terça-feira, 23 de agosto de 2016

SE PRECISAR FORÇAR, É HORA DE TROCAR.


Essa devia ser a nossa máxima para a vida. Em todas as relações que construímos por ela, deveriam ser pautadas nessa proposta: Tá apertado? Troca! Tá forçando? Despacha! Tá machucando? Passa pra frente. Seria bom se fosse tão simples assim.

No dia a dia, com objetos e pequenas coisas que nos cercam, é assim que funciona. Os anéis, os sapatos, as roupas, todos eles são esquecidos quando percebemos um dia que aquilo não nos serve mais. Mas porque é tão difícil fazer isso quando o assunto são aqueles que estão em nossas relações e em nossos sentimentos? 

Já pensou sobre aquela amizade que há algum tempo não te acrescenta mais nada, que ela ainda existe porque você anda forçando nas ligações, nas buscas, nos convites e nas redes sociais? Tem percebido que está um pouco apertada e que parece que não te serve mais?  A única saída e trocá-la, deixá-la de lado. Amizades desconfortantes não servem para a vida. Com o passar do tempo, vamos descobrindo que há coisas que melhoram, que se encaixam, enquanto existem outras que apertam, não vão mais se adequando.

O mesmo acontece nos relacionamentos amorosos. Se não ficarmos atentos, eles vão nos apertando, nos sufocando e podemos descobrir muito tempo depois, que já deveria ter dado um fim a eles, bem antes. Precisamos entender, que relacionamos para sermos livres e para isso buscamos alguém que tenha o mesmo compasso na hora do voo. Algumas pessoas, quando se relacionam, se prendem, se auto enjaulam e afasta até os amigos que antes completavam sua vida. Relacionar assim não serve. Se está difícil pra encaixar e quando usa não está confortável, é sinal que precisamos deixar ir. 

De igual modo o emprego: já tem tempos que não te deixa feliz. Está apertado e de todas as maneiras que já tentou, não há solução. A produção caiu e você já tem observado que o seu tamanho é outro e por isso não encaixa mais. Você cresceu! O tempo te fez um outro profissional e por isso não cabe mais naquele cultura, naquele clima e a sua ideologia é outra. Sabe qual a melhor atitude a fazer: mudar. Mudar de ares, deixar aquela vaga para outro e ir atrás de novos desafios. Com certeza, tem um mundo melhor, do que este que serviu por um tempo, mas agora se tornou pequeno demais.

Assim é a vida. De vez em quando precisamos rever tudo o que temos construído e abrir mão de algumas peças, para fazer com que outras novas ocupem o lugar. Pode ser que vai doer um pouco, que machuque de imediato ou até nos cause tristeza e pranto, mas vida apertada e sufocada dói bem mais. E como dói... Só sabe o prazer de usar algo do seu tamanho, feito dentro dos seus moldes, aquele que um dia ousou e fez algumas trocas.

O perigo reside, de forma sutil, no momento em que precisamos forçar algo, para que ele se encaixe a nós. Isso vai gerar dor. Se para o seu tamanho não tem ou está esgotado, parte pra outra. Só vai ser bom, se o tamanho for o seu.  


De hoje em diante o lema é: Se estou precisando forçar, é porque não é pra mim. Eu passo!



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, escreve e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário,  em Goiânia-GO.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

BOA NOITE FERNANDA


Uma das manias de Mário, era sempre organizar seus recortes, notícias, fotos, jornais e revistas de seus últimos assassinatos. Declarava-se muito organizado. Essa sempre foi a qualidade que o diferenciava em seu trabalho. Também tinha como mania, ler e reler os seus diários criminosos. Sentia-se incomodado, pois sempre que lia, achava incompleto o que o obrigava a ser o mais detalhista possível. Isso de certa forma o relaxa.

Há quase dois anos sem férias, a empresa sinalizou 40 dias antes, que suas férias se aproximavam e, bem cansado, viu que tinha necessidade de viajar. Já faziam 8 meses que cometera seu último crime e a mídia já o havia esquecido, podia dessa forma, arriscar-se um pouco mais e sair além de casa e do trabalho. Ainda frequentava a igreja, e sempre se emocionava quando o Padre referia-se a Marilene.

A noite, enquanto bebia o seu café rotineiro, definiu que ia para o interior do estado, visitar a casa dos avós maternos e tios. Há muito tempo não os visitava em virtude da distância e da vida pacata que geralmente as cidades do interior oferecem. Entre um gole e outro, definiu também que era melhor ir de ônibus, pois precisava economizar. No dia seguinte, comprou as passagens e avisou a todos a data que iria chegar. Como sempre, todos ficaram em festa. Sempre foi um neto querido pelos avós.

No dia da viagem, fez as malas bem cedo, cortou os cabelos, comprou alguns presentes, colocou seu livros de faroeste e mitologia grega na mala e os itens de higiene pessoal. Vaidoso como sempre, a beleza pessoal não podia ser esquecida. Selecionou uma boa pasta de música e 1 hora antes da saída já estava na rodoviária.

Como mania também, só viaja na última. Justificava sempre quando criticado, que tinha medo de morrer e na sua concepção, as últimas cadeiras são as menos prováveis, em um suposto acidente ou assalto, de serem atingidas. Foi o primeiro a entrar no ônibus e de gorro na cabeça e fone de ouvido, observava um a um os passageiros que entram no carro. De lá não saiu até quando sua poltrona do lado foi ocupada.

Do seu lado, sentou-se um moça morena, cabelos pretos soltos encaracolados, dois travesseiros de flores e um cobertor de ursinho puf. Se cumprimentaram apenas com os olhos e um sorriso de canto de boca. Ambos continuaram em suas músicas e apenas observavam a paisagem lá fora que passava com a velocidade do ônibus. Estava frio e cobertos seguiam dormindo.

Depois de algum tempo, na segunda parada, grande parte dos passageiros desceram e foi o momento deles também saírem do ônibus. Lá fora, entre o costumeiro café, dispensaram o fone de ouvido, se apresentaram, sorriram e trocaram mais informações. Ela disse que também ia visitar a casa dos parentes, que era Engenheira Agrônoma e que amava cães. Estava solteira e que amava viajar. Neste papo, ele lamentou o fato dele ter que descer 100 km antes do destino dele, mas a convidou para vir visitar as cachoeiras da cidade de seus avós. Ele comprou chicletes, ela fumou um cigarro.

De volta ao ônibus já bem vazio, ela sentou nas poltronas do lado, alegando maior espaço na cadeira vazia. Ele continuou em sua cadeira de origem. Ainda falaram um pouco e ela sonolenta, disse que dormia devido o remédio que sempre tomava para evitar o enjoo da viagem. Ele logo ouviu sua respiração mais forte.

Com a luz do visor do celular, notou que um dos travesseiros dela estava no corredor do ônibus. Tirou o cobertor do seu corpo, e com meias nos pés, levantou-se e pegou o travesseiro, Colocou sobre seu rosto e comprimiu apertando-lhe o pescoço. Quando não ouviu mais sua respiração, conferiu-lhe o pulso direito e confirmou sua morte. Cobriu-lhe a cabeça, voltou e ocupou sua cadeira. Em pouco tempo o motorista anunciava a sua chegada na sua cidade. 

Com as luzes do corredor acessas, calçou seu tênis, pegou sua mochila e com um sorriso discreto de satisfação disse: "Boa Noite Fernanda". Pediu um táxi e partiu. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, escreve e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário,  em Goiânia-GO.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ALMOÇA COMIGO.


Dia desses, fui ministrar uma aula no Interior durante o fim de semana. Após a aula, a caminho do restaurante, sol a pino, desço a pé, uma distância razoavelmente pequena, embora parecesse maior, dado o horário e a fome. Tinham me orientado a ir ao restaurante conhecido na cidade e com boas opções no cardápio.

Sempre que tenho oportunidade, gosto de me deixar surpreender pela realidade, para assim me inspirar a escrever. Na verdade é um dos motivos que faz com que eu adie o momento de escrever algo. Assim, observo, vejo e busco algo. O que quero é o cotidiano, o acidental, as pessoas, os fatos, a convivência, os detalhes simples. A vida diária sempre se torna pitoresca quando olhado sob tal perspectiva. São os flagrantes que me emocionam mais.

Ocorreu, que chegar na entrada do restaurante, ao pé de uma pequena escada, um cidadão, que andava atrás de mim, e que eu não notara, me aborda fazendo com que eu me volte e o veja. Estava descalço, cabelos e barba por fazer, precisava também de um bom banho e de trocar as roupas, que embora gastas, estavam em bom estado: camiseta de posto de gasolina e bermuda xadrez. Tinha uma certa dificuldade em falar, seja no tom das palavras, seja na pronuncia delas. Notava-se também, pequena dificuldade em andar, talvez pela deformidade no pé direito. Porém, me chamou a atenção.

Acanhado e olhando para o chão, me pediu desculpas pela investida e me pediu uma marmita. Disse que estava com muita fome. Fixei o olhar nele,perguntei-lhe se estava estava sozinho e se já tinha feito alguma refeição naquele dia. Para confirmar minha suspeita ele disse que não. Sem titubear disse-lhe então, que eu também estava sozinho e lhe daria a marmita, mas só se sentasse comigo à mesa. Então, ele olhou nos meus olhos e disse que não podia entrar, pois não era bem aceito, por não ser apropriado ao lugar.

O acidental sempre faz com que o essencial se perca. Retruquei e disse que se fosse meu convidado "eles" iriam aceitar. Sem mais nada para contar, ele aceita e entra comigo. Permito que ele se sirva primeiro, escolhendo ao seu modo o que gostaria de comer, sentindo o cheiro, vendo as cores de algo que talvez nunca tinha comido antes. Procurei uma mesa, onde nos sentamos frente a frente. O garçom nos aborda e pergunta o que tomaríamos e deixei que ele escolhesse e optou por uma coca cola gelada. 

Eu observava mais do que me alimentava. Na verdade, todos observavam e conversavam entre si sem entender muito o que estava acontecendo. Os garçons e demais funcionários falavam entre si e perguntavam quem eu era e porque fazia aquilo. As pessoas que estavam indo acertar no caixa, também indagava ao atendente o que era aquilo. Eles não me conheciam, mas conheciam meu convidado.

Com lágrimas nos olhos, ele disse que nunca tinha almoçado em um restaurante em toda a sua vida e que quando passava por ali, sentia muita vontade de entrar para ver o que acontecia lá dentro. Perguntei seu nome, disse o meu a ele, perguntou se podia repetir o prato e poucas palavras trocamos. Terminados fomos saindo, agradeceu, despediu-se e se foi. 

Quando eu estava acertando o valor devido, um cidadão que fazia sua refeição sozinho me abordou e disse que minha atitude foi bonita, louvável e que pra ele foi uma lição. Disse porém que não entendeu porque eu fizera aquilo. O que eu ganhara com tudo isso. Disse  a ele que algumas coisas na vida não precisam de uma explicação. O essencial não pode fugir dos olhos. 

Ah, em sua despedida e agradecimento, o Carlos disse que tinha sido um dia muito feliz na vida dele, por dois motivos: pelo banquete que ele ganhou e por eu fazê-lo lembrar que ele tinha um nome. Eu disse que na minha vida também, tinha sido um dia feliz.

Por fim, pedi um abraço. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 28 de março de 2016

CARTA PARA 2065

Sabe, não sei ao certo como chamar você. Não sei o seu sexo, não sei a sua cor, não sei como brilha seus olhos. Não sei o seu nome, nem a sua idade. Apenas sei que estás lendo esta carta, que resolvi escrever na páscoa de 2016, 50 anos antes deste momento. Saiba que estou feliz por ela ter chegado até você. Leia bem devagar e dispense um momento dos seus afazeres para apreciar este presente.

Quero dizer a você que nunca vamos nos conhecer. Nunca! Nem por fotografias ou redes sociais. Mesmo com toda a tecnologia que já havia no meu tempo e muito mais avançada no seu tempo, não fará esse encontro. Você veio de um sêmen congelado há 76 anos atrás. Não se lamente ou se frustre. Essa prática estava ficando comum na época. Portanto, você também não saberá a cor da minha pele, a altura e o peso que coube a mim, a cor dos meus cabelos e nem conhecerá a minha forma de sorrir amiudando os olhos.

Há 50 anos antes, este mundo era bem diferente, mas já haviam as frustrações, os medos, as incertezas, as paixões mal resolvidas. Hoje, é preciso acordar cedo, batalhar, estudar, construir a estrada para um futuro melhor. Se proteger, desconfiar das pessoas e andar sobressaltado e em alerta. Nos seus dias, penso que o homem deve estar pisando na lua sempre, em marte e porque não em Júpiter. Imagino que os carros estão mais velozes, que as pessoas estejam mais frias, os rios mais poluídos e quase todos usam drogas.

Porém, há 50 anos também já haviam pessoas honestas, boas, sinceras... a palavra amigo já havia sido inventada, a palavra família também e já havíamos aprendido a sorrir. Penso que em 2065 isso ainda exista. Ame sua família e conte suas bênçãos a ela. Deixe para trás a dor que o dia a dia irá te causar e nunca deixe de sonhar. Era o que eu fazia muito. Todas as grandes realizações foram alcançadas através do trabalho e da espera e muito mais porque alguém sonhou. Portanto, peço-te que cultive a paciência. Por favor, não culpe as pessoas pelas condições em que você se encontrará determinadas vezes. Lembre-se que os fracassos e as vitórias serão fruto do seu trabalho e das suas escolhas.

Quero muito que você tenha uma condição financeira estável para viver melhor. Sim há 50 anos atrás o dinheiro já fazia a divisão de classes. Não sei o país em que você mora, nem imagino como deve ser a família de sua mãe, mas se necessário for, aprenda a conviver com a pobreza honesta e dedique-se a coisas bem mais importantes do que levar ouro e fama para a sua sepultura. E outra coisa que quero te dizer: Por certo eu já morri e imagino que já tenham dito que você também irá morrer. Portanto, não faça nada pela metade e não alimente a ansiedade pelo dia de amanhã, pois nunca sabemos se vamos terminar este. Mas jamais descuide de sua saúde. Ela e somente ela é que nos leva ao caminho da felicidade. Lembre-se de que é necessário muito pouco para uma vida feliz.

Sempre aprenda com os outros que estão à sua volta. Não leve a vida com arrogância pois aquele que ensina a si mesmo tem um sério risco de ter um tolo como professor. Sempre que encontrar em si mesmo algo que o encha de orgulho, examine atentamente e vai descobrir mais do que o suficiente para ficar humilde. É provável que nos seus dias essa qualidade tenha se tornado rara. Nos meus dias também.

E por fim, há um sentimento que talvez você está sentindo ao ler esta carta. É exatamente o que estou sentindo agora. Esse sentimento chama saudade. Com sua magia, a saudade nos faz senti-la por pessoas e lugares que não conhecemos. Não quero que a partir de agora, fique procurando nas pessoas o meu rosto. Não há necessidade. Mas quero que sinta e cultive o doce sabor do poder da saudade. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 22 de março de 2016

LIBERDADE


Há tanto do que se libertar e é tao importante se libertar, que a liberdade passa a ser um bem mais importante do que a vida. Constantemente as pessoas arriscam a vida, para ter alguns minutos de liberdade. Nesse momento, a vida passa a ser pequena tamanha a sensação de sentir-se livre. Morrer frente à liberdade, parece ser insignificante. A liberdade conecta ou nos desconecta com as leias e com a realidade? Estar livre é viver fora das normas da lei?

Foi a grande filósofa escritora francesa, Simone de Beauvoir (1908 -1986) que em sábias palavras traduziu o poder da liberdade: "Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria subsistência, já que viver é ser livre". Em outro momento, o poeta escritor português Fernando Pessoa (1888 - 1935 ) nos coloca em cheque quando diz que "a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é possível viver só, nasceste escravo". Que dura sentença.

Mas a verdade é que quase sempre não pensamos naquilo que de fato nos prende e que também não pensamos no que devemos fazer para ser livres. A liberdade parece ser utópica, uma vez que é passiva de questionamento sobre o que é liberdade ou o que nos faz sentir livres. Sempre nos queixamos que não nos sentimos livres, mas nunca nos queixamos daquilo nos aprisiona. Já parou para pensar do que você precisa se libertar?

Há que se libertar da língua que fera e dos comportamentos que aprisionam. Há que se libertar da angústia cruel e da maldade que desola e assola a alma. É possível se libertar da dependência de outros e dos outros que dependemos tantos. Necessário se faz, que sejamos libertos da piedade dos demais e da frieza dos que nos rodeiam.

Que a liberdade empurre pra longe o coração frio, o abraço sem vida, o sorriso sem alegria e o arco ires sem cores. Que ela nos livre do beijo traidor e do toque sem alento. Que possamos ter a ousadia de escolher o que nos faz bem e não somente o que nos dá status.

Libertemo-nos do cansaço que definha, da dor que escraviza, da ilusão que nos engana e da mentira leve que sempre nos confunde. Liberdade dos amigos insensatos e dos namoros comprados. Liberdade do emprego adoecedor e das migalhas que nos engorda dia a dia. Que a liberdade nos afaste do orgulho que nos torna indiferente e da mágoa que nos deprime e arranca nossas lágrimas.

Que a liberdade se achegue e afaste as manias que nos condicionam aos amores que não se prendem a nós. Que possamos aprender mesmo a deixar livre o que amamos e que possamos nos sentir livre, mesmo quando estamos amando alguém. Amar e ser livre é possível? Qual a conta exata dessa equação?

Que o poder da liberdade traga para perto de nós, a capacidade de dizer não, quando de fato queríamos dizer não e que o sim nunca seja dito sob os constrangimentos da prisão. Que a liberdade entregue em nossas mãos, a capacidade de escolher a roupa, o sapato, o cabelo... sem a necessidade de estar preso ao  que dizem ou ao que determinam. Que somente a liberdade nos permita ter o corpo que temos, do jeito que somos sem a necessidade de ter o corpo que o outro determina.

Que com o tempo, a liberdade nos ensine que escolha tem a ver ela própria e que ela mesma nos ensine a fazê-la de forma tranquila e sem prisões.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

QUANTO CUSTA O SEU AMOR?


É interessante pensar, quantidade de tempo e energia que passamos analisando e julgando a vida das pessoas. Me refiro ao tipo de relação amorosa que elas levam, sejam namoro, casamento, relacionamento extra conjugal, relacionamento aberto, etc. Pra ser mais preciso, analisamos se é hétero, se é gay, se é bi, se é novo, se é feio, se é rico, se é compatível, se é verdadeiro, se é por interesse... e no fim, quase sempre queremos descobrir (como se necessário fosse) se de fato é amor.  

Por outro lado, raramente gastamos tempo e energia para analisar o tipo de relação que mantemos ou a que tipo de relação nos prestamos. Quase nunca perguntamos a nós mesmos, que tipo de amor estamos construindo ou que tipo de relação fazemos para nos ter do lado, alguém que durma conosco, nos beije, que faça um sexo bom, que dê atenção e porque não para chamarmos de "meu". Ou ainda, porque nunca fazemos a nós mesmos, a seguinte pergunta: Quanto custa o nosso amor?

Talvez você ainda não percebeu, mas por conta dessa relação, você ganhou peso, perdeu alguns valores, adquiriu alguns hábitos ruins e aquilo que você abominava passou a defender. Até confessa, que nem você próprio se conhece. Passou a usar drogas, afastou dos seus melhores amigos e de sua família, criou um mundo paralelo e deixou de ser você. Se pergunte: Vale a pena?

Não tem notado, que passou a ser controlado, prisioneiro de si mesmo, sufocado, chantageado e muito mais inseguro. É passado pra trás sempre que pensa que está na frente. Mas você ainda pensa que ser feliz é estar acompanhado. Seus novos amigos não foi você quem escolheu e os lugares que você frequenta não é você quem escolhe. As músicas que você gostava de escutar, já não escuta mais. A sua auto estima há muito tempo está no lixo. Aquilo que você chamava de dignidade hoje tem o nome de status. É uma pena que pense que isso é amor. 

Tudo bem que o jantar você não paga ou quando paga é somente a metade. Anda de carro bom, usa óculos de altas cifras, os perfumes são os melhores e suas roupas são as mais desejadas, viaja sempre que quer e provavelmente publica tudo isso em redes sociais. Sim, o que há de mal nisso? Isso é ótimo. Mas você nem notou, mas aprendeu nesta relação, que ser romântico é dar e receber presentes. Presentes caros. Em troca a tudo isso, a exploração dos seus sentimentos se vai. Sim, elas se cicatrizam mas deixam marcas que nem o tempo apaga. Afinal, se pergunte: Quanto custa o meu amor? 

Você não tem notado, mas você está muito diferente. Suas palavras e os seus gestos não são mais os mesmos. Sua agressão é outra e sua forma de ver o mundo também mudou. Agora tem ataques de ciumes, usa de sua possessividade e tem um medo grandioso de perder o troféu que você tem chamado relacionamento. Cabe repensar o que é de fato romantismo e mais do que isso, quais são os comportamentos que ele desencadeia. A relação que você alimenta é a relação do "que temos" ou a relação do "que somos?" Tem parcelado o seu amor? Qual é o peso/preço de suas parcelas? 

É claro que é mais fácil analisar o amor dos outros. A diferença é que o preço da relação dos outros não é definitivamente nós que pagamos. O peso que uma relação carrega, é sobretudo o peso de cada um. A permissão que cada um determina ter, é o presente que elimina a solidão, afinal para muitos, e melhor estar mal acompanhado do que só.

Então, combinemos que, antes de olhar o outro e perguntar: "Que relação é esta?", vamos nos perguntando todo dia: "Que relação eu tenho?"


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

AS METAS PARA O ANO NOVO


É sempre no fim do ano, que as pessoas param - ou pelo menos deveriam parar - para fazer uma reflexão sobre o ano que se finda ao mesmo tempo quem que fazem os planos para o ano que se inicia. Mas e se a vida, fosse uma espécie de cola e copia? Se tivéssemos a possibilidade de copiar o ano que termina e colar no ano que começa, faríamos isso, sem nenhuma edição? Iríamos renomear alguns acontecimentos ou deleta-los? E o que queríamos duplicar? 

O certo é, que no ano que se inicia, irão acontecer dois fatos que são inevitáveis. O primeiro deles, são os fatos que temos certeza que vão acontecer. Do outro lado, estão os fatos que não sabemos se vão acontecer, estão no campo do talvez, do quem sabe... São incertos!

Neste novo ano, é certeza que vamos envelhecer um pouco. Sim é inevitável algumas rugas, algumas marcas, alguns sinais... quem disse que isso é ruim? Iremos aprender muito, seja com nossas próprias experiências ou pelas experiências dos outros. Sem duvidas, vamos errar, e por incrível que pareça com os mesmo erros. Que eles nos sirvam para engrandecer. É claro que vamos nos frustar, mas vamos também nos surpreender. Pode ser que façamos uma excelente viagem, mas pode ser que fiquemos em casa, trancados.

Quem sabe vamos encontrar um amor, mesmo seja apenas por alguns meses do ano. Quem sabe não vamos encontrar e o ano inteiro passaremos desacompanhados. Quem sabe, iremos nos decepcionar com alguns amigos, mas quem sabre iremos também encontrar bons amigos pelo caminho. Talvez alguns de nós que estamos lendo esse texto, iremos morrer, mas também podemos estar lendo de novo no fim do próximo ano. Quem sabe, um de nossos queridos nos deixe, e isso irá doer muito, mas poderemos juntos, comemorar tudo de novo.

É certo que iremos sorrir muito e claro poderemos também chorar. Chorar pela perda do emprego talvez; sorrir por um emprego novo. Quem sabe será o ano do seu casamento e de uma grande mudança, mas quem sabe não será o ano de sua separação e também o início de uma nova vida. Certeza que queremos muita saúde a nós e nossos familiares e amigos, porém, poderemos adoecer e junto com isso ou com a doença de outro.

Já parou pra pensar que muitos fatos que aconteceram este ano, não estavam no nosso planejamento. Alguns foram maravilhosos, outros nem tanto. Uns poderiam ter sido evitados por nós mesmos, outros nos pegaram de surpresa. Vamos deixar que tudo se repita novamente?

Mas que tal se neste ano, a gente começar a evitar muitos acontecimentos que não nos acrescentará em nada. Que só vai nos causar dor e tristeza? Que tal começar a estudar, parar de fumar, ler um bom livro, fazer atividade física, selecionar as suas amizades, ir mais ao médico, evitar fofocas, ser mais educado, sorrir mais, afastar-se da ganância e da falsidade, ajudar alguém, usar mais camisinha, pagar um plano de saúde, tratar o mal hálito, deixar de ser objeto nas mãos de outros, ser mais humilde, comer melhor, dormir melhor, crescer de alguma forma, jogar fora o que não serve mais, doar o que não se usa, separar o lixo, perdoar o passado, desenvolver uma habilidade...

São tantas as atividades simples que mudam muito. Basta querer.  

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

sábado, 17 de outubro de 2015

A COZINHA


Sem dúvidas a cozinha é a parte mais aconchegante de uma casa. Se analisarmos bem, os melhores momentos que temos no dia dentro de casa acontece dentro da cozinha. Não raros, somos pegos lembrando de momentos de nossa infância que aconteceram dentro dela, junto com a família e amigos. Ao se chegar em casa, éramos sempre levados a ir para a cozinha.

É da cozinha que vem os cheiros e aromas que nos perseguem por toda a vida. Quando o dia amanhece, é de lá que surgem as primeiras vozes e os primeiros sons que nos acordam. O cheiro do café fresquinho também vem de lá. Sobre a mesa, sempre havia uma garrafa de café, com xícaras e copos, ao alcance de todos. A cozinha exerceu por muito tempo o papel de unir e de transmitir afeto.

Quando entramos em casa, cansados, exaustos, é pra cozinha que quase sempre nos dirigimos, em busca sempre de algo para nos envolver, seja comendo, seja bebendo. Como provedor de nossas necessidades, o fogão ocupava um lugar estratégico na cozinha, fosse a gás ou fosse a lenha, afinal, como um objeto sagrado, era o nosso principal utensílio. Em tempos passados, as casas não tinham aparelho de microondas, fornos, exaustores, máquinas elétricas entre outros. As cozinhas eras amplas e geralmente na mesa era onde fazíamos todas as refeições juntamente com aqueles que dividem conosco o dia a dia. Era este raro momento que tínhamos a oportunidade de sentar, ouvir, conversar, olhar nos olhos, comungar o pão... e isso ocorria dentro da cozinha. As refeições eram feitas, quando todos estavam à mesa e cada um em seus devidos lugares.

Mas os tempos mudaram. Como mudaram. Veio a arquitetura moderna e contemporânea, as necessidades foram se construindo, as pessoas foram se coisificando e o desenvolvimento foi forçando a mudança da cozinha dentro de nossa casa. Ela tem deixado de exercer o papel colocado a ela desde os tempos antigos. Os apartamentos e casas modernas, tem feito com que ela quase desaparecesse. Cada vez menor, ela quase tem sido desnecessária dentro de casa. 

As pessoas raramente visitam a cozinha; não sentam mais à mesa, não comungam e não se confraternizam nela. A sala e os quartos, tem exercido um papel mais importante. Isolada em um pequeno espaço, a cozinha permanece tímida, solitária e em vez de mesas temos balcões. Em vez de cadeiras, permanecemos de pé e o cheiro e os aromas produzidos lá, são substituídos por latas e saquinhos feitos por industrias

A correria dos tempos modernos, faz com as pessoas se afastem da cozinha. Nos finais de semana, as famílias buscam fazer suas refeições fora de casa, e ir para a cozinha no final de semana, é sinônimo de acumular mais cansaço além do já adquirido durante a semana. Acontecendo isso, o prazer, as descobertas e os rituais que seriam praticados dentro da cozinha se perdem e são trocados por outros prazeres, em especial os eletrônicos. Há quem diga, que mais gostos do que comer na cozinha, é estar nela com os amigos preparando aquilo que se vai comer. Não é o final, é o processo!

Talvez por isso, que estejamos mais frios, mais distantes, menos emotivos, mais depressivos, mais egoístas... menos na cozinha. Se antes comíamos juntos na mesa, hoje, fazemos um lanche rápido falando ao celular. Se conseguimos nos alimentar em casa, geralmente é cada um na sua individualidade, no sofá, no quarto, em frente o televisor, com os fones de ouvido. A correria faz com que não saboreamos o tempero, o cheiro, a alquimia... não fazemos elogios até porque não sabemos quem fez. Não agradecemos pelo alimento porque não tempo para isso. Não vamos à cozinha, porque cozinha é lugar de “Amélia”.

Alguns valores que perdemos, que parecem simples, levam junto outros valores que fazem falta na nossa construção como humanos. Talvez seja necessário voltarmos à cozinha sempre. Talvez seja preciso estar na cozinha com mais frequência, para sorrir, ouvir, comer, sentir seus cheiros, cores e sabores.

Já pensou qual é o papel da cozinha dentro da sua casa? Pense nisso!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A MORTE


E aí de repente a gente morre. Simples assim. Do nada! Sem fazer um aviso formal, ela vem, sem receios e nos leva. Pode ser de dia ou de noite, com chuva ou com sol, no calor ou no frio, cedo ou a tarde... com ela não tem acordo. Você deve conhecer alguém que já morreu e não avisou antes. Muita ingratidão. Mas você deve também conhecer muito mais pessoas que vão morrer e que da mesma forma será: não avisarão antes!

E de fato não sabemos como será. Penso que ninguém soube com antecedência como seria sua morte. Talvez até por um segundo pensamos como ela deve ser e que tipo de festa deve acontecer, mas nada como detalhar o dia que ela vem. Quem sabe será em um acidente automobilístico, na água, num assalto, dormindo, correndo, talvez quem sabe num voo, com amigos, com desconhecidos ou será só? Será se vai ser um um hospital, num leito, a conta gotas, ou de repente? Ou será suicídio diário? Porque não uma bala perdida? Mas pode ser serena e calma, ao lado da família, com alguém segurando a nossa mão esquerda, com os anos avançados. E tenha certeza: ela nunca vem na hora certa. 

Parece um processo injusto. Sem ao menos nos dar um tempo para resolver umas questões, ela vem e nos leva, sem volta, sem erro. Eram tantos e-mails pra ler, viagens a fazer, estudos, trabalhos a ser entregues, a casa a ser limpa, o aniversário a ser feito, a conta de água que ia ser paga, o carro que ia ser lavado no fim de semana, o amigo que ficamos de visitar, a mousse a ser elaborada no feriado e até mesmo o beijo que não foi dado. Os planos do casamento, da gravidez, do nascimento do filho, a compra da casa própria e a vida melhor que queríamos tanto.

Daquele momento em diante, somos tratados como um corpo. Até nosso nome é esquecido. Nu, sozinho, frio, gelado, sem cor, olhos cerrados, boca aberta quem sabe, lá estamos nós, esperando por alguém que nos olhe e nos cubra, pelo menos. Toda timidez some. Ninguém nos sorri, ninguém conta uma piada. Por certo nos apalpam, beijam, falam baixo e lamentam. As notícias continuam correndo, como se morrer fosse um espetáculo, onde quanto mais platéia, melhor. Irão repetir como foi a morte, dezenas, centenas de vezes.

A partir daí nos tratam com lágrimas, carinho e piedade. Visitas veem de longe para nos ver. Pessoas que nunca nos visitaram aparecem, abraçam os nossos, choram e até postam os pesares na redes sociais. A família, paga uma funerária para nos limparem e deixar mais um pouco sobre a terra. Nos colocam em um caixão caro, onde quase sempre a família faz força para pagar. Colocam uma roupa que nunca usamos antes, sem nos perguntar se gostamos da cor e procuram um bom túmulo, um horário bacana para o enterro e até atrasam a espera de uns e de outros. Algumas coroas de flores chegam com frases prontas, além daquelas que já nos cobriram. 

É muita bobagem num dia só! Já pensou nisso!?

A impressão é que damos mais valor a morte do que a vida. Estranho isso. Nunca temos tempo para os amigos, família... nunca viajamos e nem estudamos porque não temos tempo. Nunca mandamos flores porque não somos românticos. Raramente elogiamos e direcionamos palavras de conforto e carinho às pessoas que estão à nossa volta. A saúde quase sempre é esquecida e as relações que nos mantem vivos não são alimentadas. Gastamos na morte, o que evitamos gastar na vida. Ela foi curta e além de tudo, ainda foi pequena. Que ironia. 

Corremos dia e a noite, usamos nossa ambição para ter muito. Atropelamos o processo, o tempo, as pessoas, o amor.... pra que? Pra nada! A morte chega e nos iguala. O fato inevitável da vida, vem e sem escolha, nos torna justos e iguais como deveríamos ter sido em vida. O que muda é apenas a posição na fila. Mas a senha de cada um de nós irá chegar. Que privilégio não? 

Devemos observar que o que não foi feito na vida, não adianta mais fazer na morte. Nunca visitou alguém que você gosta? Não precisar ir no velório. Não disse que o amava? Poupe-se de abraçar o caixão no cemitério. Não deu uma flor que seja, em vida? Não gaste seu dinheiro com uma coroa para ser levada ao funeral. Falava mal e difamava durante a vida? Não gaste suas lágrimas no enterro. Lembre-se que, provavelmente, quanto maior for o choro, maior é o remorso. 

Pensemos nisso. Pensemos no valor da vida. Pensemos de que forma queremos o nosso velório. Pensemos de que forma queremos ser lembrados por aqueles que vão depois de nós. Pague suas dívidas em vida. Pode ser que dê tempo...

Porém antes de tudo, pense em que tipo de vida está levando. Lembre-se que o espetáculo maior é a vida. O que deveria ser feito na morte, faça antes, em vida. 

E ainda pense: O que nos separa uns dos outros não é a morte: É a vida!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


terça-feira, 31 de março de 2015

SOBRE TROTE EM UNIVERSIDADES


Não é de hoje, que alunos veteranos de universidades e faculdades, dão as "boas vindas" para os alunos novatos através do trote. O trote, nada mais é, do que uma série de atividades que devem marcar o ingresso desses novos estudantes ao ensino que vão começar.  É uma espécie de ritual que marca essa investidura em seus estudos. Geralmente, essas atividades são divididas em atividades consideradas leves ou pesadas. 

Costumam ocorrer nos dias da denominada calourada e sempre é no início de um semestre ou de um ano letivo. Nas escolas, o trote também costuma acontecer depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram a ela. Ele também pode acontecer fora da instituição de ensino, principalmente em casas de república, lugar onde dormem juntos os alunos que vieram de outras cidades.

Até aí tudo bem. O trote sendo solidário e saudável, não tem nada de ruim, até porque ele serve para ambientar o aluno novato junto à Instituição, junto aos seus novos colegas, serve para troca de experiências junto ao aluno veterano e até mesmo mesmo para um contato com quem serão os seus professores. Essa deveria ser a premissa do trote. Deveria! 

O que temos visto, é que a forma como o trote acontece hoje, não é nem de longe, a melhor maneira de ser apresentado a uma nova rotina de vida, nem tão pouco é um ritual de introdução a uma nova instituição que vai requerer desse aluno, normas, disciplinas, esforço, dedicação e foco. O trote deixou de ser uma atividade saudável e se tornou uma "brincadeira" de muito mau gosto, um crime, caso de polícia. O trote tem representado um rito de passagem e de violência contra alunos, que muitas vezes levam sequelas pro resto de suas vidas. Tem sido mais agressão do que emoção.

Talvez pelo fato da palavra trote, fazer uma alusão ao andar do cavalo que é adestrado - e adestrado a duras penas com chibatadas e esporadas - é que alguns alunos se comportam como animais na tentativa de domesticar os alunos que ainda não entraram no "passo" que a Instituição/curso exige. O cavalo aprende, a andar em um compasso que nem é lento, nem tão pouco em disparada. É como se o aluno novato, tivesse que aprender a trotar. Péssima iniciativa.

Me preocupa o fato de que, alunos que potencialmente irão defender uma profissão, um nome, irão ajudar uma sociedade com o seu ofício, terão a oportunidade de fazer história em um País que tanto necessita, se prestem a um papel de afogar pessoas, promover o coma alcoólico, brincadeiras que contribuem para o traumatismo cranioencefálico, rituais com animais mortos e fezes, fumar, tirar as roupas íntimas, pedir dinheiro nas ruas, deitar sobre um formigueiro, atear fogo na roupa, amarrar pesos de até 7k nos órgãos sexuais e o mais grave: a morte de alguns deles. 
   
De tudo isso, fica claro que as Instituições de Ensino que permitem tais práticas precisam ser punidas, além de expulsarem do seu quadro de discentes, pessoas que praticam tais atos. Isso não pode ser considerado, sob nenhuma ótica, como um ritual de boas vindas.

Me pergunto: porque não promover uma atividade beneficente ligada ao curso que o aluno está ingressando? Porque não fazer a semana da doação de leite; da higienização de creches e asilos públicos; da doação de sangue e plaquetas; da reforma de uma escola pública que estão em sua maioria estão precisando; da arrecadação de alimentos para um orfanato; doação de horas para a CVV na escuta de quem precisa; para a animação de um dia somente, para crianças com câncer; para palestras educativas a adolescentes sobre educação sexual e o uso de drogas; na reciclagem de lixo;  da montagem de um biblioteca em escola pública com doação de livros? São tantas as práticas de cidadania que podem ser feitas. 

Atividades assim, são as melhores para socializar o aluno e fazer com que ele de fato, vivencie um ritual de passagem para a nova etapa que irá viver em sua vida.

Diga não ao trote violento. Diga sim ao trote solidário e consciente. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A ARTE DE SABER ENVELHECER


Seja como for, iremos envelhecer. Seja quando for, envelhecer é sempre um presente. Estar vivo, do jeito que acontecer é sempre um privilégio. Estar vivo, sem sombra de dúvidas é maior presente que a vida pode nos oferecer. 

O interessante é que com o passar dos dias, o fardo da idade parece se tornar mais leve. É claro que você pode discordar dessa afirmação, mas é fato também, que a idade que você tenha você já consegue ver a vida de outra forma. Com outro olhar. Com outra perspectiva.

Mas eu penso que entender que a velhice não é um desprazer, seja o grande ponto de equilíbrio que nos faz conviver bem com esta fase da vida. É a chegada dos anos que nos ensina a aceitar os planos que não deram certo e a colocar outros no lugar de forma serena e leve, conservando sempre, o grande segredo de ser interessante para si mesmo. 

Estar velho é uma decorrência natural do ciclo da vida. Só quem morre cedo, perde o grande privilégio de ficar velho e morrer jovem é sempre uma grande tragédia. Mesmo jovens, planejamos chegar até os mais longos anos, de forma tranquila e segura. Embora vivamos cada dia como sendo um dia a menos, guardamos conosco o segredo de pensar na morte de vez em quando e quase sempre muito rápida e superficial. O homem é o único animal que sabe que vai morrer e por isso mesmo, nunca pensa nisso.

Mas, ficou por conta do grande poeta Adoniran Barbosa, falar um pouco sobre essa fase da vida. Ele diz: "Velho amigo não chore, pra que chorar por alguém te chamar de velho. Não decola, não esquente a cachola. Quando alguém lhe chamar de velho, sorria cantando assim: Sou velho e sou feliz, mais velho é quem me diz"  

Precisamos deixar de pensar que envelhecer é um pesadelo. Essa uma luta inútil e muitas vezes desastrosa pela juventude eterna precisa ser banida. Penso que ela apenas antecipa o inevitável. O medicamento mais indicado para uma velhice saudável deve estar pautado em comportamentos que podem fazer dessa uma das melhores fases da vida. Trocando em miúdos, estar velho é um estado de espírito. A angústia em não aceitá-lo é de todos o maior dos males. 


Seja jovem, seja velho, viva bem, viva feliz! 

domingo, 13 de julho de 2014

SOU DE UM TEMPO...

Sabe, eu sou de um tempo que ficou. E apesar desse tempo não ter ficado há muito, sinto que ele foi esquecido depressa demais. Percebo que ele foi consumido por fatos e atos rasos e supérfluos que foram "modernizando" os nossos dias. 

Sou de um tempo, onde as crianças andavam descalços, tomavam banho na chuva, faziam suas próprias pipas e seus carrinhos de rolimãs. O contato com a terra era diário e as brincadeiras eram de pique esconde, amarelinha, elástico é pique pega. Andávamos de bicicleta e esta era uma aquisição que nos envaidecia e nos diferenciava. Neste tempo, os filhos pediam benção aos pais e eles os abençoava. Era um tempo, onde os pais não iam presos por corrigir seus filhos.

No meu tempo, as crianças nasciam e as mães guardavam o resguardo, com canja de galinha, unguentos e chás. Os bebês usavam fraldas de pano e estas eram passadas de filho a filho ou para primos. Não haviam tantos partos de cesárea e as famílias era maiores. O mamar era prazeroso para o filho e as mães eram as que criavam e educavam sua prole. Na escola, chamávamos a professora de tia e esta fazia mesmo, o papel da mãe/tia.

Eu sou de um tempo, onde não haviam tantos apartamentos, onde as pessoas visitam as casas uma das outras ao anoitecer e umas cumprimentavam as outras quando se encontravam. Venho de um tempo, onde os vizinhos trocavam produtos de casa e dividiam aquilo que tinham para não ver o próximo passando necessidade. Eu sou do tempo que se vendiam ki-suco, conga, ki-chute, ki-bamba, baré e chiclete ping pong.

Eu sou de um tempo, onde as crianças e adolescentes trabalhavam e estudavam e pasmem: elas conseguiam. Nas escolas, estudávamos em cartilhas que eram aproveitadas no ano seguinte e olha que interessante: sabíamos cantar o hino nacional, o hino da bandeira e o hino da independência. E o mais chocante de tudo era que saíamos do ensino fundamental sabendo ler. Os filhos amavam e respeitavam os pais, como sendo estes seus únicos heróis. Neste tempo, as amizades se fortaleciam com brincadeiras, passeios, risadas e reuniões. 

Eu sou de um tempo, onde não tinha vídeo-game, não tinham tantos televisores e os que tinham, não tomavam o lugar da família. Neste tempo, as igrejas eram em menos quantidades e por conseguinte, eram de mais qualidade. As músicas desta época, era a junção gostosa de letra, melodia e voz. Ouvíamos falar em drogas e delas tínhamos medo. Quando tinha um velório, as pessoas iam e se solidarizavam com a dor de quem ficava. 

Neste tempo, haviam poucos telefones fixos e estes eram valiosos. Não existiam tantos celulares e dessa feito, falávamos, ouvíamos e tínhamos contato com as pessoas. Naquela época, contávamos as estrelas e procurávamos as que "andavam" na imensidão do céu escuro. Neste tempo a que me refiro, as pessoas não ficavam e em troca, buscavam um namoro sério e era motivo de orgulho dizer que ainda era virgem. Sou de um tempo, onde casamento era para um vida toda e não um serviço de ninguém.

Eu sou de um tempo, onde as pessoas escreviam cartas e guardavam. Sou de um tempo onde os fogões possuíam "asas" e em sua maioria eram vermelhos. Sou de um tempo, onde se encontravam alfaiate, engraxate e as músicas eram ouvidas em LP's e fita cassete. Quem tinha vídeo cassete e enceradeira era privilegiado. 

Sabe, eu sou de um tempo, que, onde se alimentava um, se alimentavam dez. Sou de um tempo, onde a palavra amor, amizade, respeito e compromisso tinham outro significado.  Sou de um tempo, onde era mais importante ser do que ter; era mais importante ter sentimento do que ter corpo; era mais importante ter valor do que ter preço. Não, não pense que sou velho. Eu apenas tive alguns privilégios que não existem mais.

E de que tempo você é? 


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

PAÍS FULECO

Confesso que fiquei com vergonha, quando vi na mídia, que o nome do mascote da copa do mundo do Brasil, chama-se Fuleco. Pensei que tinha escutado mal, mas é isso mesmo: Fuleco. Minutos depois, fico sabendo, que essa escolha, foi decidida pelo povo, que escolheu o nome, entre mais opções, tão idiotas quanto este. A explicação para o nome, segundo a mídia, é que foi feita a junção de futebol com ecologia. Continuo com vergonha.

O resultado dessa escolha, ao meu ver, reflete dois fatos tristes, porém reais em nosso país. Primeiro, identifico o alto índice de ignorância do nosso povo. É notório o quanto a educação faz diferença na história de qualquer nação. Desconheço qualquer país, que tenha se desenvolvido e que não tenha a educação como principio de vida. A educação muda a história do povo. E logo, sendo este povo ignorante, torna-se fácil manipulá-lo. Torna-se alvo fácil para o pão e o circo.

O segundo ponto que vejo nessa escolha é que ele revela de fato uma realidade, uma triste realidade, posta a todos, sábios e tolos, ricos e pobres. De fato este é um país de fulecos. Acredito que quem votou (quem votou?), esqueceu de buscar o significado desta palavra, uma vez que ela não foi criada exclusivamente para a copa do mundo, como tenta dizer a mídia manipuladora. Mais uma vez, a ignorância vence.

Entre outros, a palavra fuleco é uma variação de fuleira, fuleragem entre outras variações. Esses termos são bem conhecidos no nordeste brasileiro e possui os seguintes significados: coisa ruim, de baixa qualidade, inferior, incapaz, duvidoso, tóba, rabo, anus, fiofó, rosca, roela, boga, cu, furreco, medíocre, descarado, fuleiro, ladrão, corrupto.... Nada mais natural para representar a nossa realidade. 

Nesse pais, a saúde é fuleca. Não há hospitais, vagas, ambulâncias, médicos, remédios, estrutura física, salários e por ai vai. Falta desde o garrote à maca. A educação também é fuleca. Não há escolas suficientes, o ensino é medíocre, o IDEB é falso, o MEC não funciona, as escolas são assaltadas todos os dias e as que sobram, não educam nem ensinam mais, os professores não são remunerados como deveriam e em sua maioria, a educação que existe, atende ao capital desenfreado no sistema fast food. A segurança não é diferente: também é fuleca. Não temos sistema penitenciário que resolva, não há vagas, há policiais de menos e bandidos de mais, a corrupção impera, as condições de trabalho são desumanas e o povo, em sua maioria, que é fuleca, paga o preço.

E o que dizer da política desse país? Como lidar com ela, onde a maioria absoluta é de fulecos, preocupados apenas com seu próprio interesse! Honestidade virou raridade e encontrar algum homem honesto que integre a política desse pais, torna-se uma atividade quase impossível. E a cultura? Em sua maioria é fuleca também. Ouvimos o que não presta, cantamos o que não sabemos o que é, e qualquer batida, torna-se primeiro lugar nas paradas de sucesso. Não há incentivo a leitura nem ao pensamento crítico, criativo, e assim, vamos sendo frutos de programas enlatados e manipuladores.

Mas é exatamente disso, que se faz um país de fulecos. É exatamente, essa massa que tem a capacidade de votar e eleger como mascote para uma copa do mundo - com um orçamento que não é fuleco - um tatu que tem por nome sua própria identidade. Cérebros de tatus! Assim se cria fulecos: pouca educação e muito futebol; muito circo e muito pão. E são esses, que farão de tudo, para pagar o ingresso do jogo, para poder ver a obra, fruto de sua ignorância e ainda poder dizer: tenho orgulho de ser brasileiro!

Me ponho a pensar e pergunto, do que se faz uma nação, não de fulecos, mais de cidadãos que criem seu próprio futuro, que pensem na sua formação educacional e que querem deixar para seus filhos, muito mais do que estádios e renda cidadão. Pergunto, como pode um pais, crescer e se desenvolver, com fulecos, desde os que votam até os que são eleitos. 



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.