domingo, 2 de setembro de 2018

TENHO ORGULHO DE QUEM ME TORNEI?



Quando pensamos em quem somos, é inevitável que pensemos em quem nos tornamos. Somos frutos de uma construção e de um processo de desconstrução que é feito diariamente, a todo instante, em todo o tempo. Descobrimos que não somos o que éramos, mas não somos ainda o que gostaríamos de ser: isso é um processo que vai nos criando e nos ressignificando. Assim, vamos gostando ou não, cada vez mais da pessoa que vamos nos tornando.

Tornar-se alguém, não se trata apenas de crescer fisicamente, de pintar os cabelos, fazer dieta ou ir treinar na academia. Tornar-se o que se deseja, é preciso crescer na alma, se ajustar criativamente e sentir-se bem consigo mesmo. É o ato de olhar-se nos olhos de vez em quando, de se interrogar e auto refletir. É aceitar os erros, refazer o plano e seguir em frente. Apesar das escolhas e das decisões tomadas no passado, ter sempre bem claro, que se tornar o que se deseja é um risco, é cansativo e exaustivo.

Nossos conceitos mudam e a nossa visão amplia. Nesse processo há muros que nos privam de muita coisa mas há muitas pontes que nos levam a outros mundos. Vamos construindo umas marcas, vamos ganhando outras e em todas elas os arranhões ficam. Os machucados são inevitáveis e as cicatrizes vão se tornando peles da resistência e isso nos torna mais forte do que erámos há um tempo atrás.

Vamos criando o nosso estilo de ser e de viver. Algumas opiniões não tem mais importância e aquilo que magoava antes, hoje não incomoda nenhum pouco. Isso é auto estima e ela vem com tempo e com as experiências que vida vai nos ofertando.  Isso nos leva a entender e aprender a ficar mais perto do nosso ideal e a distanciar do ideal do outros. Este ideal, tanto faz. É com o tempo que vamos aprendendo a dar satisfações a nossa consciência e vamos descobrindo que ela nem dói tanto. Vamos não tendo mais vergonha da simplicidade que temos e do que conseguimos construir.

As pessoas que passam pela nossa vida ajudaram também a nos tornar quem somos. Do mesmo modo, as pessoas que se foram também ajudaram neste crescimento Isso nos ensina que nenhuma companhia é eterna e nenhum lugar é o único, dessa feita, o importante é aproveitar o momento ao máximo. São com pessoas do nosso lado é que vamos dando valor aos nossos sonhos e perseguindo as metas que colocamos para esta construção. Vamos descobrindo quais são os amigos verdadeiros, aqueles que vamos levar pra toda a vida e isso não quer dizer, que não vamos encontrando novos bons e verdadeiros amigos pelo caminho.

Nosso crescimento nos permite pisar em outros mundos. Permitimos que outros mundos pisem em nosso território também. A auto confiança vai nos tornando mais flexíveis, mais maleáveis e mais resilientes. Aprendemos a ser mais reservados, a expor menos a nossa individualidade, bem como a expor menos o outro e as suas dores. Vamos entendendo a importância de conhecer pessoas, de abrir novas oportunidades com elas e a compreender que uma pessoa pode significar muito para o nosso futuro.

Vamos tomando consciência que somos o resultado dos machucados, dos banhos de chuva e dos resfriados. Somos frutos das brincadeiras de ruas, da primeira viagem sozinho, das vacinas que recebemos, das canções que cantaram pra nós e das canções que aprendemos a cantar. Nos tornamos quem somos, através do primeiro emprego, dos professores que tivemos e das mortes internas que somente nós, sentimos a dor.

Somos o resultado de dificuldades diárias, de conquistas difíceis e de muitas frustrações. Somos o que somos, porque somos frutos da influência da família dos amigos, das pessoas que nos rodeiam e dos amores que construímos ou que deixamos de construir. Somos também, um pouco de decepções, de lágrimas e de risos. Nos tornamos na maturidade inevitável que a vida oferece e esta maturidade nos ensina a nos incomodar menos com o que os outros pensam sobre nós e mais com o que pensamos sobre nós mesmo. Somos um pouco da frieza das rejeições e um pouco da dureza das pancadas que nos deram. Mas que bom, que ainda assim, somos candura, aceitação e leveza.

Chegar a ser o que se deseja é um caminho que se deve percorrer, às vezes sozinho, muito pouco acompanhado. Ser o que se deseja é também uma escolha nem sempre fácil, nem sempre tranquila, mas recompensador. É um caminho que de orgulho próprio, que destoam de todos os outros mas que é o seu caminho. É a descoberta de planos grandes, de vontades incompreendidas. É uma construção única, feita de metades e de completos. Feito de ser, com todo o ser.


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escreve e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

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