terça-feira, 22 de março de 2016

LIBERDADE


Há tanto do que se libertar e é tao importante se libertar, que a liberdade passa a ser um bem mais importante do que a vida. Constantemente as pessoas arriscam a vida, para ter alguns minutos de liberdade. Nesse momento, a vida passa a ser pequena tamanha a sensação de sentir-se livre. Morrer frente à liberdade, parece ser insignificante. A liberdade conecta ou nos desconecta com as leias e com a realidade? Estar livre é viver fora das normas da lei?

Foi a grande filósofa escritora francesa, Simone de Beauvoir (1908 -1986) que em sábias palavras traduziu o poder da liberdade: "Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria subsistência, já que viver é ser livre". Em outro momento, o poeta escritor português Fernando Pessoa (1888 - 1935 ) nos coloca em cheque quando diz que "a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é possível viver só, nasceste escravo". Que dura sentença.

Mas a verdade é que quase sempre não pensamos naquilo que de fato nos prende e que também não pensamos no que devemos fazer para ser livres. A liberdade parece ser utópica, uma vez que é passiva de questionamento sobre o que é liberdade ou o que nos faz sentir livres. Sempre nos queixamos que não nos sentimos livres, mas nunca nos queixamos daquilo nos aprisiona. Já parou para pensar do que você precisa se libertar?

Há que se libertar da língua que fera e dos comportamentos que aprisionam. Há que se libertar da angústia cruel e da maldade que desola e assola a alma. É possível se libertar da dependência de outros e dos outros que dependemos tantos. Necessário se faz, que sejamos libertos da piedade dos demais e da frieza dos que nos rodeiam.

Que a liberdade empurre pra longe o coração frio, o abraço sem vida, o sorriso sem alegria e o arco ires sem cores. Que ela nos livre do beijo traidor e do toque sem alento. Que possamos ter a ousadia de escolher o que nos faz bem e não somente o que nos dá status.

Libertemo-nos do cansaço que definha, da dor que escraviza, da ilusão que nos engana e da mentira leve que sempre nos confunde. Liberdade dos amigos insensatos e dos namoros comprados. Liberdade do emprego adoecedor e das migalhas que nos engorda dia a dia. Que a liberdade nos afaste do orgulho que nos torna indiferente e da mágoa que nos deprime e arranca nossas lágrimas.

Que a liberdade se achegue e afaste as manias que nos condicionam aos amores que não se prendem a nós. Que possamos aprender mesmo a deixar livre o que amamos e que possamos nos sentir livre, mesmo quando estamos amando alguém. Amar e ser livre é possível? Qual a conta exata dessa equação?

Que o poder da liberdade traga para perto de nós, a capacidade de dizer não, quando de fato queríamos dizer não e que o sim nunca seja dito sob os constrangimentos da prisão. Que a liberdade entregue em nossas mãos, a capacidade de escolher a roupa, o sapato, o cabelo... sem a necessidade de estar preso ao  que dizem ou ao que determinam. Que somente a liberdade nos permita ter o corpo que temos, do jeito que somos sem a necessidade de ter o corpo que o outro determina.

Que com o tempo, a liberdade nos ensine que escolha tem a ver ela própria e que ela mesma nos ensine a fazê-la de forma tranquila e sem prisões.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


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