terça-feira, 13 de outubro de 2026

O CIÚME E SUAS AMEAÇAS

 


O ciúme costuma ser tratado apenas como prova de amor, mas, para a psicanálise, ele revela conflitos muito mais profundos. Sigmund Freud, na obra Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade (1922), descreveram três formas principais de ciúme: o competitivo, o projetivo e o delirante. Conhecê-las pode ser um caminho importante de crescimento.

Freud considera o ciúme competitivo, a forma mais comum, encontrada nas relações. Ele aparece diante do medo real de perder a pessoa amada para alguém que parece rival. Nesse caso, surgem tristeza, insegurança, sentimento de rejeição e até feridas narcísicas: a pessoa sofre porque sente que não foi “escolhida”. É um ciúme ligado à comparação, a disputa e ao fato de não ser exclusiva. Embora doloroso, ainda mantém contato com a realidade.

No ciúme projetivo, o sujeito atribui ao outro, desejos ou intenções que, muitas vezes, pertencem a ele próprio. Em vez de reconhecer seus impulsos inconscientes, projeta-os no parceiro. Por exemplo: alguém que reprime o próprio desejo de trair pode desconfiar constantemente da fidelidade do outro. Freud mostra que a projeção funciona como defesa psíquica: o que incomoda dentro de si é colocado projetivamente para fora.

Já o ciúme delirante ou paranoico, é do três, a forma mais grave. Nesse caso, a convicção de estar sendo traído não depende de provas, diálogo ou fatos concretos. A certeza se sustenta sozinha e pode se tornar obsessiva. Freud relaciona esse tipo de ciúme a conflitos inconscientes intensos e a mecanismos próximos da paranoia. A pessoa interpreta gestos banais como sinais de traição e vive presa a uma narrativa persecutória.

Esses três tipos mostram que o ciúme nem sempre fala do outro; muitas vezes, fala de nossas faltas, medos e desejos inconscientes. Antes de vigiar, acusar ou stalkear, vale perguntar: o que exatamente estou perdendo? O outro ou a imagem que construí de mim mesmo?

Procurar ajuda psicoterapêutica é muito importante porque ele pode destruir vínculos, adoecer relações e alimentar sofrimento desnecessário. Se compreendido, pode se tornar porta de entrada para maturidade, autoconhecimento e relações mais conscientes.

Paulo Veras é doutorando em educação; mestre em educação, linguagem e tecnologia; psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO

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