Quem já passou por aqui?

segunda-feira, 12 de março de 2012

QUEREMOS SEMPRE IDEALIZAR O PASSADO?

Quando posso, fico observando o comportamento das pessoas, suas falas e atitudes, nossos atos e significados e cada vez mais me convenço de que, queremos sempre repetir o passado, ou quem sabe, refazê-lo de forma melhor. O passado é sempre belo, mesmo que ele não nos traga as melhores lembranças e sensações. Quanto mais distante ele fica, mas saboroso o é!

Estamos sempre à procura do novo, do atual, do ainda encantandor, mas a verdade é que a vida é como já foi um dia. Ela era melhor antes? Vem se tornando mesnos saborosa? Queremos sim, ser felizes, ter família grande, ser aceito na sociedade, ser reconhecido, ser amado por alguém. A família que queremos por exemplo, é aquela ainda feita de pai, mãe, irmãos, cachorro, gato, plantas, barulho, e essa família, está cada vez mais rara. Ficou registrado na história somente. 

Queremos mesmo que o passado volte, quando pensamos em crianças que brincavam mais, eram mais criativos, usavam o que tinham e brincavam o dia inteiro. Ir a escola, era de fato um processo de aprendizagem e não, em grande parte, um risco de vida. A gente prefere o passado, quando a adolescência era de fato vivida e não somente inventada e ir ficando adulto, era um acontecimento e não um simples trocar de idade. 

Nossa saudade é mesmo construído de um passado sem tanta violencia, do pique esconde na rua, das igrejinha do interior, das festinhas só com conhecidos,  da comidinha caseira e cheirosa da avó. Passado que hoje podemos atestar: Quanta sabedoria tem os nossos avós, ainda que muitas vezes, analfabetos. O passado que queremos refazer, era cheio de energia, de gritos e barulhos, de abraços, de pequenos presentes e de grandes agradecimentos. Passado bem mais grato.

As músicas do passado, eram melhores? As cores e cheiros eram mais saborosos? Os preconceitos eram menos cruéis? As pessoas se cumprimetavam mais? Educar era mais fácil? Sem duvida há um passado que é um presente colocado a todo momento em nossa vida e recusá-lo por der um presente que deixamos de ter e que nos machuca. Esquecer o passado é talvez, não ver um futuro que nos convida a todo instante e que  nos envolve a construí-lo. 
 
As amizades eram mais sinceras? Os relacionamentos duravam mais? As pessoas eram mais verdadeiras? Reinventar o passado e fazê-lo acontecer de novo, seria pedir que as pessoas se respeitassem mais, que a figura do vizinho voltasse a existir, que os valores que nossos avós nos ensinaram continuassem a existir e que cada vez mais, a gente imitasse nossos pais.

Os erros que cometemos no passado, sempre são aqueles que esperamos não comenter de novo. Mas até esses, parecem que as vezes, gostaríamos que acontecessem novamente, so para zerarmos o cronometro e refazer uma nova história. Como no passado, evitamos o sofrimento, perseguimos a felicidade, somos obstinados pelo sucesso e todos os dias, estamos na frenética briga pela sobrevivência.  

Tal qual no passado, nós só queremos viver o presente sem rasgar o embrulho que a vida o embala.
 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.  

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PONTO DE REFERÊNCIA


"O que você quer ser quando crescer?" Se não fizemos essa pergunta, por certo, alguém nos fez. Hoje, é mais raro se ouvir isso, acredito ao numero de ocupações que os pais possuem e com isso, o tempo que deveria ser dedicado aos filhos, fica pra depois. Ou será, que na falta de referência dos pais, essa pergunta fica inviável? Outro dia, ouvi um filho perguntar: "O que você virou, depois que cresceu"?

Momentos assim, eram de suma importância, porque nessa troca de valores, ia se criando na criança, o que chamamos de referência, que a rigor, deve ser primeiramente os pais. São eles, que quase sempre viram nossos heróis, o motivo maior de nossa admiração. Entenda-se por pais, aqueles elegidos de fato, como tais e não somente os biológicos.

Mas o tempo passa e chega um momento, que precisamos tomar decisões mais sérias e é aí que precisamos levar em conta algumas referências. Algumas delas, criamos lá atrás, geralmente em nossa infância, com as nossas relações, com a aceitação dos ideais que vamos planejando para uma vida inteira. Só notamos o peso delas, quando nos deparamos com a realidade imposta, com o curso que não conseguimos mudar e até mesmo com aquilo que teremos que nos adaptar.

Porém, é assustador hoje, o número de pessoas vivem sem uma referência se quer, um norte ou um exemplo a ser seguido. As pessoas, tornaram-se auto suficientes demais e dessa feita, donas de si. Pautam suas vidas, a forma como se divertem, as relações de amizades e amorosas, no vácuo e por isso, quase sempre erradas. É quase inaceitável nos dias atuais, a quantidade de opções que temos e em contra partida o excesso de decepções e frustrações.

Fico pensando, em adolescentes que tomados por uma especie de alucinação, acampam até 15 dias na porta de um estádio, abandonando um série de outros afazeres, para verem um show musical, que trocando a miúdos, não agrega quase nada. Quando não, são abduzidos de uma esteria tal, que desmaiam, choram, machucam-se, sofrem sobremaneira emocionalmente e a pergunta que fica é? Para que? Que referencias são essas? Pra onde vamos? Ainda temos casos de "ídolos" e de modelo de vida, admirados no mundo todo, que chega no mínimo a assustar. Eu me pergunto às vezes: O que esperamos para o futuro? Quem esperamos ser no amanhã? 

Penso, que poucas décadas atrás, esse referencial era diferente. Não sei se estou errado, mas o conceito de amizade tinha outro significado. Diversão, era de fato diversão e o ponto para divertir-se era carregado de outras emoções e de outros signos. Até mesmo a felicidade partia de outro princípio e mesmo com o pouco era possível ser feliz. Desculpem se parecer piegas, mas essa fase foi mais gostosa do que a de agora. 

Hoje, temos o excesso de muitos valores; hoje o novo fica velho rápido demais; o importante logo deixa de ser e o que satisfaz, em poucos dias passa a ser incapaz. Com isso, as referências desaparecem e as frustraões disputam lugar com o vazio e o nada. Há muito barulho e pouco conteúdo. Há muita relação e poucas pessoas felizes. Há muito contato e poucos amigos. Há muitos ideiais e pouco de concreto. 

Eu sei que o tempo passa, que evoluímos, que a tecnologia toma lugar, que o atropelo do capitalismo nos consome e que somos forçados a viver de tal modo, que só o fato de estarmos vivos já é um grande feito. Mas não devemos esquecer, que quando estamos buscando por um endereço, o ponto de referência faz com que o encontremos mais depressa. É através do ponto de referência que o endereço se torna mais lúcido. 

Pensemos nisso!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.  

sábado, 6 de agosto de 2011

DEPOIS DOS 30...

Não. Hoje não é meu aniversário, nem se trata de homenagear alguém que o faça hoje. Mas já passei dos trinta e gostaria de pensar um pouco sobre como nos sentimos após essa idade ou após eles. Nós mudamos nossos comportamentos e nossa forma de enxergar a vida, mas nem sempre nos atentamos ao que ganhamos de bom com tantas mudanças. 


Geralmente é só depois dos trinta, que passamos ver a família sob outra ótica. Seja os pais, irmãos, avós, filhos. A impressão que temos é que nessa etapa, essas pessoas passam muito mais a ter qualidade em nossas vidas, do que necessariamente o quanto eles estão presentes em nossos momentos.  Nessa mesma época, Deus e/ou religião passa a ter outro sentido, outro valor e cada um vai criando consigo, à medida que consegue suportar o seu "religare".


É verdade que depois dos trinta, algumas feridas doem mais, são mais agudas e algumas lembranças batem mais fundo e até algumas dores demoram mais a sumir. Em contrapartida, outros pesos e medidas que sempre levamos, passam a ter outro fardo, outros significados. Ficamos mais sentimentais, mais sensíveis, mais tocáveis. Trocamos preço por valor e valentia por ousadia.

Somente após os trinta é que damos valor de fatos às amizades. Será? Poucas na verdade, mas valorosas! Mas aprendemos a distinguir o que é ter alguém por perto e descobrindo junto com isso, que há pessoas que podemos contar, mesmo se esta estiver longe. No campo profissional, parece que é aps esses anos, que começamos a andar com as próprias pernas, que começamos a descobrir de fato o que gostamos de fazer e claro, a conquistar nosso espaço e fazer nosso nome.

Após os trinta, aprendemos a ouvir mais, a falar melhor, a agir com mais cautela, a descobrir com mais prazer. As dúvidas são mais elaboradas, as incertezas mais amenas, as certezas mais cruciais, os medos bem menores, os planejamentos mais sólidos e os cheiros mais apetitosos. Dizem que as viagens são mais saborosas, as bebidas possuem um outro sabor e a maioria dos nossos atos passam a ter significados e ressiginificados.

Será que o grande amor, vem mesmo só após os trinta? Antes, temos tantas idas e vindas, voltas e recomeços e parece que tudo isso faz parte do dia a dia. Mas chega um momento, que ter um grande amor é necessário, não somente porque precisamos fugir da solidão, mas porque precisamos ser o grande amor de outro também. É com esses anos, que podemos escrever uma história impregnada de muitos fatos históricos, acontecidos alí atrás, alí, antes dos trinta. 

Se é verdade mesmo, é após os trinta que descobrimos pra valer o poder da auto estima, da segurança pessoal, o que nos desata de alguns nós que pegamos na adolescência. Sem dúvidas, é após os trinta, que passamos a cuidar da saúde com intuito de ter saúde e não apenas vaidade. Nessa época, começamos a entender que se é balada por balada é melhor ficar em casa e que lugares são feito de companhias. 

Mas que data mágica é essa, que para alguns é contagiantes e para outros nem tanto? Do que foram feitos esses dias que construíram os trinta que se foram e ainda juntam-se a vários que ainda estão por vir? Que material é esse, que nos prende e tem sabor mais agradável do que desagradável? 

Pense um pouco no que você fez dos seus trinta anos. Estamos vivendo mais de sabores ou de dissabores?


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

AMIZADE EM ALTA RESOLUÇÃO

É sabido por todos, que sem amigos não vivemos. Concordamos em dizer, que a amizade é essêncial para o desenvolvmento humano e é através da construção social que vamos nos formando como seres humanos. Acredito que não há quem discorde, que é nas amizades que vamos nos fortalecendo e nos tornando melhores sempre que temos a oportunidade. 

Cada um, possui em sua formação, a definição do que seja uma verdadeira amizade. Cada um, defende e procura ter do lado somente bons e verdadeiros amigos. Sem dúvidas, o modelo e a fórmula que acreditamos nessa amizade, é fruto de uma construção que todos os dias se completa de fatos, cores, formas, cheiros e sabores. Até os animais, já ganham título de grande amigo do homem.

Os poetas não deixam de tocá-la em suas canções, versos e poesias. A história impregina-se de grandes feitos e obras pautadas na amizade. As crianças, desde sua tenra idade, são ensinadas sobre a importância desse sentimento. Até dia em calendários, a amizade possui e é nesse dia que louvamos-a com muito mais fervor. 

Mas afinal, o que é amizade? Em dias onde cada vez mais, construímos muros e não pontes, sabemos ao certo o que é amizade verdadeira? Os conceitos com os quais definimos a palavra amizade e de fato o conceito ideal? Essas perguntas, possuem cada um ao seu modelo, uma resposta ímpar, pessoal e marcada de práticas e acontecimentos.

Seja do  grego ou do latim, amizade devira-se de amigo, amor, afeto ou afeição. Amizade na prática, deve ser amor, afeito, afeição. Os ingredientes de uma verdadeira amizade, concretizam-se em crescimento, lealdade, maturidade, alegrias, dores, verdades... Seja por sobrevivência, defesa, proteção, vaidade ou simplesmente fuga da solidão. 

Há amigos classificados como melhores; necssários; conselheiros; de baladas; da igreja; de estudos; de confidências; de assuntos profissionais; amigos que nunca fomos em sua casa e eles nunca foram na nossa; amigos de carona; amigos de redes sociais;  amigos de família; amigos por interesses; amigos que não significam muito; amigos que so aparecem quando precisa; amigos que nunca aparecem quando precisamos; amigos de viagem; amigos de academia; amigos da horas difícies; amigos de risos; amigos do perdão; amigos que ficaram na infância; amigos de nossa nudez e fraqueza, amigos, amigos...  Qual o seu nível de amizade?

Sem dúvida, a amizade é uma a relação mais comum entre os seres humanos. Solteiro, casado, viúvo, sozinho, solitário, doente... sempre haverá um amigo por perto, mesmo que seja você mesmo, o seu amigo.

A amizade a que me refiro é em alta resolução, mas nítida, mais verdadeira e sem distorções. Numa sociedade de solitários, torna-se vital, a construção de verdadeiras e sinceras amizades. Numa amizade em alta resolução, a qualidade é mais importante do que a quantidade. Em tempos onde coisificamos as pessoas, uma amizade verdadeira precisa dar de novo, o verdadeiro sentido do "Ser Amigo", ao invés de "Ter amigos".

Para que haja uma amizade da qual me refiro, é importante que pensemos em que tipo de amigo temos sido, ao invés de cobrar que tipo de amigo são conosco. É justo que repensemos que atitudes nos atestam como melhor amigo, do que perguntar quais comportamentos esperamos do "melhor amigo". Uma amizade verdadeira, sabe completar ao invés de pensar no pagamento. Se é amizade sincera, mostro a importância do "ir", ao invés de cobrar o "vir". Se é amizade em alta resolução, é melhor apontar a partilha e elaborar o crescimento, do que abafar a dor e fazer prosperar a ilusão.

A teoria é muito pouco. Amizade é prática. Que tipo de amigos somos nós?


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A GENTE SE ACOSTUMA...

Já notou como a gente se acostuma facilmente com hábitos e comportamentos? A rotina nos enfada de tal modo, que ela se torna familiar rápido demais e me pergunto como seria nossa vida se tudo que fazemos não estivsse acompanhada da velha e inevitável rotina. Nos apegamos fortemente ao mesmo itinerário, que não mais tê-lo, trata-se de um corte, uma cisão que geralmente dói muito.

A gente se acostuma a dormir tarde, acordar cedo com o mesmo toque no despertador, escovar os dentes quase sem ver, tomar um banho rápido e engolir um café manhã, quando não comemos no trânsito. Acostumamos aos engarrafamentos, aos sinais fechados, às fechadas dos veículos, a ouvir as mesmas músicas, nas mesmas rádios e ao som turbulento do dia a dia.

A gente se acostuma a comer sem tempo, ao mesmo restaurante, sentando na mesma mesa, escolhendo o mesmo cardápio e quando não tem o que já estamos acostumados, nos alimentamos mal. Acostumamos a esperar o outro, a ser complacente com o atraso, a atrasar em nossos compromissos e assim, acostumamos às 24h que passam voando sempre.

A gente se acostuma a engolir sapos, a não receber elogios, a não ser reconhecido, a esticar um pouco mais no trabalho, a fazer as mesmas tarefas e no surgimento de uma nova, sofremos e sofremos... Acostumamos com a mesa no mesmo lugar, o telefone barulhento, o ar condicionado muito frio, às mesmas pessoas sempre do mesmo jeito e com as cobranças sem fim.

Acostumamos a receber um "não", a levar foras, a beijar sem sentimento, a curtir as baladas com o mesmo som, a mesma luz, os mesmos rostos, as mesmas bebidas. Acostumamos a nos "divertir' mal e acostumamos a dizer que foi bom. A gente se acostuma a ficar, ficar... a fingir que ama, a fingir que tá gostando, a ficar sozinho, a conviver com a solidão disfarçada de "estou bem". A gente se acostuma com as pessoas, a não lhes prestar atenção, a nao dar e nem receber carinho.

Nos acostumamos a não dar bom dia, a não sorrir, a não nos comprometer com o outro, a não pensar coletivamente. Nos acostumamos com o medo nosso de cada dia, com a ingratidão comum e diária. Acostumamos a não agradecer por quase nada, a não ver as flores do caminho, nem as lacunas dos concretos. Acostumamos com a política, com a corrupção, com as traições e infortúnios.

Acostumamos a ir ao médico só na emergência, a planejar sonhos que quase sempre não se realizam, à garganta que não sara, a não tomar água o suficiente, aos calos nos pés, à barba por fazer. Uma pena que nos acostumemos com as dores sentimentais, com o dia a dia cinzento e nublado, com a insalubridade de algumas amizades, às dietas sem efeitos e sem fim, aos flanelinhas pedindo notas, às contas que vencem todo mês, aos natais insosos e familiares.

Acostumamos a chorar, só quando perdemos. A dizer eu te amo, quando quem deve ouvir não ouve mais. Acostumamos a dar buquês quando morrem ao nosso lado e acostumamos tanto à vida que nunca vemos a importância de uma pequena flor em vida. 

Acostumamos a acostumar. 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

domingo, 12 de junho de 2011

ESPERE POR MIM

Quando anoitecer e o silêncio solitário tomar conta da escuridão sem fim, espere por mim. Não sei se ao amanhecer ou ainda na negra noite eu chego, mas tenha certeza de que voltararei. Quando as estrelas estiverem por cima das nuvens negras e o frio assolar seu corpo, mesmo assim espere por mim. Quando a solidão for a sua única companhia, ainda assim espere por mim.

Quando suas esperanças se esvairem e o medo sacudir sua força, colando em cheque sua coragem, espere por mim. Não saberei ficar longe de ti e mesmo que eu demore, um dia voltarei. No dia em que a primavera terminar e teu horizonte perder a cor e o brilho, não desista de me esperar, pois um dia voltarei a ti.  Se as flores do nosso jardim murcharem e terra árida não deixar que nenhuma delas mais brotem, continue a me esperar.

Quando as pessoas e os amigos te disserem que morri e que nunca mais me verás, não acredite: Um dia voltarei. Mesmo se as lembranças forem cada vez menores e o hoje cada vez mais sufocar os dias que ficaram pra trás, não desanime, pois eu voltarei. Quando nos teus sonhos eu não mais comparecer e os planos que fizemos outrora não tiverem mais sentido, por favor, não deixe de me esperar, porque eu voltarei. Confie!

Com o passar do tempo é normal que a saudade diminua e que minha lembraça seja substituída em sua memória, mas rogo-te, espere por mim. Pode ser que os livros, fotografias e objetos deixem de ter o mesmo significado de antes e que o voce não os revire mais. Porém, mais uma vez peço-te, que espere por mim.

Mesmo que o tempo apague o meu perfume que você sempre teve, ou que seus lábios não sintam mais o sabor dos meus beijos, não deixe de me esperar, porque eu voltarei. Não deixe de sentir o susurro dos meus lábios aos seus ouvidos, nem de sentir o toque dos meus afagos cuidadosos em seus cabelos, pois ainda que eu demore, mesmo assim, voltarei.

Eu voltarei. Não sei se no outono ou no iverno, não sei se cansado ou disposto, nem se estarei alegre ou triste. Voltarei mesmo que velho e fraco, talvez aos prantos ou com alegria, mas não deixarei de voltar a ti. Se breve ou ainda demorado, se no dia ou na noite, mesmo que seja apenas para te ver, eu voltarei. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

AMIZADES VERSUS CONTATOS

Em dias que tanto se precisa de verdadeiras amizades, elas somem cada vez mais. São nesses dias, onde a solidão impera com força maior, é que o sentido verdadeiro da palavra amigo, se torna cada vez mais sem sentido. Os laços que deveriam se fortalecer em dias de carência, são substituídos por contatos. Apenas contato. Ouvir dias atrás, alguém dizer, que não tem muitos amigos, mas tem uma gama enorme de contatos.

Não quero que você pense, que o bom é ter muitos amigos. Não pense que, a quantidade deve sobrepôr à qualidade. Apenas pensemos no que é amizade, sem quantidades, sem números. A amizade por ela mesma, já é um tesouro e convenhamos que um tesouro não se acha em todas as esquinas. Contatos são leves, feitos de esbarrões, favores, cumplicidades e na maioria das vezes são construídos de forma horizontal, ou seja, sem muitas raízes. Os contatos nascem do nada e não raramente sabemos de onde vieram, quem os trouxe ou o que significam pra nós. Significado: Uma palavra que os contatos não sabem muito o que quer dizer. Os contatos valem até certo ponto, servem até certo ponto e até certo ponto nos preenchem. Mas não possuem muito significado. 

A construção de uma amizade, se faz com alguns ingredientes que os contatos não nos oferecem. Contatos são bons? Claro. O sabor é que é o complicado. Quando precisamos de um contato, não podemos contar muito; se nos magoam as marcas são de um profundo maior; se procuram a nós, são com várias intenções; se nos querem do lado, são apenas nos momentos bons  para eles. Numa amizade sincera, muda o contexto; o texto é diferente. Amizade de fato é contruída de forma vertical e por isso, com raízes mais profundas. Amigo, se dispõe a ir, sem mesmo ser chamado. Este, vai contigo na balada sorrindo, mas também estará contigo na dor, se for preciso. Amigo também nos magoam, sem dúvidas, mas há um porque nisso. 

Os contatos são apenas contatos. Amizades não são apenas feitas de contatos. Vejo hoje, as pessoas com muitos contatos. As baladas e as ocasiões festivas estão lotadas de pessoas sorridentes e que curtem um bom contato. Cada vez mais, temos contatos nos meios de comunicação social, e cada vez menos as pessoas ouvem umas as outras, prestam atenção umas nas outras e sentem o que cada um sente. Os contatos geralmente querem somente tomar a champanhe, tirar as fotos e curtir as conveniências. Não me parece ser ingredientes de uma boa amizade. 

Pena que as amizades verdadeiras estejam em extinção. Você consegue enumerar cinco bons amigos? Não aqueles que são coniventes com você, mas aqueles que são amigos sendo eles mesmos. Acredito que com a velocidade do tempo, ele não nos permita criar laços, arregimentar relações e criar afetos. O tempo é tão escasso, que hoje, ficamos ao invés de namorar. Damos um oi ao invés de conversar. Temos contatos ao invés de amizades e por aí vai. A verdade é que os contatos se vão muito depressa. Geralmente duram o tempo do verão, da balada, da onda e da ocasião. Talvez seja por isso, que as pessoas andam solitárias, vazias, reclamando da solidão, do tédio e do "sem sentido". Nessas horas é que as amizades verdadeiras aparecem, afinal é nessas horas que mais precisamos delas. 

Sugiro que mantenhamos os contatos, mas sobretudo que construamos as verdadeiras amizades, mesmo que sejam poucas. Não esqueça que a verdadeira amizade é tesouro e tesouros estão cada vez mais raros.


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

sábado, 30 de abril de 2011

SOMENTE HOJE


Somente hoje, prometo ser feliz com o que tenho e da forma que sou. Não preocuparei com o que pensam e falam sobre mim. Serei feliz. Somente hoje, não preocuparei tanto com a vida das pessas e com o que elas fazem com aquilo que tem. Preciso entender, pelo menos por hoje, que as pessoas só fazem aquilo que conseguem e algumas não conseguem muito. Somente por hoje, quero crêr, que todos somos iguas e que mesmo assim, cada um é único.

Somente hoje, fecharei a porta ao medo e à insegurança, que muito me prende na realização do que planejei. Prometo entender de uma vez por todas, que o amanhã nem sei se virá pra mim e o ontem já não está mais no campo dos meus domínios. Só por hoje, quero amar sem medo de sofrer e sem vergonha de ser ridículo. É necessário entender, que quem ama, nunca é ridículo. Só e só hoje, quero ser amado sem medo de ser sufocado e sem a vergonha de ouvir um "eu te amo".

Somente por hoje, farei o bem sem olhar a quem. Mesmo que seja uma única ação, preciso me perguntar sempre: Que ando fazendo de bom? Apenas por hoje, preciso cultivar minha liberdade e minha independência, não esquecendo que a liberdade é um bem maior que a vida e a busca por ela é para um legado vitalício. Somente hoje, preciso acreditar que há pessoas boas ainda e a estas, preciso cultivar a palavra rara amigo. 

Somente hoje, fecharei a porta do desprazer e do rancor. Ainda hoje, abrirei as portas do prazer e darei lugar ao àquilo que de alguma forma me constrói e me faz bem. Somente hoje, tentarei entender, que chorar faz parte da vida e muitas no riso é que de fato afogo as mazelas que todos também possuem. Que seja hoje, o momento de entender que familia faz bem sim e que no fundo é deles que esperamos o socorro. 

Ainda hoje, prometo prestar mais atenção nas pessoas que estão à minha volta e aprender que relações se constróem também de aceitações e renuncias. Internalizarei ainda hoje, o verdadeiro sentido da palavra relação e por em prática a ação: deixo livre aquilo que amo. Preciso relembrar hoje, mais uma vez, que nem todos que consideram amigos, devem me ver chorando.

Somente por hoje, trabalharei pensando em segurança e não no pesado fardo do labor. E por hoje, planejar um futuro menos incerto possível, menos dolorido e o mais longo que puder. Somente por hoje, conscientizarei que juventude passa, mas posso escolher permancer jovem por mais tempo.

Que seja apenas por hoje, mas que seja certa, a escolha entre vender o lenço e chorar. Ainda por hoje, prometo aprender que, decepção não mata e que ser deixado pra trás, pode ser a salvação do acidente maior que vem vindo. E hoje ainda, quero descobrir, que nas quedas é que aprendemos uma forma nova de se levantar e que muitas vezes, pra aprender a dançar é necessário ter calos nos pés.

E que seja hoje, o encontro da calma que todos nós buscamos; a euforia que é sempre bem vinda; o calor que sempre aquece; o olhar que congela. Se for hoje, que seja verdadeiro, profundo, intenso, vertical. Se é pra ser hoje, que venha pra ficar. Quando for, que vá de uma vez e quando lembrar, que volte. E ainda por hoje, que prevaleça a tolerância,  o equilíbrio, a cor, o respeito, o desigual formando o "todo".

Somente hoje e que o hoje, seja pra sempre!  


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

UMA VEZ NA VIDA, SÓ ACONTECE UMA VEZ



Eu me pego aqui pensando, nos acontecimentos que vivemos e que talvez nunca mais iremos vivenciar. Me refiro a fotos, que são únicos e que geralmente não nos damos conta que eles nunca mais irão ser repetir e por isso mesmo não damos o devido valor. Oportunidades e chances que nos escapam; momentos e emoções que não vivemos; desejos e sonhos que não concretizamos, tudo porque, uma vez na vida, só acontece uma vez.

Me refiro a um tipo de olhar, que sabemos perfeitamente que foi único e que a forma como ele aconteceu, talvez nunca mais aconteça. Sabe um amizade forte e verdadeira que se firmou com o tempo e que por mais que tentamos, raramente encontraremos alguém pra chamarmos de amigo? Amigos pra uma vida inteira. Me refiro a um tipo de abraço, que dependendo da situação em que nos encontramos, ele nunca mais se repetirá.

Consegue imaginar, que há certas ocasiões, que, vão se repetir, mas mesmo se repetindo, não serão com as mesmas intensidades, verticalidade e emoção? A colação de grau, o nascimento do filho, o casamento, o inesperado velório, a viagem, o aniversário, o beijo, a primeira vez, o encontro desencontro, o susto e até mesmo a despedida, o primeiro dia na escola, o primeiro emprego, o primeiro carro, o primeiro tombo na tão sonhada bicicleta, a dor da rejeição, a lagrima doida e solitária...

Uma vez na vida, acontece de tal forma, que nos surpreende ou nos decepciona. Que bom! As poucas certezas que temos na vida, tem a tendência a nos confortar, pois é com elas que quase sempre traçamos o futuro. É uma pena, que raramente em nosso dia a dia, temos a consciência, de que, o que acontece agora, pode ser a única vez em nossa vida. Perdemos muto em não ser intenso, verdadeiro, completo... e o que dói, é saber depois, que, foi só uma vez na vida. O tempo nunca mais volta.

È exatamente porque uma vez na vida, tivemos um grande e verdadeiro amor é que nos propomos a amar novamente. É exatamente porque, uma vez na vida encontramos um grande amigo, que nos propomos a valoriza-lo na intensidade dessa relação. Quando descobrimos que nossos pais, só temos uma vez na vida, é que fazemos o compromisso de ser o filho que eles esperam, na medida que conseguimos ser. Descobrimos, só com o tempo, que o material com que nossos pais são feitos é raro e cada vez mais extinto.

Por outro lado, a certeza de que, as mancadas que fizemos em nossas relações, fazem nos ter força, para nunca mais fazê-las na vida. As decisões que tomamos e muitas vezes de solavanco, nos fazem pensar, que nunca mais na vida, queremos cometê-las. Se analisarmos bem, entenderemos que algumas falas e atitudes que foram feitas, não devem ser repetidas, nenhuma outra vez na vida. Vamos entendendo que crescimento é vital e ser criança, no sentido literal, só é bom uma única vez na vida.

Uma vez na vida, esbarra-se nos medos, certezas e incertezas que fazem a vida acontecer. Viver é descobrir depois, e talvez em um breve espaço de tempo, que vivemos em função do outro e que é também construir aquilo que acontecerá somente uma vez na vida.

Aproveite a vida. Ela só acontece uma vez.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO

quinta-feira, 10 de março de 2011

PESSOAS MELÃO

Banalizar as pessoas como frutas, tem sido uma constante na mídia e nos meios sociais. Hoje, vemos morangos, melancias, bananas, peras... e uma infinidade de outros adjetivos. Cada vez mais, coisificamos os seres e damos vida às coisas, isto é, cada vez mais o futil ganha vida, em detrimento do útil.

Mas se analisarmos com cuidado os nomes que se colocam às pessoas, encontraremos que há muita verdade nisso.  E queria que pensássemos nesse esrito, em um certo tipo de pessoas que todos nós cohecemos. Aqui, coloco o nome de pessoas melão, porque são sempre embotadas de vida, sabores e cor. O melão quase sempre é assim. 

Há pessoas que nos rodeiam, que quase sempre não agregam nada com sua presença, cometários e opinião. São facilmente esquecidas pelas pessoas e quase sempre, sufocadas por outras. Essas pessoas, possuem uma dificuldade enorme em expressar seus sentimentos e emoções e por isso mesmo deixam de lado a oportunidade de marcarem com sua presença, a vida de uma pessoa.

Existem vários comportamentos que fundamentam uma pessoa com atitudes de melão, assim como há várias formas de se cultivar melões. Um bom melão, se conhece pela cor, formato, cheiro e peso. Assim são as pessoas.  Precisam de cor, textura, vida, sabor, cheiro, envolvimento... Não estou afirmando que melão, seja a pior das furtas. Quero dizer que  a calda e a carne suave do melão, fazem com que ele tenha muitos adeptos. Para os melões humanos há também os que prezam e partilham suas mazelas e vitórias. 

Viver e relacionar, exige uma decisão de peso maior. Passar pela vida somente não deve ser permitido para pessoas que querem ser muito mais que melão de fim de feira: sem cor, sem preço, sem sabor e machucados. Pessoas melão, tem o prazer de nunca serem intensos: não choram muito, não gozam muito, não perdem nada, mas também não ganham nada. Por medo de perder, não arriscam; por medo de sofrer por amor, evitam amar. Por medo de desafios, não abrem mão do antigo emprego. Por medo do preconceito bobo, nunca dizem sim ao novo e ao desconhecido.

Pessoas assim, acabam sendo mistura do melão com presunto em um insólito café da manhã. Se contentam com a calda espessa e rala que a vida nos oferece todos os dias, em rodas e bate papos sem fins; em utopias que nos cegam sem valores e por fim, nas amizades que nunca somam, nem agregam valor à nossa constituição de ser.

Melão não, obrigado! 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.
 

domingo, 30 de janeiro de 2011

O MASOQUISMO NOSSO DE CADA DIA

Que todos nós somos frutos de uma industria cultural manipuladora e que as nossas reações frente a essa manipulação, como humano, é inegável, todos nós já sabemos.  Inclusive, foi Adorno, que disse que nosso inconsciente sofre essa repressão da "cultura" a que somos submetidos. É essa força, que determina geralmente, o que vamos usar, comer, sentir, desejar, pedir, como vamos nos comportar e até mesmo o que vamos achar certo ou errado, bom ou ruim. 

Isso é fato. Somos frutos de um meio, de um poder industrial. Mas o que assusta mesmo é  pensar que as pessoas sentem prazer (e forte prazer), frente a essa manipulação. As atrocidades e mazelas dos nossos dias, nos enchem quase sempre de prazer, de gozo.  O sofrimento alheio e a dor que sabemos que eles sentem, nos deixam excitados e altamente ligados ao acontecido em questão. Eu sei, parece absurdo o que você está lendo! Eu também penso que é! 

Para recaptular, masoquismo é uma tendência ou uma prática, pela qual uma pessoa busca sentir prazer quando vê sente dor ou apenas ao imaginar que sente.  Está ainda ligado  a uma uma forma de expressão sócio-sexual coletiva ou individual.

São os casos mais cruéis e sanguinários que nos atraém na programação da tv. São nos "barracos" que vibramos e torcemos para que um lado saia campeão. São as narrações mais dolorosas que nos convidam a praticar o nosso sentimentalismo, sejam ele de solidariedade, ou de  prazer. Isso se explica, quando lemos e vemos os altos índices de audiência, quando há as coberturas de tragédias, sangues e dor. São nas séries de Jogos Mortais que vibramos e comentamos com avidez. Os filmes melosos demais, nos dão sono. São sem graça. 

Por certo, somos todos ambivalentes, no que se refere aos nossos sentimentos. Isso quer dizer, que podemos ser solidários e masoquistas em um único acontecimento. Esses dois sentimentos ficam de plantão sempre e são convocados quando nos deparamos com algo que nos assuste ou nos impressione.  Freud falou melhor sobre isso. Quando escreveu sua magnífica obra O mal estar na civilização, escrito por volta de 1930, ele disse que duas forças opostas nos regem. São instintuais: o instinto de vida e o instinto de morte, isto é, Eros e Tanatos.

Ainda para ele, os instintos é que expressam as nossas necessidades e sabemos que as necessidades só se realizam com a satisfação. Vamos entender isso melhor: alimentar é uma necessidade, assim como fazer sexo. Por outro lado, agredir, destruir, matar ou ainda, assistir a isso, também não deixam de ser. Porém, a civilização a que somos submetidos, fazem com que tais desejos sejam freados e reprimidos. Reprimidos como? Pelas leis, por exemplo. As leis tentam controlar e por ordem na sociedade. No entanto, a sociedade ainda recorre a guerras e conflitos para resolver a maioria dos seus probelmas, ou seja, recorre a seus instintos mais primitivos.

O masoquismo nosso de cada dia a que me refiro, está continda nos atos e nas ações que nem sempre podemos realizar, fruto das leis e normas que nos cercam. Mas elas estão ali, demonstradas em atos, olhares, sentimentos. Podemos por exemplo, não externar nosso preconceito a alguém, mas de certa forma o repugnamos por dentro.

Devemos ainda, considerar as causas sociais e econômicas da violência, bem como os fatores psicológicos e a falta de referência do que é amor para nos tornarmos a cada um dia um masoquista. Quando vemos um filme violento, uma notícia cruel... quando ficamos horas assistindo com interesse e curiosidade uma desgraça, ainda que com mal estar, estamos satisfazendo nossos instintuos destrutivos. Há sem dúvida, uma identificação muito grande do agressor com o espectador. 

Mas, sabemos que admitir isso é difícil. Seria muito, admitir tal sentimento e ser condenado pela sociedade, amigos e familiares. Sabemos também, que reconhecer o material que somos feito e que muitas vezes é sórdido e mau, também é complicado. 

Porém é mais fácil admitir que os filmes vendidos são os mais violentos do que admitir que temos um gosto por cenas violentas e que isso revela o nosso instinto agressivo. Se é ficção ou realidade não importa. O que importa é que é assim!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O DIA DE CORTAR O CABELO

Um dos acontecimentos marcantes em nossa vida, é sem dúvida o dia em que, quando criança, tínhamos que cortar o cabelo. Essa atividade na verdade existiu sempre, em especial nos meninos. Mas é só depois, e bem depois, que descobrimos esse dia. E aí a relação com a essa data começa a ser construída.

É normal que quase sempre, nós não nos lembremos desse dia. Talvez agora, com um pouco de exercício, possamos revisitar essa data, e perceber alguns por menores, que não percebíamos. Talvez hoje, outra forma fácil que relembrarmos essa data é assistindo um adulto tentando fazer isso com uma criança.

Mas era nessa tarefa que por certo iríamos ficar muito feliz ou por certo iríamos nos aborrecer e aborrecer outros. O cabelo -  o nosso cabelo -  que iam por as mãos, era algo que quase sempre não gostávamos. Os pais precisavam prometer balas e doces, para conseguir em poucos instantes, a quietude tão difícil para o pequenino. Para outros, esse dia era sinonimo de festa. A pessoa que ia cortá-lo sempre tornava-se o "tio" a quem depositávamos confiança.

Para outros, esse era um acontecimento digno de festa. Era um lugar, que era bom para ir com outros, e quando a família tinha mais de um filho, geralmente era uma tarefa coletiva e embora inquieto, cortar os cabelos era bom. Após, haviam os elogios e o reforço de que "ficou lindo". 

Outro fator curioso, e que reforçava a decisão de cortá-lo ou não, era  a posição da lua, que sempre era observada. Dependendo da fase que a mesma estava, era melhor não cortar. Até hoje, há pessoas que a observam. A diferença é que naquele época, nós não entendíamos porque.

Ainda havia um fator que hoje não se vê mais. O corte dos cabelos era feito por alguém que não era um profissional propriamente dito. Ele, a pedido dos pais, colocava o pequenino sobre uma cadeira e sem capa ou espelho, fazia o corte. Esse corte, era uma escolha dos adultos e só depois de pronto era nos dado um pequeno espelho para a avaliação. Pequeno mesmo.

Para uns, a impressão era de que os cabelos nunca mais iriam voltar a ser o que eram. O temor era de que no dia seguinte, iríamos ser alvo de críticas dos amigos na escola, na rua e com um corte, que até nós mesmos reprovava na maioria das vezes.

Dito isso, podemos pensar no cortar o cabelo de hoje. Talvez por conta desse dia de cortar o cabelo que ficou para trás é que pensamos nos valores atuais. O cortar do cabelo fala muito de uma pessoa. Os cortes e as formas, revelam muito. Hoje, não há mais o "barbeiro" de espelho pequeno e cada um de nós podemos escolher como usá-lo e como cortá-lo. Há aqueles que odeiam que toquem nos seus cabelos; há aqueles que amam que tocam; podemos ver aqueles que cuidam e fazem dele um aliado à sedução e há aqueles que deixam como estão. Até na religião, encontramos a força da fé, baseada no cabelo. Há os que penteiam, os que fazem cachos, outros que alisam, outros que deixam criar piolhos.

O tempo também pesa nos cabelos. Eles ficam brancos, outros desaparecem e há os que se enfraquecem demais. Há os que lutam para mantê-lo sempre vivo com cores das mais variadas e por outro lado, os que dizem que o charme é a cor que o tempo lhe dá. É impressionante como existe hoje cremes e mais cremes para todos os tipos de cabelos possíveis. 
 
O que trazemos de real, do dia em que cortavam o nosso cabelo? Porque esse dia marcante é lembrado tão pouco? Porque chorávamos quase sempre? Porque ás vezes sorríamos?  Porque havia o dia de cortar os cabelos?


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva e professor universitário em Goiânia-GO.

domingo, 26 de setembro de 2010

JUNTOS, PORÉM SEPARADOS

Não é raro ouvirmos queixas sobre queixas, de relacionamentos que estavam muito bem enquanto namorados, mas que acabou por se desmoronar quando casados. O que deveria ser a lua de mel, até porque deveria ser também o que se busca no namoro,  passa a ser frustrante. Não é via de regra logicamente, mas é comum que isso ocorra, ou pelo menos que as crises compareçam. Mas, cabe reflexão, para pensarmos o porque isso ocorre e mais ainda, descobrirmos quais as formas viáveis para se resolver isso. 

Um dos fatos mais notórios, é justamente a convivência diária e continuada. Em outras palavras, a intimidade que passa a ser dividida, como se obrigação fosse. Enquanto namoro, essa "caixa de segredo" chamado intimidade fica preservada e de certa forma protegida. Numa relação, agora de casados, é necessário aprender a dividir o que antes não se dividia; precisa aprender a compartilhar o que não se compartilhava; precisa aprender a ceder, o que antes não cedia.

Outro fator é o desgaste comum e inevitável, que todos nós estamos submetidos, quando convivemos com as pessoas por muito tempo. Claro, que quando temos um sentimento por alguém, a busca por este, é incessante. Porém, os acontecimentos tornam-se de grande proporção, quando estamos pertos demais. O exemplo mais claro para ilustrar o quero dizer, são as interpretações na fala, olhar, atitudes que comumente pensamos ser de certa forma, quando na verdade pode ser de outra. Exatamente pelo fato de irmos conhecendo um pouco mais uma pessoa que até pouco tempo, não compartilhava sua vida conosco e não dividia a mesma cama, e que, o que antes era novidade, agora vira rotina.

E por fim, ainda temos a dificuldade de fazermos o simples tornar especial. Geralmente, na fase do namoro, essa arte ainda é possível ser feita: simples gestos e encontros, tornam-se especiais. Um cinema, fim de semana com amigos, risos, o pensar no outro,  planejamento do futuro entre outras atividades, transformam o corriqueiro em especial. No casamento, isso vai aos poucos perdendo o sentido.

Dessa forma, podemos então pensar, que hoje temos muitos casais, que estão juntos, porém separados há tempos.  Porque? Explica-se isso em partes, no fato de não ter o sentimento que está só, ou ainda o sentimento de que não está separado. Sem dúvidas,  isso pesa muito em qualquer relação. Há muitos relacionamentos, em que os casais não estão casados. Estão separados fisicamente, emocionalmente, amorosamente, mas são dependentes da necessidade de ter alguém do lado, mesmo que isso não tenha nenhum significado. Em algum momento essa companhia serve para alguma coisa.

Outros fatores devem ser notados para que isso ocorra. Fatores tais como financeiro, social e pessoal. Para muitas pessoas, adaptar-se a viver uma vida de solteiro ou ainda, morar sozinho novamente é crucial. Por certo, você conhece alguém que sempre está em um relacionamento, pelo simples fato de não estar sozinho. Há pessoas, que ainda não aprenderam conviver com a solidão ou ainda, não conseguem dominá-la. 

Também é necessario dismistificar alguns sentimentos. Somente amor, de fato, não salva nenhuma relação. Há sentimentos que são parte subjetivos e espontâneos, partes construídos. Nenhum sentimento nasce pronto e continua pronto. Toda relação necessita de manuntenção para que continue existindo. E é chato fazer manutençao. Na manutenção é que coseguimos descobrir as "pequenas grandes coisas" e são essas, que precisam ser detectadas, juntos e/ou separados.

Contudo, estar juntos, - juntos - de fato, é essencial para fazer a felicidade de uns. É bem verdade também, que estando separados, é possível estar feliz também. A regra é simples: Junte-se quando o "seu todo", precisa do outro para estar completo. 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS: CASO JOYCE e LILIAN

É impressionante como vida e morte se confundem. Quase sempre andam juntas e frequentemente uma tenta tomar o lugar da outra. Nesse embate, sempre haverá uma vencedora e uma delas, é a que sempre queríamos que não vencesse.

Quero com isso relatar a história de duas mulheres, que muito recentemente travaram esse embate. Joyce e Lilian, duas mulheres em busca de um ideal comum: O transplante de uma órgao. Ambas, dispuseram-se a lutar em favor da vida, fazendo tudo que podiam para não entregar-se.

Joyce precisava de um rim para voltar a ter todo o vigor de sua vida. Para continuar trabalhando, sendo a mulher de força e fibra que sempre foi. Com um novo rim, ela queria continuar a ser o apoio e a referência da família. 

Lilian precisava de um fígado. Com ele, ela fugiria de um passado recorrente, onde familiares perdeu a vida, por falta de um. Lilian, além de cantora excepcional da Banda Voz da Verdade (www.vozdaverdade.com.br), era mãe de duas crianças e a esposa, grande companheira.

Com o apoio de amigos e família do lado, chegou o grande dia para ambas. Joyce, recebeu o rim do irmão e sua recepção não podia ter sido melhor. Sua vitalidade e a disposição, parecem atestar que a mesma nunca precisou da ajuda de um órgão para voltar a ter a vida que tem hoje. 

Lilian, também recebeu o seu fígado. Não teve a mesma aceitação que teve a Joyce. O organismo rejeitou. Um segundo fígado lhe foi enviado, mas em condições inferior. A batalha entre vida e morte continuava e infelismente quem venceu, foi a morte. Lilian nos deixou na madrugada do dia 04 de agosto. O choque em perder a Lilian, foi proporcional à alegria em não perder a Joyce.

A guerra por um orgão, que vale uma vida.

Acontecimentos como estes dois, só nos levam a refletir, quando temos os mesmos bem próximos ou dentro de nossas casas. São esses momentos, que nos faz pensar, no tamanho da importância que é a palavara doar. Doar, é a capacidade de dar algo nosso a alguém. Não se trata de vender, emprestar, ou apenas desfazer. Doar e dar, sabendo que no fundo ainda é seu, justamente porque, quem receberá continua sendo nosso.

Doar as pequenas coisas, já é um bom começo. Doar atenção, cuidado, tempo; doar cariho, um pouquinho do que sabemos, um pouquinho do que temos. Doar, não porque se sente obrigado, mas doar porque se sente invadido por uma causa. Daor sangue, doar plaquetas, doar medula, fica sendo um passo um pouco maior, por se trata de algo que ainda podemos dar, quando temos a capacidade de doar sempre.

Quando chegamos à grandiosidade de doar um orgão, como foram os orgãos de Joyce e Lilian, maior fica sendo esta dádiva. Digo dádiva, porque é uma das formas de trabalharmos a eternidade. É forma de manter aqui, aquele que já se foi, mas que fica, por que há um orgão pulsante no corpo de quem precisa. Saber que a possibilidade de vida existe e que naquele momento está contida em um orgão é algo chocante.

Com esse manisfesto, queremos dizer, que se você ainda não é um doador de órgãos, comece a pensar na possibilidade. Comece a jogar do lado da vida. Se você pode, doe sangue, doe plaquetas, cadastre-se num banco de sangue e entre no cadastro mundial de doadores de medula óssea. E ainda, se puder, doe seus órgãos e deixe que a vida continue aqui, através de você em outras pessoas.

Minha amiga Lilian, não teve o mesmo destino que minha outra amiga Joyce. Lilian amou muito a vida e nos deixou lutando por ela. A outra, continua aqui nos alegrando e ensinando que, viver é também um ato de doação.



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO

sábado, 10 de julho de 2010

PSICOPATAS


Impossível não refletir, em relação aos ultimos acontecimentos envolvendo o goleiro Bruno do Flamengo. São inúmeras as teorias sobre este assunto. Desde Freud, muito tem se falado em psicopatas, até as recentes descobertas no campo da psiquiatria e da neurologia sobre o processo que forma a personalidade, os conceitos sociais e morais, princípios éticos e comportamentais e, sem dúvidas, seus desvios ou desequilíbrios.

O psicopata possui um comportamento acima de qualquer suspeita. Na verdade, ele se comporta da forma que todos desejam que o faça. Sua conduta, é de uma pessoa honesta, que cumpre seus compromissos, que trabalha, que relaciona-se bem. Poderíamos dizer de forma simples, que a loucura do psicopata é sã, isso porque, ele jamais sente culpa. Não há nada que o incrimine, até certo momento. São sábios mentirosos, pois os significados de seus atos, são banais, simples e de fácil explicação. Matar um ou matar dois, não muda. Só muda a explicação.

Mas talvez, uma das características mais forte na personalidade de um psicopata, seja o remoroso. A palavra é latina, vem de remorsus, que significa tornar a morder, ou morder outra vez. Ou seja, o sujeito tido como normal, sentindo o remorso, evitar morder pela segunda vez. O sentimento do remorso, está ligado a satirizar, atacar, ferir, atormentar, torturar, magoar, dilacerar, etc. Pelos próprios significados da palavra, já temos uma vaga noção de como esse sentimento é. Com ele, há sempre uma mistura de dor, angustia, vergonha, adquiridos com a consciência moral, coisa que falta na personalidade do psicopata.

Outro fator que é chocante quando pensamos em comportamentos psicóticos, é o requinte e a elaboração que os seus atos são realizados. Não basta apenas satisfazer uma necessidade vital de realização. Essa realização precisa vir acompanhada de uma dose de show. Como não há normas que o limite, exatamente o limite é sua imaginação. Esse requinte, sempre nos deixa intrigados: Seja a frieza, o riso, o sacrifício, as palavras finais, o contar detalhadamente depois, a pose para as fotos, o colocar na mala, o esquartezar das vítimas, o estupro, o planejamento estratágico e outros infinitos casos ja conhecido por todos.

Possuem uma simpatia singular. São sedutores e o fazem constantemente. É a forma de atrair suas vítimas, que nunca são pegas de imediato. Há sempre uma dança de sedução, uma espécie de amadurecimento da idéia, para que esta aconteça de forma fria e cruel. Até nós, vendo de longe, somos fascinados por sua frieza, pela sua performance e por sua ausência de culpa. São dotados de um poder de convencimento sem igual. Sua envolvência, parece magia. São fáceis de serem amados. Eles conseguem por muito tempo, camuflar-se, coisa que o neurótico não sabe fazer. O neurótico, sempre se entrega, ou seja, eles sempre trocam os pés pelas mãos, usando um dito popular.

Socialmente falando, outro fator preponderante do psicopata é um forte traço narcisista. Se acaham únicos, superiores, imprevisíveis, sem escrúpulos, e claro, excessivamente egoístas. Notem que no caso Bruno, ele demonstrou forte preocupação, já tendo sido preso, em nao saber se iria ou não disputar a copa do mundo de 2014. Precisam de holofotes. São charmosos e dizem isso com o maior orgulho. Notem que, o psicopata possue característica narcisista, que muitas vezes, acentua-se mais, do que o próprio portador deste transtorno. Seu amor-próprio é tão elevado, que, quando querem ofuscar-lhes, eles matam, mandam matar.

Não podemos pensar erroneamente, associando psicopatas como violentos, insanos, cruéis e de fácil identificação. Por certo, convivemos com alguns deles, seja no trabalho, no círculo social, na igreja (sim, na igreja) ou nas instituições de ensino. Nem todo transtono de sociopatia está ligado a uma série de assassinatos, ou vice e versa. Se assim fosse, seria fácil fugir deles. Eles nos seduzem. Olham nos nossos olhos. Fazem teatro. Se precisar, eles choram. Em geral, os sociopatas possuem emoções, embora rasas e breves.

Dados mostram, que a cada 25 pessoas, 1 pode ter traços psicóticos. E que provavelmente é do sexo masculino, uma vez que esse comportamento é menor entre as pessoas do sexo feminino.

O que devemos lembrar sempre é que, como nos nossos desejos sexuais, uma vida em sociedade requer uma séria de repressões, negações e fugas de alguns instintos, muitas vezes primitivos. Portanto que bom, que sentimos remorso, culpa, que choramos verdadeiramente, que conseguimos pedir desculpas, que sentimos vergonha por alguns atos que julgamos errados. Santo não somos com certeza. Mas também não queiramos ser psicóticos.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista e professor universitário em Goiânia-GO