terça-feira, 31 de março de 2015

SOBRE TROTE EM UNIVERSIDADES


Não é de hoje, que alunos veteranos de universidades e faculdades, dão as "boas vindas" para os alunos novatos através do trote. O trote, nada mais é, do que uma série de atividades que devem marcar o ingresso desses novos estudantes ao ensino que vão começar.  É uma espécie de ritual que marca essa investidura em seus estudos. Geralmente, essas atividades são divididas em atividades consideradas leves ou pesadas. 

Costumam ocorrer nos dias da denominada calourada e sempre é no início de um semestre ou de um ano letivo. Nas escolas, o trote também costuma acontecer depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram a ela. Ele também pode acontecer fora da instituição de ensino, principalmente em casas de república, lugar onde dormem juntos os alunos que vieram de outras cidades.

Até aí tudo bem. O trote sendo solidário e saudável, não tem nada de ruim, até porque ele serve para ambientar o aluno novato junto à Instituição, junto aos seus novos colegas, serve para troca de experiências junto ao aluno veterano e até mesmo mesmo para um contato com quem serão os seus professores. Essa deveria ser a premissa do trote. Deveria! 

O que temos visto, é que a forma como o trote acontece hoje, não é nem de longe, a melhor maneira de ser apresentado a uma nova rotina de vida, nem tão pouco é um ritual de introdução a uma nova instituição que vai requerer desse aluno, normas, disciplinas, esforço, dedicação e foco. O trote deixou de ser uma atividade saudável e se tornou uma "brincadeira" de muito mau gosto, um crime, caso de polícia. O trote tem representado um rito de passagem e de violência contra alunos, que muitas vezes levam sequelas pro resto de suas vidas. Tem sido mais agressão do que emoção.

Talvez pelo fato da palavra trote, fazer uma alusão ao andar do cavalo que é adestrado - e adestrado a duras penas com chibatadas e esporadas - é que alguns alunos se comportam como animais na tentativa de domesticar os alunos que ainda não entraram no "passo" que a Instituição/curso exige. O cavalo aprende, a andar em um compasso que nem é lento, nem tão pouco em disparada. É como se o aluno novato, tivesse que aprender a trotar. Péssima iniciativa.

Me preocupa o fato de que, alunos que potencialmente irão defender uma profissão, um nome, irão ajudar uma sociedade com o seu ofício, terão a oportunidade de fazer história em um País que tanto necessita, se prestem a um papel de afogar pessoas, promover o coma alcoólico, brincadeiras que contribuem para o traumatismo cranioencefálico, rituais com animais mortos e fezes, fumar, tirar as roupas íntimas, pedir dinheiro nas ruas, deitar sobre um formigueiro, atear fogo na roupa, amarrar pesos de até 7k nos órgãos sexuais e o mais grave: a morte de alguns deles. 
   
De tudo isso, fica claro que as Instituições de Ensino que permitem tais práticas precisam ser punidas, além de expulsarem do seu quadro de discentes, pessoas que praticam tais atos. Isso não pode ser considerado, sob nenhuma ótica, como um ritual de boas vindas.

Me pergunto: porque não promover uma atividade beneficente ligada ao curso que o aluno está ingressando? Porque não fazer a semana da doação de leite; da higienização de creches e asilos públicos; da doação de sangue e plaquetas; da reforma de uma escola pública que estão em sua maioria estão precisando; da arrecadação de alimentos para um orfanato; doação de horas para a CVV na escuta de quem precisa; para a animação de um dia somente, para crianças com câncer; para palestras educativas a adolescentes sobre educação sexual e o uso de drogas; na reciclagem de lixo;  da montagem de um biblioteca em escola pública com doação de livros? São tantas as práticas de cidadania que podem ser feitas. 

Atividades assim, são as melhores para socializar o aluno e fazer com que ele de fato, vivencie um ritual de passagem para a nova etapa que irá viver em sua vida.

Diga não ao trote violento. Diga sim ao trote solidário e consciente. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.