gostar?

Há uma diferença que nunca pode ser confundida entre gostar de mim e gostar do que eu posso oferecer. O outro pode estar se sentindo confortável em uma situação onde haja disponibilidade, prazer e sexo, só isso.

Relações assim te ensinam que pedinchar sentimentos e comer migalhas é melhor do que passar fome e acreditando nisso você vai empurrando a relação que acredita ter. Você sabe que não está sendo valorizado, se sente desrespeitado em seus sentimentos e já decidiu várias vezes colocar um ponto final nessa história.

Acontece, que o medo de perder o pouco que você tem é maior do que a garantia que você precisa ter para ficar sozinho. A falta dessa garantia foi a mesma que te fez apostar nessa relação, que embora já fosse fracassada, você pensou que daria certo.

É ilusão pensar, que encerrando esse ciclo de “banho-maria” você vai sofrer mais, acreditando inclusive que “ruim com ele, pior sem ele”. Escuta: sofrendo você já está, a diferença é que a decisão em encerrar isso tudo não é do outro. Ela deve ser sempre sua. Não alimente a esperança de que o outro irá se comprometer com você quando na verdade ele não quer, ainda que você se perca, fazendo tudo que for necessário para isso.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

SEDUZIR SEMPRE, COMPROMETER-SE JAMAIS.

  


Ele é nosso velho conhecido e você já deve ter tido contato com um. Quem sabe, até já tentou manter uma relação, ou ainda, está sofrendo nas mãos de algum Don Juan da via real. Ele está sempre em busca da presa fácil, que carente, cai com facilidade em qualquer lábia, para assim, usar todo o seu charme e poder de conquista. Estou falando de homens que tem Síndrome de Don Juan (CID F52.7).

Homem com este transtorno possui uma forte necessidade de seduzir o maior número de mulheres/homens possíveis, utilizando para isso, falsas promessas e um robusto jogo de sedução e portanto vai perceber muito rapidamente as fraquezas da sua presa e focará nelas. Quanto mais difícil for este processo, mais prazer ele sente.

Quando conquistar a pessoa, perderá o interesse e partirá para outra busca. Sua competição é para ser desejado e não para manter um relacionamento, e assim, o tempo de sedução é tão rápido quanto o tempo que ele precisa para sumir da sua vida.

Geralmente, o Dom Juan demonstra um narcisismo exagerado, desconhece a palavra fidelidade, não aceita a resposta não, e possui uma alta habilidade de manipular os seus objetos de apreciação. É sempre muito preocupado em desempenhar papéis sociais teatrais que são exclusivamente dirigidos à sua própria satisfação. Não raro é chamado de príncipe encantado.

Fique alerta: Se é encantado é porque não existe. O Dom Juan não tem capacidade de amar ninguém, porque possui um grande medo de ser rejeitado e é através da sedução que ele prova para si, que é capaz de despertar a admiração e o desejo no outro.
Cuidado: Não romantize a razão. Ele não tem nenhum interesse em você, mas naquilo que você pode dar a ele.

Não romantize o óbvio: ele já agrediu outras, traiu várias, responde à lei Maria da Penha, brincou com o sentimento de outras tantas e só não vai fazer com você? Acorda!

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

É DIFÍCIL, MAS NECESSÁRIO EXTRAIR ENSINAMENTOS DO CAOS

 

É importante não negar que a obscuridade existe e que é necessário ver nela as oportunidades e não somente as tragédias, deixando de lado a nossa dose diária de masoquismo e não vê-la apenas como uma piada ou um “meme” da internet. 

Precisamos entender que minimizar uma situação crítica e dolorosa que enfrentamos não ajuda em nada, pois em algum momento de nossas vidas, já vivemos – ou vamos viver – com tristeza e dor. Entender que tragédias acontecem e afetam nossa saúde física e emocional, mas, por outro lado, elas possuem a missão de medir o nosso caráter e de nos permitir desenvolver os nossos mais profundos sentimentos de compaixão e de humanidade. 

Aprendemos com o nosso caos a construir a nossa armadura para a vida e é ele que nos faz refletir mais profundamente e fazer com que nosso comportamento mude para melhor. São nas situações limites que conseguimos mostrar a nossa verdadeira face: é quando o melhor ou o pior de nós é revelado. 

Quando saímos das catástrofes, sejam elas sociais ou as mais íntimas e solitárias, podemos sair engrandecidos e mais fortes, afinal, também são para isso que elas servem. A diferença é que isto depende de cada um de nós. 

Os sentimentos e emoções que vamos internalizando durante a crise enfrentada, ganharão formas e serão colocados em prática através de ações e comportamentos necessários para o enfrentamento da angustia e da dor gerados na nossa mísera capacidade de lidar com tudo isso. 

Podemos escolher sentir pena de nós mesmos e até desejar morrer ou de mudar o comportamento e fazer o que o momento de aflição pede; de ficar revoltado e bravo com o acontecido ou ser resiliente mudando hábitos aprendidos ao longo da nossa zona de conforto; de tornar-se apático e mais egoísta ou pensar no próximo, inclusive repartindo o que se tem em tempo de escassez. 

Qualquer situação limite que vivemos, deve servir para nos ensinar e nos ensinar muito.

 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

COM O TEMPO VAMOS PERCEBENDO QUE TODO JULGAMENTO É UMA CONFISSÃO




É no julgamento que temos a oportunidade de apontarmos nos outros, os nossos pontos fracos. Como todos nós temos algo a esconder, todos nós temos também a necessidade de julgar. Saber a razão por que estamos sempre apontando o dedo para o outro é descobrir como relacionamos com o nosso próprio ego.

Umas das maneiras de saber sobre esta relação é começar a prestar atenção na maneira como lidamos com os erros dos outros. Quando não temos consciência de quem somos de verdade, temos a urgente necessidade de nos sentirmos melhores que os outros, como se expressar a nossa rejeição diante de determinadas atitudes, fosse uma obrigação. Não é!

Nunca devemos esquecer que o julgamento sempre fala mais sobre quem julga do que sobre aquele que está sendo julgado. Sentir-se no direito de julgar alguém é sempre se colocar na posição de sentir-se melhor que o outro e isso, alimenta o nosso ego, fazendo com que fiquemos insuportáveis nas nossas relações.

Estar nessa condição faz com que enxerguemos as pessoas não como elas de fato são, mas sim como nós somos, isso porque, tudo o que falamos do outro é na verdade a tentativa de esconder aquilo que de certa forma é vergonhoso em nós. O outro tem o papel de ser o espelho que vai refletir aquilo que não queremos ver em nós mesmos. Não é fácil admitir, mas todo julgamento acaba sendo uma confissão.

Quando resolvemos em nós, aquilo que nos incomoda no outro, quer dizer que aquilo que não está ainda resolvido no outro, não nos incomoda mais. Significa dizer, que quando criticamos o peso de alguém, revelamos que não estamos bem com o nosso. Isso se aplica para os seus relacionamentos, sua sexualidade, sua religião, sua carreira e sua família.

Pessoas bem resolvidas, são resolvidas porque cuidaram de suas vidas ao invés de perder tempo julgando a vida dos outros. Acreditar que somos superiores, especiais e blindados pode nos dar a falsa permissão para julgar as pessoas e isso, além ser cruel é sinal de ignorância.

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

BOA NOITE JULIANA



Haviam três meses da sua transferência de posto no órgão público em que trabalhava. Inevitavelmente foi preciso mudar sua rota para ir ao trabalho e isso de certa forma lhe trazia mais prazer do que desconforto. Embora não ficasse muito distante, Mário preferia ir mais de carro do que de Metrô. Gostava de praticidade e acreditava que o carro lhe oferecia.

A mídia já não falava mais sobre os últimos assassinatos de mulheres e ficou menos preocupado quando o delegado disse em entrevista que não haviam relações entre os crimes, não sendo portanto, crimes cometidos por um serial killer. Para sentir-se mais confortável, preferiu mudar de apartamento, trocou de academia e passou cada vez mais a ir em supermercados diferentes.

Sentia que sempre que olhava os recortes de jornais sobre os crimes cometidos, era tomado por uma sensação de poder e grandeza sem iguais. Embora soubesse que era tímido e de poucos amigos, era nesse momento que se sentia envaidecido. Era tão prazeroso rever tudo isso, que em forma de ritual, sempre bebia algo e brindava a si mesmo.  

Aproveitando o novo caminho, parou para visitar um sebo de livros o que fazia com certa frequência no trajeto anterior. Encontrou em uma dessas livrarias, uma grande coleção de livros infantis e como esse era seu gênero literário favorito, sentiu-se em casa. Em poucos dias passou a ser familiar e sempre passava ali em busca de novos títulos.

Na mesma rota, parava sempre na esquina do bosque onde se via pessoas caminhando, vendendo objetos, fazendo atividades físicas ou passeando com seus pet’s e isso o distraía enquanto o farol de trânsito ficava verde. No final do dia sempre era mais divertido e algumas vezes, também parava ali tomar água de coco.

A vendedora de frutas sempre o abordava e quando não comprava nenhuma mercadoria, entregava a ela chicletes, balas ou até mesmo chocolates. Essa rotina já fazia parte do seu cotidiano, que era comum diminuir a velocidade do veículo afim de pegar o farol fechado na esquina do bosque, aproveitando a sombra e o sorriso da vendedora.

Apostando no vínculo criado com a moça, resolveu pedir o número do seu telefone com a intenção de encomendar frutas frescas, em especial maçãs. Segundo ele, gostava de ler suas histórias enquanto as comia. As verdes, geladas, eram as suas preferidas. No final de semana esteve no bosque, mas não encontrou a vendedora. Fazer caminhadas não era uma atividade que o seduzia, mas aproveitou a oportunidade para dar uma volta no bosque e conhece-lo melhor. Embora frustrado decidiu procurá-la na semana seguinte.

Conforme planejado, na semana seguinte passou lhe a primeira mensagem, apresentou-se a ela e disse que era o rapaz do carro cinza. Mandou uma foto, pediu uma dela, confidenciaram suas idades, que estavam solteiros, que moravam sozinhos, falaram do seus trabalhos, sorriram e ele salvou o número dela no seu celular. Trocaram mais algumas palavras, acertaram os valores e marcaram o dia de pegar as frutas encomendadas.

Não sabia exatamente, mas fez isso por cinco ou seis semanas seguidas. Mesmo não comprando frutas todos os dias, se viam no transito, trocavam sorrisos e mensagens. Em um dos finais de semana, pediu a ela que fossem a um parque do outro lado da cidade para se verem e andar de patins. Embora ela dissesse que não conseguia andar, ele insistiu que ensinaria ela, além de pagar a locação. Tomaram água de coco, sorriram e ele a deixou em casa.

Na quarta-feira seguinte, saiu do trabalho uma hora mais cedo, passou na padaria mais perto e comprou um pedaço de torta de chocolate. Passou pelo bosque e como de costume ela veio ao seu carro. Sorriram e ao entregar a torta disse que era para adoçar a sua noite após o jantar. De boné para se proteger do sol, agradeceu constrangida. O sinal abriu e eles se despediram.

No dia seguinte, passando pelo mesmo trajeto, ele não a viu. Na segunda feira, 5 dias depois, parado na esquina do bosque, escutou pelo rádio que vizinhos acionaram a polícia, que encontrou uma moça morta dentro de casa. Do lado, um recipiente de isopor com uma fita vermelha por fora e resto de torta de chocolate por dentro, com a frase escrita ao fundo: “Boa Noite Juliana.”

O sinal abriu. Sorrindo, engatou a primeira marcha e seguiu.



Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

CARÊNCIA DEMAIS INCOMODA



É triste quando as pessoas pensam que não tem nenhuma importância para ninguém. Requer tratar isso. Mas é complicado conviver com pessoas que pensam exatamente o oposto. Também requer tratamento.

Pessoas assim são dodói demais e se magoam com tudo que acontece e pensam que os outros tem a obrigação de atender as suas expectativas. Entenda: o mundo não gira em torno de você. O seu umbigo não é o centro do planeta, da mesma forma, que o mundo não está o tempo todo apontando para você. As pessoas se envolvem com outros afazeres e nem sempre está ao seu serviço.

Compreender isso traz um alívio imenso para as relações. Sim, embora pareça cruel, o mundo não vai parar para atender os seus desejos e as suas vontades e a você, cabe escolher se vai ficar ressentido e melindrado, complicando ainda mais as relações à sua volta.

Seus filhos podem não ser o que você esperava; seu casamento pode ser exatamente o oposto do que você sonhou; a empresa que você trabalha pode te demitir e algumas pessoas só estarão por perto enquanto você tiver algo para oferecer. Sim, as pessoas tomam decisões sem pensar em você, ainda que isso te machuque.

Lembre-se que situações desagradáveis acontecem com todas as pessoas. Elas possuem dores, porque já foram esquecidas; foram dispensadas do trabalho; fizeram luto; receberam um fora; se desapontaram e inúmeras vezes perderam. Acontece que tem pessoas que valorizam demais esses acontecidos e fica insuportável estar do lado delas.

Os acontecimentos da vida ainda poderão te magoar e não é que eles te perseguem. Viver requer atitude e determinação. Não pensar nisso é imaginar que estamos acima de tudo e de todos. Portanto, aprenda a lidar com a dor e com o vazio de não ter e de não ser o centro. A frustração te ajuda a se tornar mais forte e emocionalmente mais preparado. Aprender com isso é uma opção. Ficar se lamentando também. 

Paulo Veras é mestre em educação, psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

A NEGAÇÃO SOB A LUZ DA PSICANÁLISE

  A citação de Freud, nos oferece uma metáfora precisa para compreendermos um dos mecanismos centrais do funcionamento psíquico: a negação. ...