"Não há cura para o nascer e o morrer, a não ser... saborear o intervalo!"
(Autor Desconhecido)
Já há algum tempo, tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas portadoras do virus HIV. Digo oportunidade, porque esse encontro, não se deu em um ambiente terapêutico, ou com a finalidade de o ser. Aconteceu de forma nada formal e em um ambiente nada voltado para a área médico-terapeuta. Eu não os estava analisando.
Nesse ato, três fatores me chamaram atenção e é sobre isso que quero falar com vocês nesse breve escrito. O primeiro deles, é o alto índice de preconceito que permeia o portador do HIV e nisso não tem novidade alguma. Esse monstro, que corrói todo circulo social, acontece de forma dualista, partindo tanto do portador, como daqueles que o conhecem. Fica claro, que as pessoas mudam quando descobre que o seu próximo – aquele ali, sentado comigo à mesa – tem o HIV. Mas também é incrível, como o portador muda, quando descobre que as pessoas sabem que ele é “diferente”. Na sua conversa, nos seus planos futuros, quase tudo se abrevia, porque a conjunção “se” se torna cada vez mais presente em seu vocabulário.
Então, eu me perguntava: Porque? O que de fato muda numa relação, estando as pessoas sabendo ou não que esse ou aquele é portador de uma moléstia incurável. O preconceito existe ainda, na forma como essa pessoa adquiriu o HIV, podendo ser na transfusão de sangue e/ou na relação sexual, que pode ser agravada mais ainda, seja qual for a sua preferência sexual. Ironias à parte, mas opção sexual, também é base para preconceito. A sociedade aceita ou descarta, segundo seus padrões de conceito, já estabelecidos em pré-conceitos, vindos de onde? Nesse casos, dois grupos se criam automaticamente: os vítimas do HIV e os vítimas do preconceito. Ambos podem ser evitados.
No segundo momento, a velha máxima, se confirma: “Quem vê cara, não vê AIDS.” Dito isso, derrubamos automaticamente a primeira observação. Mas o perigo mora aí também. Essas pessoas – todas elas – desfrutam dos mesmos privilégios que as demais e as normas que regem uns, regem os demais. Dae eu questiono: O preconceito é necessário? Segurança é também preconceito? Não sei! No contato com essas pessoas, notei que, fazendo as atividades que todos fazem, elas se esquecem por algum momento, que são portadoras do vírus, que são "aidéticas." Nesse momento de lazer, eles podem sorrir, fazem piadas com a doença, debocham dela e se demonstram fortes. Até quando? Alguns me disseram: “...até que encontro alguém especial e pra ser honesto, preciso contar a verdade e ai, tudo muda.”
O terceiro fator, é que no assunto em aprêco, as pessoas em questão, são todas homoafetivas. Mas e dae? Ocorre que, no contexto gay, a máxima de que “quem vê cara, não vê AIDS,” se torna muito mais evidente. Não existe muita fala para que se chegue ao ápice entre dois homens. Isso é fator, que necessita ser trabalhado no contexto homossexual. As pessoas não se falam muito e se entregam depressa demais, mesmo que seja por pura curtição. Quando o caminho é feito ao inverso, será sempre necessário procurar um desvio. Me refiro a caminho inverso, porque para o gay, o sexo é quase sempre a prioridade e não o conhecer, que deveria ser. O conhecer que vem depois, pode ser muito doloroso.
A carência, talvez seja o fator primeiro de dor do gay. Carência, não só de afeto, mas de reconhecimento, de respeito, de orgulho, de liberdade, de independência, de igualdade, de poder dizer as pessoas: “Também posso.” E nessa carência, se esconde o perigo, afinal de contas, a resposta a isso, sempre vêm acompanhada de outros males. A máscara que esconde a carência, se apresenta de muitas formas: Corpo escultural, olhar sedutor, dança sensual, corpo bronzeado, a busca incessante pela barriga de tanquinho e coxas de Erus. Pronto! Disso até à satisfação do desejo sexual é apenas um passo. Conseguem fazer a relação? A fuga da carência é proporcional ao chamar a atenção de quem rodeia, isso equivale dizer ainda, que a energia sexual do gay, não se concentra no raciocínio ou na inteligência: É no corpo. Aliás, independente da sexualidade, vocês conhecem alguém diferente? Mas no gay isso é mais acentuado. Porque? Haja testosterona!
Mas, o que quero dizer com tudo isso? É importante ressaltar, que nesses três aspectos, o que se torna evidente, é a aceitação e o conhecimento a respeito da doença e das pessoas. A ignorância, gera o preconceito, que por sua vez, gera a morte. Estar com um aidético não mata. Aceitá-lo não mata, pelo contrário, ajuda em muito a sua longevidade. No fim, o corpo sarado e atlético, a sedução dos lábios e olhos, esbarra-se na força de uma doença que não tem volta. Uma pequena afta na boca, pode ser para um deus-grego, o pecado mortal.
Não é só o medo que se instala, quando deparamos com essa realidade. Não deve ser apenas, o evitar “aquela” pessoa ou evitar “aquelas” pessoas. Nunca conseguiremos. Nós não sobrevivemos sozinhos. Em pouco tempo, a AIDS estará em nossa casa, em nossos amigos. Em pouco tempo, bons amigos nossos podem ser ir ou podemos ainda nos encontrar no velório de um deles. Ainda não tem cura para esse mal, mas ainda se pode evitar a doença, sem contudo evitar as pessoas. Com certeza, não há cura para o nascer e o morrer, a não ser saborear o intervalo e saborear da melhor forma possível.
Paulo Veras é Psicólogo Clínico, Analista em Goiânia.