segunda-feira, 4 de maio de 2026

FEMINICÍDIO E PSICANÁLISE: Quando a violência revela o fracasso em lidar com a alteridade.

 


O feminicídio, entendido como a forma mais extrema da violência de gênero, pode ser analisado à luz da psicanálise como manifestação de estruturas psíquicas e sociais que sustentam a objetificação e o apagamento simbólico da mulher. Embora o fenômeno tenha raízes históricas, jurídicas e sociológicas, a psicanálise contribui para esclarecer seus aspectos subjetivos, especialmente no que diz respeito ao modo como alguns homens lidam com a alteridade feminina e com a perda de controle sobre o outro.


Freud (1913) apontou, em diversos textos, que a sexualidade humana é marcada por conflitos, ambivalências e defesas. Em “Totem e Tabu”, ele indica que a violência pode emergir quando o sujeito se sente ameaçado em suas posições narcísicas. Quando a mulher deixa de ocupar o lugar idealizado ou submisso atribuído pelo imaginário masculino, certos homens podem vivenciar essa mudança como ferida narcísica intolerável, respondendo com agressão extrema. Não se trata de justificar o ato, mas de compreender como determinadas estruturas psíquicas, aliadas a fatores socioculturais, podem precipitar comportamentos violentos.


Lacan (1971) aprofunda essa discussão ao afirmar que “não há relação sexual” — isto é, não existe complementaridade plena entre os sexos; há sempre um desencontro. Cada sujeito, seja homem ou mulher, se relaciona com o outro a partir de sua própria falta e castração, o que impede a fusão completa ou o encontro "perfeito" que completaria a ambos. A dificuldade de alguns sujeitos em suportar esse desencontro pode resultar em tentativas de dominar, controlar ou eliminar a alteridade.

O feminicida, nesse sentido, não mata apenas uma mulher concreta: tenta eliminar aquilo que nele próprio se apresenta como falta, limite ou impossibilidade. A mulher é reduzida a objeto, e a violência torna-se uma forma trágica de recusa da diferença e de sua incapacidade de lidar com o abandono.

Reconhecer a mulher como sujeito pleno — e não como objeto ou propriedade, é condição fundamental para enfrentar o feminicídio.

 

Paulo Veras é doutorando em educação; mestre em educação, linguagem e tecnologia; psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escritor e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


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