terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A CRISE DA MEIA IDADE ME ASSUSTA


Envelhecer é inevitável e para a grande maioria das pessoas esse fato é doloroso. Porém numa sociedade que cultua a juventude, isso se torna pior. A sociedade atual usa todos os recursos possíveis para driblar a idade, os anos, as rugas e isso sem dúvida, gera uma enorme crise em algumas pessoas. Um dos fatores mais graves que isso causa é fazer com que olhemos a velhice com certa nulidade. É como se o velho se tornasse uma pessoa inútil, que requer cuidados e que gera trabalhos e dores de cabeça. Na cultura atual é isso que vemos. Na era do descartável, o velho vem perdendo o seu valor.

Tornar-se idoso é antes de tudo uma dádiva. Quem chega nesta fase, é sem dúvida um privilegiado. Mas envelhecer exige dignidade. Porém, antes de chegar a velhice, passamos pela fase que chamamos de Meia Idade e é neste período que entramos em crise, a famosa crise de valores. Nesta fase, o medo acomete tanto homens como mulheres e cada um procura a forma mais leve e menos complicada para viver esta fase. O homem geralmente tenta lidar com seus dilemas de forma individual e a mulher de forma mais coletiva.

Essa crise sempre existiu, mas ela ganhou nome em 1965 pelo médico canadense Elliotti Jaques. Porém foi com a chegada das redes sociais que a evidência desse período de nossas vidas tornou-se mais notório e muitas vezes, constrangedor. Foi o cineasta Woody Allen que disse certa vez, que “A vida é uma doença fatal e sexualmente transmissível,” e essa afirmação nos faz pensar que envelhecer é, portanto, natural e não nos parece saudável lutar contra a inevitável passagem do tempo.

A Gerascofobia é a fobia mais típica da meia idade. Acredite: algumas pessoas tem tanto medo de envelhecer, que sofrem e adoecem com esta possibilidade. Porém quando se é jovem, pouco pensamos que vamos envelhecer e raramente temos medo dessa fase da vida. A juventude é o tempo mais rápido de nossas vidas e, portanto, sempre somos muito imediatistas, rápidos demais. Tudo se resolve na hora e nosso relógio psicológico bate mais acelerado.

É claro que é preciso se cuidar, ingerir alimentos saudáveis, praticar esportes, manter a mente ativa, cultivar o lazer, as amizades e os hábitos que nos fazem bem. Mas não é disso que me refiro. É preocupante o processo maçante de mostrar ao outro que estamos bem, que não estamos envelhecendo, que somos jovens e que o tempo só passou para os outros. Por que temos tanto medo de envelhecer? Será se isso acontece porque, em muitos casos, a velhice está associada a aspectos negativos? Doenças, perda de mobilidade, mudança de aparência e de comportamentos só acontecem na velhice?

Em contrapartida a isso e agravando ainda mais a crise, as empresas de cosméticos, cremes, rejuvenescedores, sucos, comidas, ervas, aromas e uma multidão de milagres que adiam a velhice, crescem e se proliferam. Nas redes sociais, o que se vê é a meia idade gritando que não está mal e que tudo vai bem. É de fato uma perda de identidade onde as pessoas não sabem mais quem são, vivem e se comportam como se daquela idade não fossem. Os quarentões parecem adolescentes e os idosos parecem quarentões. Um simples pronome de tratamento, como Senhor ou Senhora gera uma crise e o dia se perde ali.

Festas e mais festas, noitadas, corpos à mostra, tattuagens, músculos, risos, plásticas, silicones, maquiagens, amigos, qualidade de vida, sexo e juventude, tudo isso postado em redes sociais atesta a dura realidade de que, antes de tudo, não envelhecer é estar bem e em paz consigo mesmo. Atesta que, juventude antes de ser comportamento, é um estado de espírito. Atesta que, não lidar bem com a idade, com as dores e as delicias que ela traz, pode ser um forte indício de crise e crise da meia idade. Lá no fundo, bem escondido com os nossos valores, não podemos perder o compasso do tempo e esse não é nosso inimigo: é nosso aliado.


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escreve e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ANTECIPAR SOFRIMENTO PRA QUE?


As expectativas são as que nos consomem a conta gotas, dia após dia. Será se vai dar certo? Será se vou conseguir? Será se o resultado do exame será positivo? Será se irei me arrepender? Será se vou gostar? Isso tudo, vira uma prisão que nos deixa do lado de cá, enquanto a vida vai acontecendo do lado de lá, da forma como deve ser. A vida carrega em si o que há de pior e o que há de melhor. A expectativa, se não for bem trabalhada, apenas nos atrapalha e cria em nós o sofrimento.

É muito difícil chegarmos a amarga verdade de que, às vezes, não somos o protagonista de nossas vidas. Dói saber que alguns acontecimentos irão surgir e que não teremos nenhum controle sobre eles. Muitos deles, são aqueles que sempre evitamos e até deixamos de aproveitar alguns momentos da vida, pela simples possibilidade de não atraí-los. A verdade é que deixamos de viver o hoje, em função de um amanhã, que queremos muito que acontece, mas não sabemos como será.

Mas o que deve ser feito, para não sofrermos em relação aquilo que nem sabemos se vai acontecer? Deixar de focar nas expectativas e voltar-se mais para o presente, talvez seja a melhor saída. Sofrer por antecipação é uma tarefa inútil, sobretudo porque não vamos viver o hoje e os presentes que ele sempre traz. Viver o hoje é a melhor forma de não preocupar-se com o viver de amanhã. Não podemos nos esquecer, que nos prepararmos para o futuro é mais produtivo do que apenas preocuparmos com ele. Não confunda alienação com falta de expectativas e planejamento de vida.

Grande parte de nós, vivemos o hoje de forma imediata (e isso até certo ponto é bom). O perigo é que com isso, vamos nos tornando descartáveis demais. O valor das pessoas e comportamentos se perdem muito facilmente. As pessoas passam a ser coisas e as relações são para o momento, para o agora. Não raro, criamos a expectativa de quem estará conosco na velhice, se estaremos felizes, se seremos solitários ou teremos alguém do lado para viver essa etapa da vida.

O importante mesmo na vida, é buscarmos a felicidade com aquilo que temos e do jeito que somos. Se as expectativas não aconteceram de forma positiva ou se vamos ter que lidar com uma descoberta desagradável, ou se as surpresas foram as piores ou se as conquistas foram as pequenas, ainda é possível ser feliz. Se fizeres uma busca, sua memória vai te levar ao dia em que você alimentou uma grande expectativa e quando ela veio, chegou embrulhada em um papel que não te agradou. O mundo acabou? Você achou um novo significado pra vida e cá está, vivendo-a tão bem.

Lembre-se: se alimentares apenas de expectativas, tua vida para. Se alimentares o teu otimismo, tua vida anda. Liberte-se! Quando passar o tempo, você verá que o que valeu a pena mesmo, não foram as expectativas. Foram os acontecimentos, bons ou ruins.


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, pedagogo, escreve e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

SE PRECISAR FORÇAR, É HORA DE TROCAR.


Essa devia ser a nossa máxima para a vida. Em todas as relações que construímos por ela, deveriam ser pautadas nessa proposta: Tá apertado? Troca! Tá forçando? Despacha! Tá machucando? Passa pra frente. Seria bom se fosse tão simples assim.

No dia a dia, com objetos e pequenas coisas que nos cercam, é assim que funciona. Os anéis, os sapatos, as roupas, todos eles são esquecidos quando percebemos um dia que aquilo não nos serve mais. Mas porque é tão difícil fazer isso quando o assunto são aqueles que estão em nossas relações e em nossos sentimentos? 

Já pensou sobre aquela amizade que há algum tempo não te acrescenta mais nada, que ela ainda existe porque você anda forçando nas ligações, nas buscas, nos convites e nas redes sociais? Tem percebido que está um pouco apertada e que parece que não te serve mais?  A única saída e trocá-la, deixá-la de lado. Amizades desconfortantes não servem para a vida. Com o passar do tempo, vamos descobrindo que há coisas que melhoram, que se encaixam, enquanto existem outras que apertam, não vão mais se adequando.

O mesmo acontece nos relacionamentos amorosos. Se não ficarmos atentos, eles vão nos apertando, nos sufocando e podemos descobrir muito tempo depois, que já deveria ter dado um fim a eles, bem antes. Precisamos entender, que relacionamos para sermos livres e para isso buscamos alguém que tenha o mesmo compasso na hora do voo. Algumas pessoas, quando se relacionam, se prendem, se auto enjaulam e afasta até os amigos que antes completavam sua vida. Relacionar assim não serve. Se está difícil pra encaixar e quando usa não está confortável, é sinal que precisamos deixar ir. 

De igual modo o emprego: já tem tempos que não te deixa feliz. Está apertado e de todas as maneiras que já tentou, não há solução. A produção caiu e você já tem observado que o seu tamanho é outro e por isso não encaixa mais. Você cresceu! O tempo te fez um outro profissional e por isso não cabe mais naquele cultura, naquele clima e a sua ideologia é outra. Sabe qual a melhor atitude a fazer: mudar. Mudar de ares, deixar aquela vaga para outro e ir atrás de novos desafios. Com certeza, tem um mundo melhor, do que este que serviu por um tempo, mas agora se tornou pequeno demais.

Assim é a vida. De vez em quando precisamos rever tudo o que temos construído e abrir mão de algumas peças, para fazer com que outras novas ocupem o lugar. Pode ser que vai doer um pouco, que machuque de imediato ou até nos cause tristeza e pranto, mas vida apertada e sufocada dói bem mais. E como dói... Só sabe o prazer de usar algo do seu tamanho, feito dentro dos seus moldes, aquele que um dia ousou e fez algumas trocas.

O perigo reside, de forma sutil, no momento em que precisamos forçar algo, para que ele se encaixe a nós. Isso vai gerar dor. Se para o seu tamanho não tem ou está esgotado, parte pra outra. Só vai ser bom, se o tamanho for o seu.  


De hoje em diante o lema é: Se estou precisando forçar, é porque não é pra mim. Eu passo!



Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, escreve e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário,  em Goiânia-GO.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

BOA NOITE FERNANDA


Uma das manias de Mário, era sempre organizar seus recortes, notícias, fotos, jornais e revistas de seus últimos assassinatos. Declarava-se muito organizado. Essa sempre foi a qualidade que o diferenciava em seu trabalho. Também tinha como mania, ler e reler os seus diários criminosos. Sentia-se incomodado, pois sempre que lia, achava incompleto o que o obrigava a ser o mais detalhista possível. Isso de certa forma o relaxa.

Há quase dois anos sem férias, a empresa sinalizou 40 dias antes, que suas férias se aproximavam e, bem cansado, viu que tinha necessidade de viajar. Já faziam 8 meses que cometera seu último crime e a mídia já o havia esquecido, podia dessa forma, arriscar-se um pouco mais e sair além de casa e do trabalho. Ainda frequentava a igreja, e sempre se emocionava quando o Padre referia-se a Marilene.

A noite, enquanto bebia o seu café rotineiro, definiu que ia para o interior do estado, visitar a casa dos avós maternos e tios. Há muito tempo não os visitava em virtude da distância e da vida pacata que geralmente as cidades do interior oferecem. Entre um gole e outro, definiu também que era melhor ir de ônibus, pois precisava economizar. No dia seguinte, comprou as passagens e avisou a todos a data que iria chegar. Como sempre, todos ficaram em festa. Sempre foi um neto querido pelos avós.

No dia da viagem, fez as malas bem cedo, cortou os cabelos, comprou alguns presentes, colocou seu livros de faroeste e mitologia grega na mala e os itens de higiene pessoal. Vaidoso como sempre, a beleza pessoal não podia ser esquecida. Selecionou uma boa pasta de música e 1 hora antes da saída já estava na rodoviária.

Como mania também, só viaja na última. Justificava sempre quando criticado, que tinha medo de morrer e na sua concepção, as últimas cadeiras são as menos prováveis, em um suposto acidente ou assalto, de serem atingidas. Foi o primeiro a entrar no ônibus e de gorro na cabeça e fone de ouvido, observava um a um os passageiros que entram no carro. De lá não saiu até quando sua poltrona do lado foi ocupada.

Do seu lado, sentou-se um moça morena, cabelos pretos soltos encaracolados, dois travesseiros de flores e um cobertor de ursinho puf. Se cumprimentaram apenas com os olhos e um sorriso de canto de boca. Ambos continuaram em suas músicas e apenas observavam a paisagem lá fora que passava com a velocidade do ônibus. Estava frio e cobertos seguiam dormindo.

Depois de algum tempo, na segunda parada, grande parte dos passageiros desceram e foi o momento deles também saírem do ônibus. Lá fora, entre o costumeiro café, dispensaram o fone de ouvido, se apresentaram, sorriram e trocaram mais informações. Ela disse que também ia visitar a casa dos parentes, que era Engenheira Agrônoma e que amava cães. Estava solteira e que amava viajar. Neste papo, ele lamentou o fato dele ter que descer 100 km antes do destino dele, mas a convidou para vir visitar as cachoeiras da cidade de seus avós. Ele comprou chicletes, ela fumou um cigarro.

De volta ao ônibus já bem vazio, ela sentou nas poltronas do lado, alegando maior espaço na cadeira vazia. Ele continuou em sua cadeira de origem. Ainda falaram um pouco e ela sonolenta, disse que dormia devido o remédio que sempre tomava para evitar o enjoo da viagem. Ele logo ouviu sua respiração mais forte.

Com a luz do visor do celular, notou que um dos travesseiros dela estava no corredor do ônibus. Tirou o cobertor do seu corpo, e com meias nos pés, levantou-se e pegou o travesseiro, Colocou sobre seu rosto e comprimiu apertando-lhe o pescoço. Quando não ouviu mais sua respiração, conferiu-lhe o pulso direito e confirmou sua morte. Cobriu-lhe a cabeça, voltou e ocupou sua cadeira. Em pouco tempo o motorista anunciava a sua chegada na sua cidade. 

Com as luzes do corredor acessas, calçou seu tênis, pegou sua mochila e com um sorriso discreto de satisfação disse: "Boa Noite Fernanda". Pediu um táxi e partiu. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, escreve e faz palestras, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário,  em Goiânia-GO.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ALMOÇA COMIGO.


Dia desses, fui ministrar uma aula no Interior durante o fim de semana. Após a aula, a caminho do restaurante, sol a pino, desço a pé, uma distância razoavelmente pequena, embora parecesse maior, dado o horário e a fome. Tinham me orientado a ir ao restaurante conhecido na cidade e com boas opções no cardápio.

Sempre que tenho oportunidade, gosto de me deixar surpreender pela realidade, para assim me inspirar a escrever. Na verdade é um dos motivos que faz com que eu adie o momento de escrever algo. Assim, observo, vejo e busco algo. O que quero é o cotidiano, o acidental, as pessoas, os fatos, a convivência, os detalhes simples. A vida diária sempre se torna pitoresca quando olhado sob tal perspectiva. São os flagrantes que me emocionam mais.

Ocorreu, que chegar na entrada do restaurante, ao pé de uma pequena escada, um cidadão, que andava atrás de mim, e que eu não notara, me aborda fazendo com que eu me volte e o veja. Estava descalço, cabelos e barba por fazer, precisava também de um bom banho e de trocar as roupas, que embora gastas, estavam em bom estado: camiseta de posto de gasolina e bermuda xadrez. Tinha uma certa dificuldade em falar, seja no tom das palavras, seja na pronuncia delas. Notava-se também, pequena dificuldade em andar, talvez pela deformidade no pé direito. Porém, me chamou a atenção.

Acanhado e olhando para o chão, me pediu desculpas pela investida e me pediu uma marmita. Disse que estava com muita fome. Fixei o olhar nele,perguntei-lhe se estava estava sozinho e se já tinha feito alguma refeição naquele dia. Para confirmar minha suspeita ele disse que não. Sem titubear disse-lhe então, que eu também estava sozinho e lhe daria a marmita, mas só se sentasse comigo à mesa. Então, ele olhou nos meus olhos e disse que não podia entrar, pois não era bem aceito, por não ser apropriado ao lugar.

O acidental sempre faz com que o essencial se perca. Retruquei e disse que se fosse meu convidado "eles" iriam aceitar. Sem mais nada para contar, ele aceita e entra comigo. Permito que ele se sirva primeiro, escolhendo ao seu modo o que gostaria de comer, sentindo o cheiro, vendo as cores de algo que talvez nunca tinha comido antes. Procurei uma mesa, onde nos sentamos frente a frente. O garçom nos aborda e pergunta o que tomaríamos e deixei que ele escolhesse e optou por uma coca cola gelada. 

Eu observava mais do que me alimentava. Na verdade, todos observavam e conversavam entre si sem entender muito o que estava acontecendo. Os garçons e demais funcionários falavam entre si e perguntavam quem eu era e porque fazia aquilo. As pessoas que estavam indo acertar no caixa, também indagava ao atendente o que era aquilo. Eles não me conheciam, mas conheciam meu convidado.

Com lágrimas nos olhos, ele disse que nunca tinha almoçado em um restaurante em toda a sua vida e que quando passava por ali, sentia muita vontade de entrar para ver o que acontecia lá dentro. Perguntei seu nome, disse o meu a ele, perguntou se podia repetir o prato e poucas palavras trocamos. Terminados fomos saindo, agradeceu, despediu-se e se foi. 

Quando eu estava acertando o valor devido, um cidadão que fazia sua refeição sozinho me abordou e disse que minha atitude foi bonita, louvável e que pra ele foi uma lição. Disse porém que não entendeu porque eu fizera aquilo. O que eu ganhara com tudo isso. Disse  a ele que algumas coisas na vida não precisam de uma explicação. O essencial não pode fugir dos olhos. 

Ah, em sua despedida e agradecimento, o Carlos disse que tinha sido um dia muito feliz na vida dele, por dois motivos: pelo banquete que ele ganhou e por eu fazê-lo lembrar que ele tinha um nome. Eu disse que na minha vida também, tinha sido um dia feliz.

Por fim, pedi um abraço. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

segunda-feira, 28 de março de 2016

CARTA PARA 2065

Sabe, não sei ao certo como chamar você. Não sei o seu sexo, não sei a sua cor, não sei como brilha seus olhos. Não sei o seu nome, nem a sua idade. Apenas sei que estás lendo esta carta, que resolvi escrever na páscoa de 2016, 50 anos antes deste momento. Saiba que estou feliz por ela ter chegado até você. Leia bem devagar e dispense um momento dos seus afazeres para apreciar este presente.

Quero dizer a você que nunca vamos nos conhecer. Nunca! Nem por fotografias ou redes sociais. Mesmo com toda a tecnologia que já havia no meu tempo e muito mais avançada no seu tempo, não fará esse encontro. Você veio de um sêmen congelado há 76 anos atrás. Não se lamente ou se frustre. Essa prática estava ficando comum na época. Portanto, você também não saberá a cor da minha pele, a altura e o peso que coube a mim, a cor dos meus cabelos e nem conhecerá a minha forma de sorrir amiudando os olhos.

Há 50 anos antes, este mundo era bem diferente, mas já haviam as frustrações, os medos, as incertezas, as paixões mal resolvidas. Hoje, é preciso acordar cedo, batalhar, estudar, construir a estrada para um futuro melhor. Se proteger, desconfiar das pessoas e andar sobressaltado e em alerta. Nos seus dias, penso que o homem deve estar pisando na lua sempre, em marte e porque não em Júpiter. Imagino que os carros estão mais velozes, que as pessoas estejam mais frias, os rios mais poluídos e quase todos usam drogas.

Porém, há 50 anos também já haviam pessoas honestas, boas, sinceras... a palavra amigo já havia sido inventada, a palavra família também e já havíamos aprendido a sorrir. Penso que em 2065 isso ainda exista. Ame sua família e conte suas bênçãos a ela. Deixe para trás a dor que o dia a dia irá te causar e nunca deixe de sonhar. Era o que eu fazia muito. Todas as grandes realizações foram alcançadas através do trabalho e da espera e muito mais porque alguém sonhou. Portanto, peço-te que cultive a paciência. Por favor, não culpe as pessoas pelas condições em que você se encontrará determinadas vezes. Lembre-se que os fracassos e as vitórias serão fruto do seu trabalho e das suas escolhas.

Quero muito que você tenha uma condição financeira estável para viver melhor. Sim há 50 anos atrás o dinheiro já fazia a divisão de classes. Não sei o país em que você mora, nem imagino como deve ser a família de sua mãe, mas se necessário for, aprenda a conviver com a pobreza honesta e dedique-se a coisas bem mais importantes do que levar ouro e fama para a sua sepultura. E outra coisa que quero te dizer: Por certo eu já morri e imagino que já tenham dito que você também irá morrer. Portanto, não faça nada pela metade e não alimente a ansiedade pelo dia de amanhã, pois nunca sabemos se vamos terminar este. Mas jamais descuide de sua saúde. Ela e somente ela é que nos leva ao caminho da felicidade. Lembre-se de que é necessário muito pouco para uma vida feliz.

Sempre aprenda com os outros que estão à sua volta. Não leve a vida com arrogância pois aquele que ensina a si mesmo tem um sério risco de ter um tolo como professor. Sempre que encontrar em si mesmo algo que o encha de orgulho, examine atentamente e vai descobrir mais do que o suficiente para ficar humilde. É provável que nos seus dias essa qualidade tenha se tornado rara. Nos meus dias também.

E por fim, há um sentimento que talvez você está sentindo ao ler esta carta. É exatamente o que estou sentindo agora. Esse sentimento chama saudade. Com sua magia, a saudade nos faz senti-la por pessoas e lugares que não conhecemos. Não quero que a partir de agora, fique procurando nas pessoas o meu rosto. Não há necessidade. Mas quero que sinta e cultive o doce sabor do poder da saudade. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 22 de março de 2016

LIBERDADE


Há tanto do que se libertar e é tao importante se libertar, que a liberdade passa a ser um bem mais importante do que a vida. Constantemente as pessoas arriscam a vida, para ter alguns minutos de liberdade. Nesse momento, a vida passa a ser pequena tamanha a sensação de sentir-se livre. Morrer frente à liberdade, parece ser insignificante. A liberdade conecta ou nos desconecta com as leias e com a realidade? Estar livre é viver fora das normas da lei?

Foi a grande filósofa escritora francesa, Simone de Beauvoir (1908 -1986) que em sábias palavras traduziu o poder da liberdade: "Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria subsistência, já que viver é ser livre". Em outro momento, o poeta escritor português Fernando Pessoa (1888 - 1935 ) nos coloca em cheque quando diz que "a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é possível viver só, nasceste escravo". Que dura sentença.

Mas a verdade é que quase sempre não pensamos naquilo que de fato nos prende e que também não pensamos no que devemos fazer para ser livres. A liberdade parece ser utópica, uma vez que é passiva de questionamento sobre o que é liberdade ou o que nos faz sentir livres. Sempre nos queixamos que não nos sentimos livres, mas nunca nos queixamos daquilo nos aprisiona. Já parou para pensar do que você precisa se libertar?

Há que se libertar da língua que fera e dos comportamentos que aprisionam. Há que se libertar da angústia cruel e da maldade que desola e assola a alma. É possível se libertar da dependência de outros e dos outros que dependemos tantos. Necessário se faz, que sejamos libertos da piedade dos demais e da frieza dos que nos rodeiam.

Que a liberdade empurre pra longe o coração frio, o abraço sem vida, o sorriso sem alegria e o arco ires sem cores. Que ela nos livre do beijo traidor e do toque sem alento. Que possamos ter a ousadia de escolher o que nos faz bem e não somente o que nos dá status.

Libertemo-nos do cansaço que definha, da dor que escraviza, da ilusão que nos engana e da mentira leve que sempre nos confunde. Liberdade dos amigos insensatos e dos namoros comprados. Liberdade do emprego adoecedor e das migalhas que nos engorda dia a dia. Que a liberdade nos afaste do orgulho que nos torna indiferente e da mágoa que nos deprime e arranca nossas lágrimas.

Que a liberdade se achegue e afaste as manias que nos condicionam aos amores que não se prendem a nós. Que possamos aprender mesmo a deixar livre o que amamos e que possamos nos sentir livre, mesmo quando estamos amando alguém. Amar e ser livre é possível? Qual a conta exata dessa equação?

Que o poder da liberdade traga para perto de nós, a capacidade de dizer não, quando de fato queríamos dizer não e que o sim nunca seja dito sob os constrangimentos da prisão. Que a liberdade entregue em nossas mãos, a capacidade de escolher a roupa, o sapato, o cabelo... sem a necessidade de estar preso ao  que dizem ou ao que determinam. Que somente a liberdade nos permita ter o corpo que temos, do jeito que somos sem a necessidade de ter o corpo que o outro determina.

Que com o tempo, a liberdade nos ensine que escolha tem a ver ela própria e que ela mesma nos ensine a fazê-la de forma tranquila e sem prisões.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


O CIÚME E SUAS AMEAÇAS

  O ciúme costuma ser tratado apenas como prova de amor, mas, para a psicanálise, ele revela conflitos muito mais profundos. Sigmund Freud, ...