sexta-feira, 3 de abril de 2009

A NEGRA E A MANGA

Era uma sexta-feira do mês de outubro e havia chovido muito naquela tarde. Sexta sem chuva já é cheia de expectativas, imagine com muita água. O expediente foi parado outra vez e eu resolví ir logo embora. Era por volta das 16h30 e lá fora se via muitos poços de água na rua.

O bus não demorou muito e por sorte estava vazio. Vazio não, mas eu ainda consegui assento. Não demorou muito, entramos em ruas primárias e mais movimentadas. Por volta do terceiro ponto nesta via, muitos passageiros entraram e junto deles uma senhora negra, aparentando seus 55 a 60 anos. Semblante sério sem deixar de ser sereno. Olhos cansados, um lenço na cabeça e uma sacola na mão. Imaginei que estivesse vindo do trabalho também. Talvez tenha sido a negra mais negra que já vi. Sua cor brilhava já fugindo para o azul.

Logo que entrou, lhe deram um banco, gesto bonito e lógico, por se tratar de ser ela mais idosa que o passageiro que lhe dera. Assim que sentou, retirou da sacola que trazia, duas mangas bem maduras. Imagine você, como estão as mangas, justo nessa época do ano: uma tentação. Devolveu à sacola a menor delas e que aparentemente estava mais verde.

Sem nenhum receio, abraçou-lhe com gosto, descascando-a com os dentes, como se tivesse encontrado algo que lhe era mais precioso do que tudo. Depois de roido toda a parte externa da casca, passou a comer a polpa que parecia não estar mais totalmente consistente. As pessoas por perto, pararam com o bate papo e admiravam a cena. Uns sorriam, outros assim como eu, pareciam aprovar. A nergra, de olhos fechados chupava o caroço ao mesmo tempo em que aparava o caldo que escorria entre os dedos. Essa dramatização deve ter durado uns 10 minutos.

O cheiro impregnou-se pelo onibus e todos já notavam a cena. Depois disso e já com o caroço quase que totalmente branco, ela resolveu jogá-lo fora. Foi notório a tristeza em separar-se daquela preciosidade. Parecia se alegrar no entanto, quando se lembrava que havia outra manga na sacola. Por fim, o deixou de lado. Lambeu todos os dedos, por completo e puxando o lenço da cabeça, limpou a boca, o queixo, o nariz... Pronto! Logicamente feliz, natural e simples como se estivesse só. Num mundo só seu!

No próximo ponto ela desceu. Sem se despedir.

E eu pensei: Quão bom é, quando as pessoas saem dos seus complexos, de suas mediocridades e despertam para o novo. Quebram regras e tabus e praticam o bem. Quando são elas mesmas e deixam de ser ridículas querendo ser o que não são, mantendo status que para nada aproveitam. São mais felizes, embelezam e se realizam. Naquele momento ela estava feliz, mesmo com uma manga. E é assim que se é feliz: com momentos felizes.

Paulo Veras é psicólogo.

10 comentários:

Cris disse...

Lembro quando voce publicou essa cronica ja há algum tempo. Lembro de voce contar que foi real mesmo né? Muito legal essa história. Consigo imaginar passo a passo. É como se sentisse o cheiro da manga.

Obrigado por escrever coisas boas aqui.

Beijo

Cris

Thiago Souza disse...

Nossa, nem sei o que dizer, escrevi e apaguei várias vezes, sem noção a sensação de estar presente e no acontecido e tamanha que até o cheiro sente-se no ar, esplendido, pode abandonar a clínica e dedicar-se a literatura, a escrita, a esse mundo encantado, to conhecendo um Paulo que ate então não sabia existir.Lindo é encantador.Parabéns!!Já esta nos favoritos.

Thiago Souza.

Danilo disse...

Poxa, Paulo, que texto mais lindo. As pessoas que postaram acima, de fato tem razao. Ja to na expectativa de ler o proximo texto,
Abraços

Danilo

Leilane disse...

Muito bommmmm!
Não se vê muito isso por aqui.

Abraços

Leilane

RIC.ENF disse...

SIMPLESMENTE, SIMPLES E MÁGICO. QUANTAS E QUANTAS VEZES NOS VESTIMOS DA "CASCA" DA MANGA. JUSTAMENTE DAQUELA QUE ESTÁ MAIS VERDE E FOI DEVOLVIDA PRA DENTRO DA SACOLA, E COM ISSO QUEREMOS FAZER BRILHAR SOMENTE O QUE É APRECIÁVEL À VISTA DOS OUTROS E ESONCONDEMOS O NOSSO PROFANO NA VÃ TENTATIVA DE NOS FAZERMOS SAGRADOS. ADOREI SEUS TEXTOS!! RICARDO

Sheila disse...

Voce escreve muito bem. Que dia tem mais post novo?

Sheila

Thiago Souza disse...

É acho que podes começar a postar com mais frequancia amigo, seus fãs aguarda por mais...srsrsr

Lucad disse...

Oi amigo!

Muito bom perceber todas as entrelinhas da vida, bons tempos eram aqueles da Goiânia dos anos 90 que divídiamos espaço nos coletivos.

Ricas e atraentes histórias temos para contar sobre esta passagem de vida!

É claro que se precisar, a gente volta a andar de ônibus... agora não como estudantes, mais como formadores de opinião... talvez, apenas talvez, aprenderíamos muito mais que olhar apenas a vida de dentro da solidão do nosso carro.

Abraxx

Artur disse...

Ê isso aqui rta bombando ne?
Abraços

Artur

Anônimo disse...

Sem duvida a felicidade está na simplicidade. Nas coisas corriqueiras e sem muito glamour.
Parabéns pelo texto.