sábado, 17 de outubro de 2015

A COZINHA


Sem dúvidas a cozinha é a parte mais aconchegante de uma casa. Se analisarmos bem, os melhores momentos que temos no dia dentro de casa acontece dentro da cozinha. Não raros, somos pegos lembrando de momentos de nossa infância que aconteceram dentro dela, junto com a família e amigos. Ao se chegar em casa, éramos sempre levados a ir para a cozinha.

É da cozinha que vem os cheiros e aromas que nos perseguem por toda a vida. Quando o dia amanhece, é de lá que surgem as primeiras vozes e os primeiros sons que nos acordam. O cheiro do café fresquinho também vem de lá. Sobre a mesa, sempre havia uma garrafa de café, com xícaras e copos, ao alcance de todos. A cozinha exerceu por muito tempo o papel de unir e de transmitir afeto.

Quando entramos em casa, cansados, exaustos, é pra cozinha que quase sempre nos dirigimos, em busca sempre de algo para nos envolver, seja comendo, seja bebendo. Como provedor de nossas necessidades, o fogão ocupava um lugar estratégico na cozinha, fosse a gás ou fosse a lenha, afinal, como um objeto sagrado, era o nosso principal utensílio. Em tempos passados, as casas não tinham aparelho de microondas, fornos, exaustores, máquinas elétricas entre outros. As cozinhas eras amplas e geralmente na mesa era onde fazíamos todas as refeições juntamente com aqueles que dividem conosco o dia a dia. Era este raro momento que tínhamos a oportunidade de sentar, ouvir, conversar, olhar nos olhos, comungar o pão... e isso ocorria dentro da cozinha. As refeições eram feitas, quando todos estavam à mesa e cada um em seus devidos lugares.

Mas os tempos mudaram. Como mudaram. Veio a arquitetura moderna e contemporânea, as necessidades foram se construindo, as pessoas foram se coisificando e o desenvolvimento foi forçando a mudança da cozinha dentro de nossa casa. Ela tem deixado de exercer o papel colocado a ela desde os tempos antigos. Os apartamentos e casas modernas, tem feito com que ela quase desaparecesse. Cada vez menor, ela quase tem sido desnecessária dentro de casa. 

As pessoas raramente visitam a cozinha; não sentam mais à mesa, não comungam e não se confraternizam nela. A sala e os quartos, tem exercido um papel mais importante. Isolada em um pequeno espaço, a cozinha permanece tímida, solitária e em vez de mesas temos balcões. Em vez de cadeiras, permanecemos de pé e o cheiro e os aromas produzidos lá, são substituídos por latas e saquinhos feitos por industrias

A correria dos tempos modernos, faz com as pessoas se afastem da cozinha. Nos finais de semana, as famílias buscam fazer suas refeições fora de casa, e ir para a cozinha no final de semana, é sinônimo de acumular mais cansaço além do já adquirido durante a semana. Acontecendo isso, o prazer, as descobertas e os rituais que seriam praticados dentro da cozinha se perdem e são trocados por outros prazeres, em especial os eletrônicos. Há quem diga, que mais gostos do que comer na cozinha, é estar nela com os amigos preparando aquilo que se vai comer. Não é o final, é o processo!

Talvez por isso, que estejamos mais frios, mais distantes, menos emotivos, mais depressivos, mais egoístas... menos na cozinha. Se antes comíamos juntos na mesa, hoje, fazemos um lanche rápido falando ao celular. Se conseguimos nos alimentar em casa, geralmente é cada um na sua individualidade, no sofá, no quarto, em frente o televisor, com os fones de ouvido. A correria faz com que não saboreamos o tempero, o cheiro, a alquimia... não fazemos elogios até porque não sabemos quem fez. Não agradecemos pelo alimento porque não tempo para isso. Não vamos à cozinha, porque cozinha é lugar de “Amélia”.

Alguns valores que perdemos, que parecem simples, levam junto outros valores que fazem falta na nossa construção como humanos. Talvez seja necessário voltarmos à cozinha sempre. Talvez seja preciso estar na cozinha com mais frequência, para sorrir, ouvir, comer, sentir seus cheiros, cores e sabores.

Já pensou qual é o papel da cozinha dentro da sua casa? Pense nisso!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo, lembrei-me de minha velha casa, da minha infância.

TRABALHANDO COM O MEDO INFANTIL

Senhores Pais, é natural e absolutamente normal que suas crianças pequenas sintam medo. Bem como, o nervosismo é um sentimento natura...