segunda-feira, 25 de abril de 2016

ALMOÇA COMIGO.


Dia desses, fui ministrar uma aula no Interior durante o fim de semana. Após a aula, a caminho do restaurante, sol a pino, desço a pé, uma distância razoavelmente pequena, embora parecesse maior, dado o horário e a fome. Tinham me orientado a ir ao restaurante conhecido na cidade e com boas opções no cardápio.

Sempre que tenho oportunidade, gosto de me deixar surpreender pela realidade, para assim me inspirar a escrever. Na verdade é um dos motivos que faz com que eu adie o momento de escrever algo. Assim, observo, vejo e busco algo. O que quero é o cotidiano, o acidental, as pessoas, os fatos, a convivência, os detalhes simples. A vida diária sempre se torna pitoresca quando olhado sob tal perspectiva. São os flagrantes que me emocionam mais.

Ocorreu, que chegar na entrada do restaurante, ao pé de uma pequena escada, um cidadão, que andava atrás de mim, e que eu não notara, me aborda fazendo com que eu me volte e o veja. Estava descalço, cabelos e barba por fazer, precisava também de um bom banho e de trocar as roupas, que embora gastas, estavam em bom estado: camiseta de posto de gasolina e bermuda xadrez. Tinha uma certa dificuldade em falar, seja no tom das palavras, seja na pronuncia delas. Notava-se também, pequena dificuldade em andar, talvez pela deformidade no pé direito. Porém, me chamou a atenção.

Acanhado e olhando para o chão, me pediu desculpas pela investida e me pediu uma marmita. Disse que estava com muita fome. Fixei o olhar nele,perguntei-lhe se estava estava sozinho e se já tinha feito alguma refeição naquele dia. Para confirmar minha suspeita ele disse que não. Sem titubear disse-lhe então, que eu também estava sozinho e lhe daria a marmita, mas só se sentasse comigo à mesa. Então, ele olhou nos meus olhos e disse que não podia entrar, pois não era bem aceito, por não ser apropriado ao lugar.

O acidental sempre faz com que o essencial se perca. Retruquei e disse que se fosse meu convidado "eles" iriam aceitar. Sem mais nada para contar, ele aceita e entra comigo. Permito que ele se sirva primeiro, escolhendo ao seu modo o que gostaria de comer, sentindo o cheiro, vendo as cores de algo que talvez nunca tinha comido antes. Procurei uma mesa, onde nos sentamos frente a frente. O garçom nos aborda e pergunta o que tomaríamos e deixei que ele escolhesse e optou por uma coca cola gelada. 

Eu observava mais do que me alimentava. Na verdade, todos observavam e conversavam entre si sem entender muito o que estava acontecendo. Os garçons e demais funcionários falavam entre si e perguntavam quem eu era e porque fazia aquilo. As pessoas que estavam indo acertar no caixa, também indagava ao atendente o que era aquilo. Eles não me conheciam, mas conheciam meu convidado.

Com lágrimas nos olhos, ele disse que nunca tinha almoçado em um restaurante em toda a sua vida e que quando passava por ali, sentia muita vontade de entrar para ver o que acontecia lá dentro. Perguntei seu nome, disse o meu a ele, perguntou se podia repetir o prato e poucas palavras trocamos. Terminados fomos saindo, agradeceu, despediu-se e se foi. 

Quando eu estava acertando o valor devido, um cidadão que fazia sua refeição sozinho me abordou e disse que minha atitude foi bonita, louvável e que pra ele foi uma lição. Disse porém que não entendeu porque eu fizera aquilo. O que eu ganhara com tudo isso. Disse  a ele que algumas coisas na vida não precisam de uma explicação. O essencial não pode fugir dos olhos. 

Ah, em sua despedida e agradecimento, o Carlos disse que tinha sido um dia muito feliz na vida dele, por dois motivos: pelo banquete que ele ganhou e por eu fazê-lo lembrar que ele tinha um nome. Eu disse que na minha vida também, tinha sido um dia feliz.

Por fim, pedi um abraço. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.