sexta-feira, 24 de abril de 2009

PRIORIDADE x OPÇÃO

Sempre digo a quem me procura, que não se deve desistir daquilo que amamos. Na verdade, é esse meu lema de vida também e por isso o passo a frente. Quero dizer com isso, que a disistencia de se ter uma vida como opção ou como prioridade, trata-se de uma mão recíproca, onde fazer alguém feliz implica em também em que alguem nos faça feliz.

Ter algo ou alguém em nossas vidas como prioridade, nao pode nem mesmo de longe ser uma obrigação, mas sim um sentimento proazeroso de realização. Ai é que mora o desgaste. E por isso mesmo, muitas pessoas confundem o ser prioridade, com o ser pedante e "grudento", sufocante. Isso não é ter alguem como prioridade. Ciume nao é prioridade nem mesmo a possessão.

Mas o problema maior mesmo no relacionamento entre duas pessoas, é que ambos tendem a querer controlar todas as variáveis, todos os limites, todas as causas e por fim todos os resultados. Na maioria das vezes se esquecem que resultados, envolvem percepções, comprometimento, envolvimento e até um certo grau de desejo. Muitas pessoas precisam entender que amar não significa controle. Amar é uma equação de dois lados (até tres) e infelismente so se controla o lado em que estou, ou o lado que suponho ser meu.

Fico atento às vezes, quando observo um casal de namorados (especialmente) onde há planos para o futuro, um suposto casamento, ou quem sabe, a vinda de um filho, ou somente morar juntos. Fico imaginando (e digo isso a eles) que essa vida que ora estao escolhendo, exige um deixar de fato do que é opção, para um aceitar que é prioridade. Quase todos, questionam que amam a liberdade e que essa nova vida nao vai tirar deles o que sempre fizeram anteriormente: A liberdade. De fato nao pode!

O quero dizer com isso, é que essa fantasia que as pessoas tem do que é liberdade, precisa ser abilida e que ser livre é o melhor que se pode ser. Eu também acho que é. Ser independente também é bom. Mas ninguém quer ficar só. E as pessoas precisam parar de achar que a liberdade é bem melhor que o compromisso. Elas precisam apenas saber o que é prioridade e o que é opção para elas mesmas. Isso sim, acabaria com um pouco do "sofrimento" infinito que grande parte delas sentem.

De vez em quando, faça um balanço interno e veja como anda sua lista de prioridades e descubra também, o que é opção que pode quem sabe ser prioridade, ou quem sabe, ser de fato excluida de sua vida. Descubra o que só é temporário. Descubra também, quem faz de voce uma opção; quem faz de voce uma prioridade. Pare de sofrer em relação a isso.

Tem um ditado que resume tudo: Não trate como prioridade quem te trata como opção. Voce precisa ser prioridade de alguem. Mas voce também precisa fazer alguem sua prioridade. Ninguém sobrevive por muito tempo aqui, sendo a prioridade de si mesmo.


Paulo Veras é psicólogo em Goiania-GO.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

SOLIDÃO NUNCA MAIS

Sem duvida, Renato Russo acertou, quando disse: "Digam o que quizerem dizer, mas a solidão é o mal do século". Tal expressão, revela a quantidade de solidão que cada um de nós levamos no nosso dia-a-dia, em nossa luta diária pela sobrevivência, fugindo de uma vida comum. Ou quem sabe ainda, fazendo uma vida comum, atropelando em nossos próprios passos.

Também é paradoxal, o quanto solidão em nossos dias está em evidência. Num mundo cada vez mais eclético e cheio de pessoas, com cidades lotadas, baladas abarrotadas e gente se trombando nas ruas, possa existir tanta solidão. É o mesmo, que estar num ambiente com milhares de pessoas e sentir-se só. É o mesmo, que, estando rodeado de movimentos e sons, sentir se imóvel, numa surdez sem fim.

Mas para o gay, a solidão é sem dúvidas, ainda mais pesarosa. Digo isso, porque não se trata apenas de uma solidão de pessoas, mas também solidão de espaço, de divisão, de liberdade ou indepêndencia. Trata-se daquela solidão de cada dia, que consome sua quantidade exata de todo dia, sempre disfarçada num gole de bebida ou numa balada. A solidão que me refiro, é aquela que ás vezes, nem o grande amor do lado, os amigos verdadeiros presentes e o sol mais lindo no ceu, podem resolver. Refiro-me à aquela solidão nata, que é inerente á vontade de quem a convive. Refiro-me áquela solidão que não tem dono.

Estudos revelam, e a convivência atesta, que pessoas de vida complicada, estão mais vulneráveis a solidão. Precisamos é de simplicidade. Precisamos de praticidade. Precisamos descomplicar a vida, as relações, os desejos, os afetos e nossa existência. Infelismente, quase sempre, o gay é complicado. Ser gay é complicado. São emaranhados de sentimentos, desejos, curiosidades, medos (ou nada de medo), coragem e isso tudo misturado, sem certo controle, gera consequentemente muita solidão. Exatamente quando tudo isso bate na realidade, sobe uma certa poeira do impacto e isso chama-se solidão.

Há momentos na vida, em que a luz miúda de uma vela nos revela muito mais que mil holofotes. E holofotes não curam solidão.


Paulo Veras é psicólogo em Goiania.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

CONTRADIÇÃO

Um riso de choro
Um grito abafado
Um passo parado
Dormindo acordado.

Mel com limão
Açucar com sal
Azedo com doce
Amargo normal.

Sanidade e loucra
Com ódio e amor
Com dúvida e certeza
Alegria e rancor.

Sábio ou tolo
Sem força ou fraqueza
Sozinho contigo
Sem zelo com gosto.

Verde e amarelo
Branco e preto
Azul e Lilás
Scarlata vermelho.

Um frio com calor
Inverno e verão
Primavera e Outono
Crepúsculo e Arrebol.


Paulo Veras é psicólogo.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A NEGRA E A MANGA

Era uma sexta-feira do mês de outubro e havia chovido muito naquela tarde. Sexta sem chuva já é cheia de expectativas, imagine com muita água. O expediente foi parado outra vez e eu resolví ir logo embora. Era por volta das 16h30 e lá fora se via muitos poços de água na rua.

O bus não demorou muito e por sorte estava vazio. Vazio não, mas eu ainda consegui assento. Não demorou muito, entramos em ruas primárias e mais movimentadas. Por volta do terceiro ponto nesta via, muitos passageiros entraram e junto deles uma senhora negra, aparentando seus 55 a 60 anos. Semblante sério sem deixar de ser sereno. Olhos cansados, um lenço na cabeça e uma sacola na mão. Imaginei que estivesse vindo do trabalho também. Talvez tenha sido a negra mais negra que já vi. Sua cor brilhava já fugindo para o azul.

Logo que entrou, lhe deram um banco, gesto bonito e lógico, por se tratar de ser ela mais idosa que o passageiro que lhe dera. Assim que sentou, retirou da sacola que trazia, duas mangas bem maduras. Imagine você, como estão as mangas, justo nessa época do ano: uma tentação. Devolveu à sacola a menor delas e que aparentemente estava mais verde.

Sem nenhum receio, abraçou-lhe com gosto, descascando-a com os dentes, como se tivesse encontrado algo que lhe era mais precioso do que tudo. Depois de roido toda a parte externa da casca, passou a comer a polpa que parecia não estar mais totalmente consistente. As pessoas por perto, pararam com o bate papo e admiravam a cena. Uns sorriam, outros assim como eu, pareciam aprovar. A nergra, de olhos fechados chupava o caroço ao mesmo tempo em que aparava o caldo que escorria entre os dedos. Essa dramatização deve ter durado uns 10 minutos.

O cheiro impregnou-se pelo onibus e todos já notavam a cena. Depois disso e já com o caroço quase que totalmente branco, ela resolveu jogá-lo fora. Foi notório a tristeza em separar-se daquela preciosidade. Parecia se alegrar no entanto, quando se lembrava que havia outra manga na sacola. Por fim, o deixou de lado. Lambeu todos os dedos, por completo e puxando o lenço da cabeça, limpou a boca, o queixo, o nariz... Pronto! Logicamente feliz, natural e simples como se estivesse só. Num mundo só seu!

No próximo ponto ela desceu. Sem se despedir.

E eu pensei: Quão bom é, quando as pessoas saem dos seus complexos, de suas mediocridades e despertam para o novo. Quebram regras e tabus e praticam o bem. Quando são elas mesmas e deixam de ser ridículas querendo ser o que não são, mantendo status que para nada aproveitam. São mais felizes, embelezam e se realizam. Naquele momento ela estava feliz, mesmo com uma manga. E é assim que se é feliz: com momentos felizes.

Paulo Veras é psicólogo.