O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de
gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de estruturas
psíquicas e sociais que sustentam a objetificação e o apagamento simbólico da
mulher. Embora o fenômeno tenha raízes históricas, jurídicas e sociológicas, a
psicanálise contribui para esclarecer seus aspectos subjetivos, especialmente
no que diz respeito ao modo como alguns homens lidam com a alteridade feminina
e com a perda de controle sobre o outro.
Freud (1913) apontou, em diversos textos, que a sexualidade
humana é marcada por conflitos, ambivalências e defesas. Em “Totem e Tabu”, ele
indica que a violência pode emergir quando o sujeito se sente ameaçado em suas
posições narcísicas. Quando a mulher deixa de ocupar o lugar idealizado ou
submisso atribuído pelo imaginário masculino, certos homens podem vivenciar
essa mudança como ferida narcísica intolerável, respondendo com agressão
extrema. Não se trata de justificar o ato, mas de compreender como determinadas
estruturas psíquicas, aliadas a fatores socioculturais, podem precipitar
comportamentos violentos.
Lacan (1971) aprofunda essa discussão ao afirmar que “não há
relação sexual” — isto é, não existe complementaridade plena entre os sexos; há
sempre um desencontro. Cada sujeito, seja homem ou mulher, se relaciona com o
outro a partir de sua própria falta e castração, o que impede a fusão completa
ou o encontro "perfeito" que completaria a ambos. A dificuldade de
alguns sujeitos em suportar esse desencontro pode resultar em tentativas de
dominar, controlar ou eliminar a alteridade.
O feminicida, nesse sentido, não mata apenas uma mulher concreta: tenta
eliminar aquilo que nele próprio se apresenta como falta, limite ou
impossibilidade. A mulher é reduzida a objeto, e a violência torna-se uma forma
trágica de recusa da diferença e de sua incapacidade de lidar com o abandono.
Reconhecer a mulher como sujeito pleno — e não como objeto ou
propriedade, é condição fundamental para enfrentar o feminicídio.
Paulo Veras é doutorando em educação; mestre em educação, linguagem
e tecnologia; psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo,
escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva,
especialista em docência do ensino superior e professor universitário em
Goiânia-GO

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